domingo, 10 de maio de 2015

Gonçalo Nuno Perestrello Santos COMUNIDADES PORTUGUESAS - CONTRIBUTO PARA UMA VISÃO GLOGAL


 

Comunidades Portuguesas

- Contributo para uma visão global -

I – A Portugalidade e as Comunidades Portuguesas

 

Dos 195 países reconhecidos pelas Nações Unidas, um, e um dos mais antigos do Mundo, chama-se Portugal. Um estado-nação com um povo secular. Um povo que se diferencia no quadro dos povos do planeta. E, se há traços da nossa personalidade coletiva que nos diferenciam, um, é a pluralidade (até que vista num quadro da nossa própria perspetiva). Essa invulgar capacidade de se adaptar no interior e no exterior do país é outro dos traços que nos careteriza. A estrutura basilar da família. A força do trabalho, da poupança e da solidariedade. A religiosidade e, também aí, a pluralidade religiosa. A cultura e a língua e a dimensão universal de ambas. Todavia, e não obstante tais qualidades de um humanismo dito superior, somos também um povo que, dentro de portas, se autoflagela num exercício de catarse permanente. Um povo dominado por um “Medo” que lhe rouba a serenidade, que o torna desconfiado para com os seus próprios pares e tantas vezes descrente de tudo e de todos. Vivemos essa dualidade. A Pátria, ela própria, torna-se pequena no imaginário coletivo.

 

Ora, da emigração dita colonizadora para as ilhas atlânticas nos séculos XV e XVI; para a rota das índias e para o Brasil; para as possessões africanas; para as ilhas do Caribe e para os países novos, nos séculos seguintes, particularmente no século XIX; para a longínqua Austrália, Venezuela, África do Sul já no século XX e, de então até hoje, aos milhares para toda a Europa, os portugueses não couberam nem cabem na Pátria. Saía gente ligada às tarefas agrícolas, na altura em que faltavam braços no Alentejo. Gente ligada ao comércio e às artes. Saíam proprietários, saíam funcionários. Saem agora académicos e gente de valor e tantos outros (que tanta falta fazem ao país) tendo como principal objetivo motivacional, para além da natural ambição humana a carência económica e a falta de condições que Portugal lhes reserva. Saem e não obstante o país permanece pobre.

 

Ora, sendo cada emigrante português, em si mesmo, um agente multiplicador de portugalidade (a exemplo de qualquer indivíduo que consciente ou inconscientemente transporta o seu património identitário), ao chegar às novas terras, com essa portugalidade que lhe é própria, criou clubes e associações, provavelmente, tendo como prioridade a defesa do grupo e a ajuda daqueles que não triunfaram nessa secular e sempre difícil aventura. Lançaram as amarras de um povo que permanecem até hoje nas nações onde se instalaram e ajudaram a construir. Dos Pirenéus à terra de Magalhães no polo sul a Kitimat nos fins do Canadá. Do Extremo Oriente a Extremo Ocidente. De um extremo ao outro da terra. Das veneráveis ordens hospitaleiras do Rio de Janeiro, fundadas séculos atrás, às sociedades de beneficência da Califórnia. Aos clubes de leitura e aos moderníssimos e sempre impressionantes centros, como o Centro Português de Caracas, esses espaços de referência são pois espaços do percurso de Portugal no mundo e qualquer discussão que os apouque arrisca-se a apagar a verdadeira História da Emigração Portuguesa. O inesgotável património de Portugal no estrangeiro, tantas vezes criado à custa das cartas que não chegaram, do brilho dos olhos das crianças que jamais viram o pai, ou das mulheres mandadas casar com a sorte, muito fica a dever a estes portugueses que, à sua própria custa, criaram mais de duas mil e quinhentas associações no mundo. Agora sem medo mas também sem mágoa ergueram e erguem, e têm orgulho, nesta que é a construção mais humana da nossa portugalidade.

 

II – Portugal e os portugueses no estrangeiro

 

Mas, se estes considerandos, à partida parecem obter a nossa concordância, impõem-se, agora, colocar uma nova questão, esta de natureza recíproca: Então se é assim, não será legítimo que nos interroguemos; primeiro, se Portugal, enquanto entidade coletiva, percebeu que todos os seus nacionais, sem exceção, os ausentes e os presentes são também Portugal e, segundo, o que fez o Estado e a Constituição que é a Constituição da Nação para manter essa pátria de interesses indivisível? Não nos restarão dúvidas admitir que o país entendeu que a emigração é um dos traços estruturais da sua própria História. Que o êxodo dos seus nacionais começou cinco séculos atrás. Que a vontade de sair e a de não caber na Pátria fazem parte da nossa idiossincrasia. Que o primeiro serviço público em Portugal com atribuições específicas na área da emigração foi criado em 1863 (Polícia dos Portos – Polícia de Emigração) mas que só o regime democrático conferiu dignidade política e administrativa a esta tão importante matéria de estado. O exemplo primeiro dessa preocupação resulta do texto da Constituição democrática que vem utilizar, pela primeira vez, no seu normativo a expressão “portugueses no estrangeiro”, acabando com a discriminação entre portugueses. Permitindo que, em sede da Assembleia da República as comunidades estivessem representadas pelos seus legítimos eleitos, graças à possibilidade que agora têm de participar nas eleições nacionais. Criando uma Secretaria de Estado, serviços próprios nas regiões autónomas, um Conselho das Comunidades Portuguesas, uma RTP Internacional e Centros de Língua Portuguesa. Instituindo disciplinas relativas ao estudo do fenómeno das mobilidades nas universidades portuguesas. Estes são, em nosso entender, braços criados para unir esses pedaços de Portugal espalhados pelo mundo. São pontes de ligação a nós mesmos. São a resposta a quem dizia que os países e os continentes são ilhas rodeadas de portugueses por todos os lados.

 

Parece-nos claro que os governos de Portugal cumpriram (contra ventos, contra orçamentos e até contra aqueles que cuidam que a Pátria se esgota cá dentro) a sua parte contratual para com as suas Comunidades e que as Comunidades cumpriram também a sua parte neste registo de proximidade que se deseja. Não foram só as remessas e a dinamização económica das respetivas terras de origem, o problema é mais complexo. É verdade que se levanta sempre a dúvida da indiferença quando chegam os míseros votos, dos emigrantes quando chamados a eleger os vários órgãos de soberania. Mas, quem não se lembra de um país de origem que quartava os deveres cívicos dos seus cidadãos? Que às pessoas era aconselhado ignorar a política, a isentar-se mesmo dela? Quem esquecerá que muitos emigrantes partiram para países onde também predominavam ditaduras? Quem preferirá esconder que o primeiro desígnio da pessoa emigrante é o trabalho e a melhoria das condições de vida fora da pátria, subalternizando todo o resto? O país, neste particular, fica longe, não é relevante quem o dirige desde que os seus bens e o produto do seu esforço se mantenham. Os luso descendentes, por seu lado, tentam singrar na política do seu país (basta ver os luso-eleitos), num país que muitas vezes não é coincidente com o país dos seus pais. Vivem pois outro quadro de referências e de diversidade. Não obstante estas dificuldades, Portugal vai ter de encontrar mecanismos cada vez mais ágeis e motivadores com vista a uma maior participação cívica dos emigrantes nas eleições portuguesas, talvez o voto eletrónico mesmo com os inconvenientes que lhe reconhecemos.

 

 

 

III – Portugal Global/Emigração na Era Global

       (A larva e a borboleta)

 

O tempo foi passando, as associações e os clubes foram, em muitos casos, perdendo fulgor. Os jovens distanciaram-se e os mais antigos criaram, já nos finais do século passado – em países como a Venezuela – geriátricos como quem gostasse de morrer na sua Pátria e não no país onde trabalharam e os encurralou.. O nascer esplendoroso do movimento associativo da segunda metade do século passado começa a dar sinais de cansaço, bem como os seus fundadores. Os países aceleraram o ritmo. As sociedades cada vez mais individualizadas, hierarquizadas numa perspetiva global, passaram a exigir de todos uma tenaz competição. Assiste-se à mundialização dos negócios, do comércio e do conhecimento. É óbvio que não morrerão os movimentos associativos, nem os clubes, basta ver quantos são os jovens e as crianças que ainda os integram e a atividade meritória, no campo cultural, desportivo e empresarial, que ainda desenvolvem. Mas, os países mudaram. O conceito da distância praticamente desapareceu. Na origem, Portugal cresce e vira-se para a Europa deixando esse passado de iliteracia e fome que o caraterizava. No destino, os países recetores modernizaram-se. A própria Europa teima em assegurar a centralidade que lhe vai escapando. A informática criou uma geração autónoma de pessoas que, agora, dependem mais de si próprias do que da sociedade de onde emanam. A internet inunda o mundo com informação online. Tudo mudou. O tempo. Os países. O Homem e até a saudade da Pátria. Acabou-se o tempo do ovo e da larva, da proteção e do grupo, inicia-se um tempo novo. O do Homem alado, autónomo, global valendo o justo preço do seu saber, já nada o detém. Tal borboleta que foi ovo, larva e agora voa (voa o voo que o deixam empreender mas esse percurso é um percurso individual). É, pois no seio desta nova verdade que temos de construir uma portugalidade. Uma diáspora catalisada não tanto pela saudade mas pelos interesses e referências comuns. Um reinventar a Pátria à luz da soberania do Homem português onde quer que se encontre no mundo. Cada emigrante, letrado, comerciante, influente ou não é (em si mesmo) Portugal e a nossa função é a de chegar a ele. A grande questão é saber-se como? Como atrair uma nova geração que rompeu com o mito do retorno, uma geração que já não tem Portugal no horizonte próximo? A língua portuguesa pode ser ou não um lugar de encontro mas dificilmente substituirá a língua franca que é o inglês.

 

O paradigma da globalização trouxe consigo diferentes maneiras de ser e de estar no mundo. As novas tecnologias tiveram o dom de aproximar pessoas, que agora se encontram à distância de um clique. Aquilo que era inimaginável tornou-se agora possível. Rádios e televisões online e uma panóplia de instrumentos que nos ligam ao mundo no exato momento do acontecimento. Urge, pois que os serviços do Estado acompanhem estas tendências. Passou-se da era do papel à era do digital. Criaram-se novas formas de associação e de redes. A História é rica em relatos de quem sempre procurou saber, de quem sempre quis juntar o presente, o passado e o futuro. Hoje, as novas tecnologias de comunicação abrem um sem número de oportunidades a este nível e permitem-nos esquecer barreiras e ultrapassar distâncias. A exemplo de excelentes contributos de outras entidades nesta área, também o Centro das Comunidades Madeirenses lançou uma plataforma digital (ccm.gov-madeira.pt) que não é mais do que a construção de um espaço sem fronteiras, de proveito mútuo e onde a nossa memória individual e coletiva se complementam, contribuindo para a criação de uma Madeira no Mundo, onde todos têm voz e capacidade em fazer-se ouvir. Esta nova plataforma congrega diversas valências: um boletim informativo, facebook, bem como a caraterização dos principais destinos de emigração madeirense, e contactos úteis a essas comunidades, tais como contatos de médicos, advogados, e outros profissionais. É uma plataforma que esperamos, com o contributo de todos, aperfeiçoar.

 

Em conclusão: Esta longa passagem pelo glorioso Mundo das Comunidades Portuguesas, ou pelo Mundo de Portugal fora da Pátria não pretendeu ser uma retórica repetitiva. Procurou, outrossim, voltar a mostrar o património inigualável e inesgotável que Portugal tem ao seu dispor. Tentamos abordar o indivíduo como centro e não periferia do grupo. E finalmente, chamar a atenção para a importância de sabermos aproveitar, esta época de constrangimentos financeiros, para,  por utópico que nos possa parecer, para unirmos, talvez pela primeira vez na História de Portugal a família portuguesa com os benefícios inerentes à construção de um país diáspora que de há séculos se impõe.

Victor Gil - NOVAS FORMAS DE ASSOCIATIVISMO (2013)


ENCONTRO MUNDIAL DE MULHERES MIGRANTES

 

“Expressões Femininas da Cidadania”

Palácio das Necessidades, 24 e 25 de outubro de 2013

 

2.º Painel – Comunidades Portuguesas. Novas formas de associativismo

 

Uma breve palavra introdutória para saudar todos os presentes, a começar pelos membros deste painel, e agradecer à Dr.ª Manuela Aguiar e à Dr.ª Rita Gomes o convite para participar neste Encontro, mais uma bela iniciativa promovida pela Associação Mulher Migrante, na linha da valorização das comunidades, em especial das mulheres e do seu papel nos vários setores da vida social.  

 

Portugal, ainda hoje um país de emigração  

Quando nos anos setenta, mais precisamente em janeiro de 1973, iniciei as funções de técnico no então Secretariado Nacional da Emigração, a emigração portuguesa continuava com elevados níveis de fluxos, se bem que inferiores às grandes vagas registadas na década de sessenta. Após o termo da II Guerra Mundial, na opinião de Francisco Carvalho, autor do livro “A emigração portuguesa nos anos 60 do século XX – Porque não revisitá-la hoje?”, Portugal teria entrado numa nova fase de fluxos migratórios que começou a estruturar-se nos anos 50 e que veio a acentuar-se nos anos 60 seguintes.

Foi por esses anos, segundo muitos analistas dos movimentos migratórios internacionais, que se esboçou o início de uma segunda era de migrações de massa da época contemporânea – a primeira decorreu entre 1850 e 1930 –, caracterizada, no fundamental, pela sua mundialização, abrangendo regiões que antes pouco eram tocadas por esse fenómeno, e pela sua regionalização. Numa população mundial de 7 mil milhões de habitantes, mil milhões encontram-se numa situação de mobilidade, correspondendo três quartos a migrações internas e um quarto a migrações internacionais. Hoje, os migrantes internacionais ultrapassaram os 200 milhões e, virtualmente, constituem o quinto país do Mundo. É a partir dessas novas realidades das migrações que Catherine Wihtol de Venden, diretora de investigação no CNRS em França e autora de número significativo de obras na área das migrações internacionais, passou a classificar os movimentos migratórios em quatro grandes configurações: Sul-Sul, com 62 milhões de migrantes; Norte-Norte, com 50 milhões; Norte-Sul, com 14 milhões e Sul-Norte, abrangendo 63 milhões.

No que respeita à emigração portuguesa, continuando a apoiar-me no trabalho já citado de Francisco Carvalho, a evolução registada nesses períodos foi a seguinte:

- De 1945 a 1970 - 1,1 milhão de emigrantes, com especial incidência na década de 1961 a 1970, pois, em apenas 10 anos, o total de saídas foi de 681. 004;

- De 1971 a 1980 - 364.851 emigrantes;

- De 1981 a 1988 - 131.059 emigrantes (Em relação aos anos de 1989 a 1991, as Estatísticas Demográficas do INE não publicaram dados sobre a emigração);

- De 1992 a 2003 - 336.741 emigrantes.

A partir de 2003, deixou de haver a publicação de estatísticas sobre a emigração. O INE lançou depois um sistema de recolha de informação através do “Inquérito aos Movimentos Migratórios de Saída” mas o sistema veio depois a ser suspenso, em virtude dos dados obtidos revelarem margens significativas de erro. Mais recentemente, o INE começou a publicar as “Estimativas Anuais de Emigração” para emigrantes permanentes e temporários.

De 2008 a 2012, as estimativas são as seguintes:

Emigrantes permanentes

- 2008 – 20.357 emigrantes:16.286 homens e 4.071 mulheres.

- Local de residência futura: 15.581 emigraram para países da UE e 4.776 para países extra-comunitários;

- 2009 – 16.899 emigrantes: 13.519 homens e 3.380 mulheres.

- Local de residência futura: 10.891 optaram por países comunitários e 6.008 por países não comunitários;

- 2010 – 23.760 emigrantes: 19.008 homens e 4.752 mulheres.

- Local de residência futura: 14.838 dirigiram-se para países da UE e 8.922 para países não membros da União Europeia;

- 2011 – 43.998 emigrantes: 31.329 homens e 12.669 mulheres.

- Local de residência futura: 28.489 partiram para países da EU e 15.509 para países fora da EU;

- 2012 – 51.958 emigrantes: 34.540 homens e 17.418 mulheres.

- Local de residência futura: 34.418 escolheram como destino países da EU e 17.510 países não comunitários, sendo desconhecida a opção de 30 emigrantes.

Emigrantes temporários

- 2011 – 56.980 emigrantes;

- 2012 – 69.460 emigrantes.

Se bem que não disponhamos de dados obtidos através de um sistema de recolha direta de informação sobre a emigração portuguesa, as estimativas publicadas pelo INE têm todavia a marca da autoridade e da qualidade, por procederem do órgão central do Sistema Estatístico Nacional. Elas constituem por conseguinte a origem dos dados de que me servi para destacar algumas das tendências mais marcantes dos atuais fluxos emigratórios portugueses, que passo a resumir:

1.º A permanência do fenómeno no quadro da evolução histórica da sociedade portuguesa e, numa perspetiva mais ampla, dos movimentos internacionais de mão-de-obra;

2.º O seu significativo aumento registado nos últimos anos, em consequência da atual crise financeira e económica internacional e das suas repercussões na economia e na sociedade portuguesa, com o crescimento, em especial, do desemprego;

3.º O aumento do número dos trabalhadores temporários e da sua percentagem no quadro dos movimentos migratórios portugueses. Faltam dados para aprofundar a análise desta categoria de emigrantes mas, pelo conhecimento direto de muitos casos, penso que uma parte significativa será constituída por trabalhadores destacados;

 4.º - A nível dos grupos etários, a larga percentagem é constituída por população ativa, com principal incidência nos grupos etários entre os 20-24 anos e os 30-34. Mesmo assim, não deixa de ser significativa a percentagem das crianças e dos jovens, ente os 0-4 anos e os 15-19 anos, o que pode indiciar a saída de importante número de agregados familiares;

5.º - Por distribuição por sexos, continua a verificar-se uma predominância significativa da saída de homens, devido aos movimentos de temporários, na sua quase totalidade constituída por emigração masculina, embora se verifique que há cada vez mais mulheres isoladas a emigrar, mas numa percentagem ainda inferior à que se regista a nível internacional. Hoje, metade dos migrantes internacionais são mulheres, cujo perfil registou todavia uma evolução muito significativa. O perfil tradicional da mulher que emigra para se juntar ao marido, no quadro do reagrupamento familiar, tem vindo progressivamente a dar lugar ao perfil da mulher independente, à procura de emprego, e a modalidades de emigração específicas, tal como a migração de mulheres de países do sul para se ocuparem dos cuidados às pessoas da terceira idade dos países industrializados, quando o nível de cuidados médicos é reduzido;

6.º - A crescente diversificação dos destinos, se bem que os países comunitários continuem a ser os principais países recetores da nossa emigração;

7.º Sobre a evolução por categorias socio-profissionais e respetivo grau de qualificação, lamentavelmente, faltam as estatísticas. A nível internacional, a mobilidade estudantil e o êxodo dos jovens qualificados ganharam particular importância nas novas configurações migratórias Sul-Norte e Norte-Norte. Parece assim evidente que se vai acentuar a tendência da nova emigração portuguesa ter de responder a critérios de qualificação cada vez mais exigentes.

 Em resumo, quando agora me aproximo do fim da minha carreira profissional, a emigração voltou a atingir níveis idênticos aos de outros períodos de crise da nossa história, tal como nos anos 20 ou 60 do século passado A emigração continua a ser, citando Vitorino Magalhães Godinho, uma constante “estrutural” da vida nacional e uma insubstituível via de acesso ao emprego ou à melhoria dos rendimentos e das condições de vida para milhões de nacionais portugueses, a exigir das autoridades portuguesas, tal como nos anteriores períodos de crise, uma intervenção atenta e ajustada às reais necessidades dos novos fluxos emigratórios.

 

Comunidades Portuguesas, os novos países de acolhimento  

Quanto à orientação da emigração em termos de países de destino, nas suas grandes linhas, registou-se uma profunda mudança no pós-guerra, sobretudo nos anos 60 e 70, com uma inversão nas preferências geográficas, verificando-se uma diminuição progressiva dos movimentos para os países do continente americano, designadamente para o Brasil, a par do aumento contínuo das preferências pelos países europeus, principalmente pela França. A um ciclo transoceânico sucedeu um ciclo europeu ou, como diz Francisco Carvalho, passou-se “do ciclo americano da emigração nacional, essencialmente brasileiro, para o ciclo europeu, que é fundamentalmente francês”. No seu ponto de vista, passo a citá-lo, “este desvio nas preferências geográficas do emigrante português entender-se-á melhor se pensarmos que os candidatos à emigração passaram a poder optar entre a tentativa de fortuna a longa distância, além-atlântico, que já por si imprimia à partida uma certa miríade longínqua e um carácter até certo ponto definitivo, e os novos horizontes de emprego e de promoção social que, mais de perto, na Europa, ofereciam alguns dos países industriais, como era por exemplo a França”.

A França passou a ocupar o primeiro lugar dos destinos da emigração portuguesa, com um efetivo que foi gradualmente aumentando e que poucos anos depois se transformou no mais numeroso de todas as comunidades estrangeiras residentes no território francês. Mas para além da França, outros países vieram também a acolher significativas comunidades portuguesas, como a Alemanha, o Luxemburgo, a Bélgica, a Holanda e, alguns anos mais tarde, a Suíça, a Espanha e o Reino Unido.

De data mais recente, em consequência da grave crise por que o País passa, com o agravamento do desemprego, mas também de outros fatores, nomeadamente de ordem externa, como a crescente mobilidade a nível internacional, a generalizada procura de mão-de-obra qualificada, por parte dos países mais desenvolvidos, mas também dos países emergentes e dos países do Golfo, extremamente dependentes da mão-de-obra estrangeira, a emigração portuguesa voltou a conhecer, como o deixei anteriormente documentado, uma nova retoma, traduzida no seu crescimento, na diversificação de perfis dos emigrantes e na procura de novos destinos. É neste contexto que se regista o aumento de saídas para o Reino Unido, Angola, Macau, Moçambique, Índia, Irlanda, países do Golfo e outros países mais. Segundo dados da DGACCP relativos a 2012, saíram do País, pelo menos, 130.000 portugueses, juntando-se aos mais de quatro milhões espalhados pelo Mundo. Uma parte deles dirigiu-se para países tradicionais da emigração portuguesa, como a França, que ocupou a primeira posição, o Brasil, a Suíça, a Alemanha, a Venezuela e o Canadá mas outra parte, igualmente importante, para novos países de acolhimento.

No elenco desses países elaborado pelo Observatório da Emigração, num total de 193, tantos os que conta atualmente a Organização das Nações Unidas (ONU), há cerca de 100 onde foi assinalada a presença de portugueses. Outras diásporas têm uma dimensão numérica muito superior à portuguesa mas poucas são por certo as que a igualam na sua distribuição por tão vasto e diversificado universo de países de acolhimento, em razão da variedade de religiões, línguas, diferenças de níveis de desenvolvimento, sistemas sociais e de valores, assim como da sua história e da própria história, em cada país, dos movimentos migratórios.

As diferenças entre os vários países onde residem os nossos compatriotas determinam, por força dos condicionalismos daí resultantes, que a sua situação seja também diferente de país para país. Com efeito, as comunidades portuguesas apresentam diferenças de umas para as outras mas é de notar que, não obstante as particularidades de cada uma, existem obviamente pontos comuns entre elas, com destaque para os seguintes:

a)      A situação regular em que se encontra nos países de acolhimento a generalidade dos portugueses neles residentes.

Os casos de clandestinidade atingiram desde sempre elevados montantes. Nos anos sessenta, a emigração clandestina, na quase totalidade para França, atingiu mais de 57% da legal e, no período de 1891 a 1960, dos mais de 1.500.000 que ilegalmente se fixaram no estrangeiro cerca de 600 mil fizeram-no na América Latina. Hoje, os casos de situação irregular estão muito mais limitados, de que é indicador o número de 21 nacionais portugueses que em 2012 foram deportados ou expulsos, com apoio social, dos seguintes países: EUA (16), Canadá (1), Argentina (1), Tailândia (1), Grécia (1) e Reino Unido (1);

b)       A elevada taxa de atividade dos portugueses no exterior e o exercício de todo o tipo de atividades, desempenhando as mais diversas profissões e ofícios, cuja diversificação e hierarquização têm vindo a progredir à medida do aprofundamento da sua participação na vida dos países de acolhimento;

c)      A ligação ao país, materializada na vontade de manter viva a língua portuguesa nas comunidades e de promover a cultura portuguesa; nas frequentes visitas ao país; no envio de remessas; na aquisição de propriedades, nomeadamente de residências; no crescente investimento nos vários setores de atividade; na participação eleitoral; etc…

As nossas comunidades constituem no seu conjunto uma verdadeira diáspora, fiel à memória do legado de tradições, costumes e valores transmitido de gerações em gerações, à qual muito se deve o facto de Portugal beneficiar de uma importante influência a nível internacional, contribuindo para que uma língua de 10 milhões de habitantes seja a terceira língua europeia mais falada no mundo;

d)     A sua situação face ao Estado português.

Segundo o art.º 14.º da Constituição da República Portuguesa, “os cidadãos portugueses que se encontrem ou residam no estrangeiro gozam da proteção do Estado para o exercício dos direitos e estão sujeitos aos deveres que não sejam incompatíveis com a ausência do país”. O direito de emigrar ou sair do território nacional e o direito de regressar são constitucionalmente garantidos a todos os cidadãos no n.º 2 do artigo 44.º da CRP.

Na intervenção que fez em 5 de junho de 2001 para apresentar o projeto de lei n.142/VIII no âmbito do repatriamento voluntário, a Dr.ª Manuela Aguiar, então na qualidade de deputada pelo Círculo Eleitoral pelo Resto do Mundo, afirmava que “que só com a Constituição democrática de 1976 rompemos, definitivamente com a mais antiga e tradicional das nossas políticas no domínio das migrações – e, desde o século XVI, a única constante – que, segundo os bons autores, se limitava a proibir ou a dificultar o êxodo imparável das populações para o exterior”. Lembrava a seguir que “já no século XX, a primeira verdadeira medida de apoio aos emigrantes, com a assistência na fase de saída, incluiu o acompanhamento das viagens transoceânicas e a inspeção das condições de segurança e salubridade a bordo dos navios, quase invariavelmente más. Foi a chamada “política de trajeto de ida”. Depois, os homens ficavam entregues a si próprios, apesar dos protestos de tantos dos nossos diplomatas, que souberam erguer-se em sua defesa e traçar o quadro da miséria de uma minoria de desafortunados - sempre uma minoria, embora a repatriação tenha atingido, no século XIX e na primeira metade do século XX, em alguns períodos, cerca de 1/3 do total de emigrados”.

Foi assim no passado, ainda não muito distante, mas hoje o dever do Estado para com os cidadãos expatriados estende-se, imperativamente, a todas as fases do “ciclo migratório, desde que o emigrante planeia a saída, durante a sua viagem, no tempo de permanência no estrangeiro e na hipótese de um eventual retorno”.

Nesse amplo quadro de atribuições, são três os eixos principais da ação do Estado no âmbito da emigração e das comunidades portuguesas:

1) A defesa e proteção dos direitos e interesses dos emigrantes portugueses;

2) A promoção da sua participação cívica e política nos países de acolhimento, procurando por essa via contribuir para a melhoria do estatuto das comunidades portuguesas e a valorização pessoal dos membros;

3) A manutenção dos laços com o país.

O Estado tem uma função fundamental e insubstituível no tocante à primeira das três áreas referidas, ainda que a sua ação possa ser apoiada por organizações não-governamentais, indistintamente da sua natureza e origem. O seu exercício processa-se a nível bilateral, no quadro das suas relações com os outros Estados, incluindo no âmbito comunitário, regulamentadas hoje pelas Convenções sobre Relações Diplomáticas e sobre Relações Consulares, e a nível multilateral, através da sua participação nas organizações internacionais. É particularmente importante a ação de algumas destas organizações no campo das migrações, com destaque para o Conselho da Europa, a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Económico (OCDE) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), das quais Portugal é membro, considerando sobretudo os instrumentos de direito internacional aprovados no âmbito das suas atividades, como é o caso das Convenções do Conselho da Europa relativa ao Estatuto do Trabalhador Migrante, sobre a participação dos estrangeiros na vida pública ao nível local e sobre a nacionalidade, bem como as convenções relativas aos trabalhadores migrantes no âmbito da OIT e da ONU, nomeadamente as convenções 97 e 143 da OIT e a Convenção Internacional sobre a proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias da ONU.

No que respeita à distribuição das comunidades portuguesas no quadro das configurações anteriormente mencionadas, é no Norte que se localiza 1/3 dos países de acolhimento das comunidades portuguesas, onde os nacionais portugueses gozam, nos casos dos países da União Europeia, do estatuto comunitário, caracterizado, em síntese, pelos princípios da livre circulação, da igualdade de tratamento e de oportunidades e da cidadania europeia, sendo-lhes reconhecido a este nível a capacidade eleitoral ativa e passiva nas eleições para as autarquias e para o Parlamento Europeu. No caso dos restantes países, a ação de proteção do Estado exerce-se através da sua intervenção a nível diplomático e consular, quer a nível bilateral, quer multilateral.

No âmbito Norte-Sul, é da maior relevância este enquadramento dos movimentos migratórios portugueses, pois 2/3 dos países de acolhimento das nossas comunidades são países do hemisfério sul, localizados na América do Sul, na Ásia e na África. A atual crise está a incrementar a procura por muitos emigrantes portugueses qualificados de destinos no sul, sobretudo nos países com um crescimento mais dinâmico.

Nesses países, em geral países com um nível de desenvolvimento inferior ao dos países do norte, a proteção do Estado é mais difícil de assegurar, devido aos baixos níveis de segurança existentes em largo número deles e também à inexistência de sistemas de segurança social ou ao seu incipiente grau de desenvolvimento. De igual modo, é de assinalar que, à exceção do Brasil e da Venezuela, nenhum outro país importante de acolhimento das comunidades portuguesas, nomeadamente em África, tal como a África do Sul e os PALOPS, ratificou qualquer das convenções da OIT e da ONU anteriormente mencionadas, designadamente a Convenção n.º 97 da OIT. A situação dos portugueses no Brasil é um caso completamente aparte, onde os portugueses gozam em matéria de direitos civis e políticos um estatuto equiparado ao dos nacionais, nos termos e condições do Tratado de Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e Portugueses. Com Angola, foi assinado o Protocolo Bilateral entre o Governo da República Portuguesa e o Governo da República de Angola sobre Facilitação de Vistos em 15 de Setembro de 2011. Com outros países, em matéria de segurança social, estão em curso diligências com a Argélia, Brasil, Cabo Verde, Filipinas, Índia, Marrocos, Moçambique, Tunísia e Ucrânia. É também no quadro da proteção dos nacionais residentes nos países em apreço que está a ser prestado na República da África do Sul apoio psicológico a vítimas de crime e foram criados os programas ASIC-CP (Apoio social a idosos carenciados das comunidades portuguesas) e ASEC-CP (Apoio social a emigrantes carenciados das comunidades portuguesas). Os dois programas constituem medidas de apoio social dirigidas aos portugueses idosos carenciados das comunidades portuguesas, residentes designadamente na África do Sul, Angola, Argentina, Brasil, Moçambique, Uruguai e Venezuela. No 4.º trimestre de 2012, o ASIC-AP registou 847 beneficiários em pagamento, distribuídos por 15 países – Angola (22), Argentina (17), Brasil (547), Colômbia (1), Cabo Verde (8), Marrocos (2), Macau (2), Moçambique (66), Uruguai (14), R.D. Congo (2), Venezuela (70), África do Sul (65), Zimbabwe (29), Índia (1) e Suazilândia (1), no total de € 1.658.368,91. O ASEC-CP registou 6 beneficiários distribuídos por 4 postos consulares – Rio de Janeiro (2), São Paulo (2), Maputo (1) e Beira (1), com uma despesa de €12.303,32.

Como nota geral, os portugueses desfrutam na generalidade dos países de acolhimento de uma situação satisfatória, com imensos casos de compatriotas a terem conseguido singrar nos negócios ou ocupar posições de relevo em muitos outros setores. Não obstante esse generalizado sucesso, não se poderá deixar de considerar que muitos dos que partiram para procurar melhores condições no estrangeiro tinham um baixo ou nenhum nível de escolaridade. Como reconhece Manuel Dias, na obra já citada, “parte dessa força de trabalho o único “diploma” que levava na bagagem era o da férrea vontade de vencer ou de ganhar o combate por melhores condições de vida, ainda que à custa de muitos sacrifícios”. A falta de qualificações profissionais ou outro tipo de causas, tal como a crise dos últimos anos, com particular incidência nos ramos de atividade que mais ocupavam mão-de-obra imigrante, a insegurança em países de África e da América Latina e o generalizado envelhecimento das nossas comunidades, estão a atingir alguns setores das nossas comunidades e, por consequência, a estar na origem de preocupantes bolsas de pobreza, sobretudo naqueles países onde não existem sistemas de proteção social ou o âmbito das prestações asseguradas é ainda muito limitado. Há nas comunidades problemas, contrariamente à imagem divulgada pelos órgãos de comunicação social, que exigem por parte do Estado o seu adequado acompanhamento e a necessária diversificação de programas, medidas e ações.

No que respeita aos outros dois eixos, correspondem eles também a áreas em que é fundamental a intervenção do Estado, nomeadamente no que respeita ao ensino do português, mas, relativamente aos quais, as comunidades, através das suas estruturas representativas, têm desde sempre desempenhado um papel da maior relevância, que importa cada vez mais estimular, considerando a importância, tanto de uma, como de outra, para o desenvolvimento e a projeção das comunidades, bem como para a defesa dos interesses do País. Por parte do Estado, que me parece não ter descurado o cumprimento dos seus deveres nessas matérias, são de sublinhar o importante investimento realizado na área do ensino, e as múltiplas iniciativas que tem promovido para promover a participação cívica e eleitoral, assim como a manutenção e o aprofundamento da ligação das comunidades ao país, através de medidas como a criação do Conselho das Comunidades Portuguesas, a abertura do recém Gabinete de Apoio ao Investidor da Diáspora, o apoio prestado aos órgãos de comunicação e ao movimento associativo das comunidades. Por parte das comunidades, através das suas estruturas representativas, teremos a seguir a oportunidade de ouvir os representantes de alguns dos movimentos mais representativos da diáspora aqui presentes.

 

O movimento associativo da diáspora, a necessária colaboração institucional

Antes que cada um deles tome a palavra, gostaria de salientar quanto importante considero que no futuro se venha a institucionalizar e a desenvolver a colaboração entre o Estado e as organizações das comunidades. Mais do que nunca, essa colaboração é hoje indispensável, sobretudo para o Estado manter a ligação das comunidades ao País, pois como o assinala o sociólogo João Teixeira Lopes, autor do estudo sobre Novos Emigrantes para França: a geração Europa, em declarações prestadas ao Jornal Público do dia 8 do passado mês de outubro, Portugal corre o risco de perder o rasto dos novos emigrantes.

Numa entrevista ao Jornal i de 19 do referido mês de outubro, João Salgueiro, economista e antigo Ministro das Finanças disse a certo passo o seguinte: -“…Temos feito com que os rendimentos e capitais sejam menos atraídos para Portugal. Vivemos até há 15 anos de uma medida que se tomou em 1976 e que trouxe mais dinheiro para Portugal do que o que veio da UE. O que se fez foi autorizar os emigrantes a ter depósitos em moeda estrangeira, que mais ninguém tinha. Deixaram de pagar impostos sobre os juros dos depósitos e tinham um crédito automático igual ao volume dos eus depósitos. Entrou dinheiro de todos os lados. Chegámos a ter 13% do PIB esse modo. Se agora tivéssemos 6% do PIB assim, não teríamos problemas”.

É um exemplo, entre muitos outros, que penso nos poderá estimular a refletir sobre a importância das comunidades para Portugal e o potencial que a sua contribuição poderá ter nos vários setores da vida nacional.

 

Lisboa, 24 de outubro de 2013

 

Victor Lopes Gil

CV Leonor Lopes GIL





Née le 3 février 1985 à Lisbonne - Portugal)


25, rue du Beaurepaire 75010 Paris
leonorlopesgil@gmail.com
06.73.28.18.79




EXPERIENCES PROFESSIONNELLES
Expériences actuelles :
Fondations Edmond de Rothschild – Chef de projet


Portefeuille Arts et culture pour l’éducation ; programme Ariane de Rothschild Fellowship pour l’entrepreneuriat social ; dialogue interculturel (avec une approche particulière du dialogue judéo-musulman)
Participation au développement stratégique global des Fondations
Chargée de conférence de méthode de Droit européen - sous la responsabilité de Madame Santamaria Dacal à Sciences po Paris
2h/ semaine - semestre automne 2012-2013


01/07/12 - 31/08/12 FNAC, Direction de la Stratégie – CDD remplacement congé maternité
Piloter les relations institutionnelles de la FNAC (remplacement de la chargée de mission en charge des relations institutionnelles)
Participer au travail de l’équipe de la Direction de la Stratégie


08/2011-01/2012 Préfecture du Val-d’Oise, cabinet du préfet (Cergy-Pontoise) - Stagiaire ENA


Traduire les orientations politiques nationales en programmes locaux et plans d’action.
Piloter le dossier de l’intercommunalité – management d’une équipe de 5 personnes.
 Organiser des séminaires en partenariat avec le monde entrepreneurial sur des thématiques économiques et d’emploi.
 Préparer et accompagner les visites ministérielles.
 Rencontrer les élus locaux en représentation du préfet du Val-d’Oise.
 Suivre et contrôler les activités des associations du département sous l’autorité de la préfète déléguée pour l’égalité des chances.
- Très bonne connaissance de l’organisation administrative territoriale française.
- Capacités de management d’équipe, d’organisation et de travail sous pression.
- Force de proposition, esprit d’analyse et de synthèse; excellentes qualités rédactionnelles et d’écoute.




01/2011-05/2011 Commission européenne, cabinet du Président Barroso (Bruxelles)
Collaboratrice du Conseiller en charge de l’industrie, de l’entrepreneuriat, de la recherche et des transports
Préparer des éléments de langage et notes à l’attention du Président Barroso et des conseillers sur des sujets économiques.
Participer aux rencontres du cabinet avec de hautes personnalités du monde économique et politique.
 Rédiger les comptes-rendus de réunions et des négociations à l’attention du cabinet.
- Très bonne connaissance de l’organisation institutionnelle européenne et de la prise de décision.
- Bonne connaissance des dossiers économiques actuels et de la position européenne (Doha, G8/G20…).
- Capacité de travail en plusieurs langues au sein d’un environnement international.


- Compréhension et assimilation rapide de sujets nouveaux et complexes.


- Capacité à travailler dans des délais contraints.




07/2010-09/2010 Secrétariat Général des Affaires Européennes (SGAE), service du Premier ministre (Paris)
Adjointe au chef de service du secteur Sécurité de l'espace européen




07/2009-10/2009 Ministère des affaires étrangères et européennes (Paris), service de l’Adoption Internationale – Stagiaire




10/2008-02/2009 Commission européenne, Direction Générale Justice, Liberté et Sécurité (Bruxelles) - Stagiaire « bluebook »


FORMATION


2010-2012 ECOLE NATIONALE D’ADMINISTRATION
Promotion Marie Curie / Elève du cycle international long – Magna cum laude


Déléguée de promotion




2011-2012 CELSA PARIS IV-SORBONNE
Master 2 Communication politique et des Institutions publiques – Mention BIEN


Mémoire portant sur la communication du « Réseau Entreprendre® »


2009-2010 PARIS I PANTHEON-SORBONNE
Master 2 Professionnel de Droit économique de l’Union européenne
Droit de la concurrence, Droit institutionnel de l’UE, Marché intérieur, Echange avecles pays tiers, propriété intellectuelle, contentieux européen…




2007-2009 SCIENCES PO PARIS
Master 2 Affaires Européennes
Droit de la concurrence et des aides d’Etat, Politiques européennes, lobbying...
2003 LYCEE FRANÇAIS DE MADRID


Baccalauréat français et espagnol – Série ES – Mention BIEN


COMPETENCES LINGUISTIQUES ET AUTRES ACTIVITES


Portugais: langue maternelle
Français: bilingue
Espagnol: bilingue
Anglais : pratique professionnelle (cadre européen C2)




Incubateur de Novancia – Ecole de la Chambre de commerceet d’industrie de Paris : conseil juridique et stratégique pour la
création entrepreneuriale d’un bureau de promotion et de production de spectacles vivants (Charlie’s prod)


Engagement associatif au sein de TutorEna et participation aux Entretiens de l’Excellence


Fondatrice et Présidente de l'Association du Master Affaires européennes de Sciences po Paris (2007-2009)


Natation, pratique de sports collectifs (rugby…)

Leonor Xavier BENVINDA MARIA A MEMÓRIA VIVA DO RIO


      Benvinda Maria ou Memória Viva no Rio

 

Para nós, os que alguma vez fomos portugueses no Brasil, Portugal é a patriamada. A distância é sofrimento, a possível viagem de férias é uma alegria, o regresso é um sonho. E as notícias são o fermento que dá sentido a tudo o mais, na realidade imensa do Novo Mundo.

 Penso na Benvinda Maria, que neste contexto e além de todas as adversidades, por mérito alcançou estatuto de liderança na comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. Conheci-a nos primeiros meses de 1981, quando comecei a trabalhar na redação de O Mundo Português, chefiada pelo meu querido Rocha Mendes, um dos históricos jornalistas portugueses, a quem devo a tarimba do ofício, o aprendizado de tudo ou quase tudo o que sei da profissão. O Rochinha, assim chamado, tinha tido estreia no jornal Correio Português em 1941, numa época em que a imprensa portuguesa, com vários títulos, ainda era referência de informação no Brasil.

Quarenta anos mais tarde, e ao longo dos anos 80, O Mundo Português,  a Voz de Portugal e o Portugal em Foco eram os três semanários que entre si disputavam lugar de destaque nas bancas da cidade. Quando assim me iniciei no jornalismo, O Mundo Português, do qual Benvinda Maria tinha sido dona e diretora, pertencia ao grupo Espírito Santo e a António Champalimaud, tinha Luis Oliveira Dias como diretor. Na Voz de Portugal, o jornalista maior era o veterano José Maria Rodrigues. No Portugal em Foco, o jornal mais recente, a fundadora, proprietária e diretora era a Benvinda Maria.

Imponente no porte, conheci-a cheia de vivacidade na fala, exuberante nos modos, ocupando espaço. Sempre em primeiro plano nos acontecimentos, nas datas patrióticas, nas homenagens e celebrações, nos casamentos e batizados, nos festejos dos clubes e casas regionais, a Benvinda Maria não deixava nunca de se manifestar, sempre exprimindo as posições mais conservadoras nos temas da atualidade, de acordo com o pensamento da ala mais tradicional da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro. Lembro-me de como era forte e impressiva a sensação de assistir às apresentações do Grupo de Folclore que ela criou, muitas vezes trouxe em digressão a Portugal, e algumas vezes eu acompanhei no Rio. A riqueza dos trajes, a variedade nos adereços, e além de tudo, a originalidade do folclore cantado e dançado por gente nova, pronúncia luso-brasileira, tons de pele diversos, a demonstrar a mistura de sangue, branco, negro e índio que faz a graça e a fertilidade do Brasil.

Admiro a capacidade de Benvinda Maria para exercer a sua influência na captação de apoios, de subsídios, de poderes para concretizar os seus projetos, sempre por amor à presença de Portugal no Brasil. Num ambiente machista, adverso a novidades, em que as mulheres não eram aceites sem um longo e duro período de análise e provação, é notável o percurso de Benvinda Maria. In memoriam a evoco, e a guardo na minha galeria de personagens, onde se alinham aqueles homens e mulheres que em algum momento foram importantes na minha vida. Como se fosse hoje, relembro a voz e o riso com que, algum tempo depois de nos conhecermos, a Benvinda me puxou de lado e quase em segredo me disse “você é a jornalista, eu a jornaleira.” Curta e forte frase de estímulo, que foi abrindo caminho no fio destas minhas andanças de escrever em jornal, até hoje.

                                            Leonor Xavier

                                            25 de Outubro de 2012         

Eulália Moreno OS FADOS DE TODAS NÓS


 

Os Fados de Todas Nós

 


 

A conquista de Ceuta em 1415 deu início a Diáspora portuguesa seguida pela colonização da Ilha da Madeira em meados de 1425. Menos de um século depois aberta a rota do Cabo para o Índico ( em 1497), descoberto o Brasil (em 1500) e povoadas as ilhas adjacentes de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe eram já patentes as conseqüências demográficas e outras advindas do fenômeno da expansão ultramarina. Em Gil Vicente, Sá de Miranda, João de Barros entre outros há a consciência, se não o alarme, da nova situação criada para a sociedade portuguesa.

 

Garcia de Resende ( 1470-1536) escreveu :

 

“Vijmos muyto espalhar

portugueses no viver,

Brasil, Ilhas povoar

 A aas Índias yr morar,

Natureza lhes squecer:

Veemos no reyno metter

Tantos captivos crescer,

E yremse hos naturaes

Que se assi for, seram mais

Elles que nos, a meu ver”

 

 

Órfãs, Meretrizes, Degredadas e Feiticeiras

 

Nos primeiros séculos de colonização houve uma verdadeira escassez de mulheres brancas para a colônia.  O caráter migratório aventureiro dos colonos portugueses, que buscavam enriquecimento rápido, pensando num breve retorno a Portugal desestimulava um padrão migratório familiar. Raras eram as mulheres que desembarcavam, por exemplo,  no Brasil. Os homens chegavam e se deparavam  com uma população feminina indígena livre de todos os preconceitos e uniam-se a várias mulheres ao mesmo tempo gerando filhos mestiços.

 

Essa  situação fora dos padrões europeus horrorizava os jesuítas. Em carta ao rei de Portugal, Manuel da Nóbrega , fundador da cidade de São Paulo, pedia ao monarca português que enviasse ao Brasil mulheres portuguesas, “muitas e quaisquer delas” e acrescentava: "Se El-Rei determina povoar mais esta terra, é necessário que venham muitas mulheres órfãs e de toda qualidade até meretrizes, porque há aqui várias qualidades de homens; e os bons e os ricos casarão com as órfãs; e deste modo se evitarão pecados e aumentará a população no serviço de Deus “.Não importava a condição social, moral ou economica dela, pois bastava que fosse "branca" e produzisse filhos "portugueses" na colonia para ser considerada "superior" às mulheres índias e negras, no imaginário colonial.

 

As que chegavam sózinhas eram normalmente as degredadas, forçosamente exiladas na colonia. O século XVII foi marcado pela chegada constante de “visionárias”, acusadas de feitiçaria, que eram sentenciadas ao exílio na colonia. Nem todas permaneceram no Brasil, parte regressando a Portugal após os cinco anos de pena de degredo.

 

Nos séculos seguintes, a imigração portuguesa não perdeu o seu caráter masculino. O Norte de Portugal na época era conhecido por ter o predomínio de mulheres exercendo atividades agrícolas tradicionais, pois muitos dos homens emigraram. As mulheres (e as crianças) portuguesas desembarcaram em maior número no Brasil quando alguma crise afligia Portugal, como durante a epidemia de filoxera que destruiu temporariamente a indústria do vinho do Porto em meados do século XIX.

 

Após a independência  a mulher portuguesa que desembarcava no Brasil, geralmente pobre, se empregava como criada nos serviços domésticos. Frequentemente os textos da época faziam referência implícita à prostituição de portuguesas no Brasil.

 

O início do século XX foi um momento que representou uma reviravolta nas características da imigração portuguesa ao Brasil, uma vez que as mulheres passaram a representar uma parcela considerável dos imigrantes. A legislação portuguesa dificultava a migração de pessoas do sexo feminino, uma vez que exigia a emissão de passaporte e as mulheres dependiam da autorização dos pais ou do marido para imigrar.

 

A partir da década de 1890, verifica-se uma mudança no comportamento migratório português. As mulheres, que antes ficavam para trás, passaram a acompanhar seus homens na viagem migratória. Assim, a migração familiar e feminina portuguesa cresceu 41% entre 1891 e 1899 e 36% entre 1910 e 1919. Essas mulheres dividiam com seus maridos pequenos negócios, como padarias, bares e quitandas, trabalhavam como operárias, lavadeiras, costureiras, em áreas completamente diferentes das quais exerciam em suas aldeias de origem, muitas vezes tendo que trabalhar em jornada dupla para poder sobreviver e vencer os desafios no novo país de acolhimento.

 

A partir de meados do século XX os países de acolhimento se multiplicariam e as Marias de Portugal partiriam não apenas em navios rumo a outros continentes mas a “ salto” para cumprirem os seus fados em outros países europeus.

 

Apaixonadas, batalhadoras , honestas e com mãos abençoadas para toda obra

 

Na maior rede social da Internet,  o Facebook, algumas mulheres criaram um grupo “ Mulheres Portuguesas na Diáspora” que se tornou um ponto de referência  para relatos muito ricos de histórias de vida. Esse foi o ponto de partida desta comunicação que não pretende ser nada mais além do que um breve resumo do que está disponível no referido grupo. A pedido de algumas, o anonimato foi preservado. Há feridas cicatrizadas e outras que sangrarão para sempre. Em comum, uma fé inabalável e o amor por Portugal.

 

“ Me enamorei do filho do dono das terras onde os meus pais trabalhavam , e mal tive o meu filho deixei-o aos cuidados de familiares e vim tentar a sorte no Brasil onde moravam uns tios que me mandaram a carta de chamada. Vim trabalhar como babá, aqui as pessoas ricas gostavam muito de portuguesas para olharem pelos filhos. Sofri muito porque  estava eu a criar filhos dos outros enquanto o meu , pobrezinho, sabe-se lá se tinha o que comer, o que vestir e o que calçar. Alguns anos depois conheci um “patrício” que tinha emigrado e era dono de um pequeno comércio. Nos casamos, fiquei a trabalhar com ele e tivemos dois filhos.  Ele sabia da minha vida , do meu filho que tinha ficado em Portugal . Estourou a guerra em África e para que o meu rapaz não fosse para lá ele conseguiu uma pessoa que arranjou a papelada e ele veio para cá.O reencontro não foi muito bonito, nós não nos conhecíamos.Ele só ficou por cá três anos, conheceu uma brasileira com quem se casou e emigrou para a Venezuela. Nunca mais o vi, nunca mais tive notícias. Nunca retornei a Portugal e o Brasil a quem dei o meu suor e as minhas lágrimas, ficará também com os meus ossos.”

A.P., 85 anos, natural da Beira Alta,  , emigrante no Brasil

 

“ Minha história começa quando o meu pai teve que emigrar no ano de 1968 quando eu tinha 7 anos. Para minha mãe não foi fácil ficar em Portugal com 4 filhos e de gerir uma casa de forno onde se vendia o pão alentejano , ter que peneirar amassar o pão e cozer e vender .Para meu pai também não foi nada fácil ter que ir para um país tão distante sem saber falar a língua. Ele sequer sabia ler e escrever ..Embarcou em Santa Apolonia com destino a Alemanha pois iria trabalhar para o porto de Hamburgo , um trabalho bem duro pois tinham que carregar muitos quilos às costas nada comparado com os dias de hoje que é tudo à força de máquinas. Entretanto foi para o porto de Bremen .Ai trabalhou mais uns tempos e como tinha uma cunhada no sul da Alemanha, em Donaueschingen ,ela arranjou ao meu pai um trabalho na fábrica onde ela trabalhava .Mais tarde por intermédio de um amigo conseguiu arranjar um trabalho na Opel em Bochum onde ficou ate a sua reforma ..Depois de estar estável mandou a minha mãe e uma irmã ir. Isso aconteceu em 1973 .Eu e os meus outros dois irmãos ficamos com os avós maternos , pois nos ainda andávamos na escola .Eu andava na altura no 2° ano  do Ciclo. Deu-se a revolução de 1974 ainda fui mais os colegas festejar para as ruas com os cravinhos nas mãos.Em Agosto de 1974 meus pais vieram e levaram-me com eles para a Alemanha .No outro ano a seguir foram os outros dois irmãos e assim já estava a família toda completa .Vivíamos num prédio no quarto andar numa casa com um quarto , sala ,cozinha e casa de banho .Os pais dormiam no quarto , nós raparigas na sala e o meu irmão na cozinha .A partir daí a minha vida mudou totalmente de criança para mulher pois com treze anos ainda tinha o direito de ir frequentar a escola na Alemanha mas meus pais se opuseram e minha mãe levava-me com ela para o trabalho !!Ela ia fazer limpeza num hospital onde eu lhe ajudava ,  comecei eu a fazer tudo o que me vinha de trabalhos dos mais variados , em limpeza, trabalhei a fazer pizzas a cortar cebolas para fazer a carne no espeto, numa lavanderia a passar a ferro.Enfim de tudo o que me aparecia porque eu ainda era uma menor .Em 1978 conheci meu marido pensei em casar pois tinha na altura 17 anos .O casamento aconteceu em Dezembro de 1978 .E vim para a terra onde meu marido se encontrava pois ele sendo também um emigrante português e emigrado em 1971 .Começamos a nossa vida de casados trabalhando e economizando para fazer uma casinha em Portugal pois é o sonho de todos os portugueses um dia voltarem a sua terra natal. Assim se concretizou o sonho da casinha , tivemos dois filhos que estudaram em escolas alemãs, um com trinta e um ano que já casou e nos deu duas netinhas de mãe alemã e o outro com 28 anos. Hoje passados quase 38 anos e o marido 41 ainda continuamos na Alemanha pensando um dia regressar a Portugal quando tivermos a nossa reforma .Os nossos filhos estão cá ,vivem cá e agora estão as nossas netas !!!!Mas será que esse dia virá ou não ? Decisão difícil de tomar !!!!E só o tempo o dirá !!

 

Silvia Messias , 51 anos, natural de Beja , emigrante na Alemanha

 

 

“Sou emigrante desde a minha tenra idade de 3 anos...primeiro emigrei com meus pais para França... Aos 7 anos meu pai decidiu que eu deveria fazer a escola primária em Portugal e assim aconteceu...Aos 13 anos regressei de novo a França... Aos 19 anos conheci meu marido que vivia na Alemanha então casei e fui viver para a Alemanha...Ao fim de 20 anos de vivência na Alemanha ,a saudade do nosso Portugal bateu à porta e decidi ir viver para Portugal onde aguentei 5 anos... Agora há cerca de um ano e meio emigrei de novo para França onde continuo a viver e não tenciono sair... Aqui está mais um retrato rápido da emigração...”

 

Alzira Macedo, 43 anos, natural de Bragança , emigrante na França

 

“No dia 21 de novembro de 2007 vi me forçada a abandonar o meu país! Mas mais doloroso abandonar os meus preciosos: a minha menina tinha 5 aninhos e o meu menino tinha simplesmente 3 mesitos, mas para poder lutar por uma vida melhor para eles decidi vir para Inglaterra....As pessoas que me trouxeram só arranjaram trabalho para mim e não para o meu marido. Foi tão doloroso para todos nós....todos os dias ouvia crianças a chamar pelos pais e as minhas lágrimas simplesmente corriam cara abaixo de tanta dor e saudade...ao fim de um tempo consegui trazer o meu marido mas mais uma vez tive de deixar os meus bebes para trás (pois as pessoas com quem eu morava não queriam que os trouxesse) e então aí foram 4 meses sem os ver....Cada dia que passava tornava se mais impossível de viver sem eles......Sofri muito mas agora estamos todos juntinhos , graças a Deus! “

 

Claudia Fernandes, 32 anos, natural de Setubal, emigrante na Inglaterra

 

“ Todas nós sofremos por ter emigrado, não importa para onde. O meu pai emigrou com toda a família para a Argentina e para isso precisou vender uma herança que era da minha mãe, ela nunca o perdoou por isso. Acho que era o nosso destino mas perdemos a nossa identidade porque em Portugal somos emigrantes e onde moramos somos estrangeiras... então qual é o nosso país?? Só por isso já temos um pesadelo que nunca tiramos de cima dos ombros embora digam que as Mulheres vencem muitas batalhas. Mas sofremos muito, muitas vezes em silêncio, só Deus sabe o que sofremos . Conheci muitos portugueses aqui que, como eu, nunca mais voltaram a Portugal porque muitos não conseguiram ficar ricos, passaram tempos muito difíceis, alguns até fome passaram para conseguir juntar algum dinheiro. Sou professora de música e para não perder a minha nacionalidade portuguesa não pude dar aulas em escolas públicas ou privadas mas fiz parte de uma orquestra de música clássica e com ela me apresentei em vários programas de televisão. Um dia destes tenho que escrever um livro, é o que me falta fazer”.

 

N.C., 63 anos, natural  de Aveiro , emigrante na Argentina

 

“Eu emigrei para a Austrália, sem nada, só com a minha roupinha vestida ...eu ,meu marido e o meu filho de 15 meses ao colo . Viemos com a minha irmã para enfrentar e recomeçar a vida sem saber o que nos esperava..o não saber a língua foi o problema principal. Deus nos ajudou , hoje já tenho 40 anos como emigrante e ja temos 3 netos . Penso que vamos acabar os nossos dias por aqui em Sidney , neste país que nos acolheu  de braços abertos . Enfim, mas só Deus é que pode saber onde e como será o nosso fim, como se costuma dizer porque o dia de amanhã ninguém o viu e ninguém o sabe, portanto está nas mãos de Deus. Que Ele nos ajude a todos e nos abençoe!

 

Lucy Mendonça, 60 anos, natural da Guarda, emigrante na Austrália

 

“Emigrei para a França e fui morar com a minha irmã que era porteira num prédio da avenue Kleber em Paris. O meu cunhado trabalhava nas obras de saneamento durante a noite e assim sobrava lugar pra mim na cama com a minha irmã porque só tínhamos um quarto, com um lavatório que servia também de pia de cozinha e a sanita era um balde. O prédio tinha sete andares e nós morávamos no último mas não podíamos utilizar os três elevadores, subíamos a pé. Arranjei trabalho numa banca de frutas perto da Bastilha, acordava todos os dias às 5 da manhã, vida muito dura e depois que consegui a confiança do patrão que era da Argélia, passei a dormir nos fundos do comércio . Um lugarzinho pequeno mas que era o meu cantinho onde eu tinha a minha cama e as minhas coisinhas. Um dia um freguês perdeu a carteira com muito dinheiro junto das verduras. Eu encontrei e fui devolver não esperando nada mais do que um “ merci”. O dono da carteira era um senhor de origem judaica, dono de uma rede de lojas de tecidos nas proximidades de Montmartre e me convidou para trabalhar numa das lojas. Foi a minha sorte! Depois de alguns meses eu já me desembaraçava no francês e fiquei gerente nessa loja para depois de alguns anos ser gerente geral de mais de 20 lojas. No trabalho conheci o meu marido que é francês e que gosta muito de Portugal. Não tivemos filhos mas temos um casal de  “ caniches” e muitos sobrinhos com que vamos todos os anos passar férias a Portugal. A França foi boa para mim, os franceses também e eu aprendi que a honestidade sempre compensa”.

 

Vitória Guimarães, 53 anos, natural de Braga, emigrante na França.

 

 

Bibliografia :

 

Arroteia, Jorge Carvalho, “A Emigração Portuguesa, suas origens e distribuição”, Editora ICALP, Lisboa, 1983  ;

Brettell, Caroline B. , “ Homens que Partem, Mulheres que esperam”, Editotra Dom Quixote, Lisboa, 1991

 

Ferreira, Cristina , “ Breve Olhar sobre a Imigração Portuguesa: Portugal Emigrante”. Lusitano: Jornal de Portugueses Residentes no Estrangeiro, 17 jun., 1998, página 2 ;

 

Lobo, Eulália Maria Lahmeyer, “ Portugueses em Brasil em el siglo XX”, Madrid, Editora Mapfre, 1994

 

Serrão, Joel , “A Emigração Portuguesa; Sondagem Histórica”, Editora Horizonte, Lisboa, 1982 ;

 

 

Foto : Foto de Passaporte de uma família portuguesa, 1992, “ Imigração Portuguesa no Brasil”, série Resumoe, número 5, Memorial do Imigrante, São Paulo, 1999

 

* Jornalista, brasileira , emigrante em Portugal desde 1974 e colaboradora do jornal Mundo Lusíada, publicação quinzenal editada em São Paulo.