sábado, 21 de janeiro de 2012

Rosa Simas A MULHER MIGRANTE AÇORIANA NA CALIFÓRNIA

A MULHER MIGRANTE AÇORIANA NA CALIFÓRNIA:

DIVERSIDADE NUMA CULTURA COMUM

Rosa Neves Simas

Entre 2003 e 2008, tive o prazer de publicar A Mulher nos Açores e nas Comunidades, uma colectânea de 6 volumes contendo 100 artigos escritos por mulheres e homens de variadas idades, profissões e situações de vida, dando assim voz às diferentes experiências e perspectivas sobre a situação da mulher no arquipélago e nas comunidades dos Estados Unidos e do Canadá. Os artigos estão organizados de acordo com os seguintes tópicos: a mulher na sociedade, na educação, nos média, nas artes e tradições, nos assuntos legais e na saúde, com destaque para a mulher no mundo do trabalho.

Numa panorâmica da mulher açoriana na Califórnia, o que transparece é um retrato de diversidade no seio de uma cultura comum. O que surge é uma panóplia de formas diferentes de viver a experiência comum da açorianidade em terras da costa oeste dos Estados Unidos. A diversidade dos artigos sobre a mulher migrante na Califórnia pode ser apresentada em relação a variadas temáticas.

A Migração e a Língua

A emigração das ilhas para a Califórnia é centenária. Por isso, começo por voltar atrás no tempo, evocando uma mulher que emigrou nos anos 50 do século passado, altura em que ser imigrante nos Estados Unidos era considerado um entrave e uma origem étnica não-“americana” era vista como um handicap. Neste contexto, o sentimento de saudade era enorme e a ligação à família vital.

Emigração para a Califórnia nos anos 50 do século XX

~~~~~~

“Cadernos de uma mulher migrante: A língua e a procura do sentido da vida”

Volume III


Figura 1: Imagem da autora dos cadernos quando emigrou para a Califórnia.

Mom & Dad

Sexta, 28 Maio 1954 – Faz hoje um ano que chegámos à América, a casa da Maria. Recebi carta do José. Fala-me em vir cá para o ano… Principiei a sentir o bebé mexer.

Assim começa o artigo “Cadernos de uma mulher migrante: a língua e a procura do sentido da vida” (III: 555-574), um texto em que a autora, Helena, analisa o impacto da emigração na vida da sua mãe, uma mulher que encontrou consolo na escrita, para expressar os dilemas e as saudades e para combater o isolamento que sentia no ambiente estranho da América dos anos 50, época ultra-conservadora e avessa à migração. Escreve a filha desta mulher que emigrou em 1953 da ilha do Pico:

Contra tudo e todos, a minha mãe escrevia e guardava cadernos de diários. Caladamente persistente, escrevia quase todos os dias. Isto poderá não parecer notável, mas a verdade é que ela tinha apenas completado a antiga quarta classe nos Açores. Para além disso, ela era uma mulher migrante a viver isolada, em termos culturais e linguísticos, numa das vacarias típicas do Vale de San Joaquin na Califórnia. (555)

19540528alzira

Figura 2: Folhas dos cadernos de uma mulher migrante na Califórnia.


Como todas as pessoas que migram, esta mulher enfrentou a barreira de uma língua estrangeira, refugiando-se na escrita em português, como explica a filha, Helena, hoje mestre em linguística aplicada:

A língua, em qualquer das suas formas, evoca muita emoção numa pessoa imigrante. É muitas vezes uma lembrança dolorosa e constante da identidade que ficou atrás, e da separação que sentem do mundo lá fora, a falar através de um código desconhecido. A minha mãe refugiava-se na língua, com os seus pensamentos anotados no papel, para desvendar os hiatos da sua experiência entre dois mundos. (556)

Com o tempo, a filha vem a considerar esta experiência bilingue e bicultural como uma mais-valia, para si e para as irmãs. Hoje professora, a coordenar o ensino da língua inglesa em doze países do Médio Oriente, Helena observa: “A maior sensibilidade meta-linguística das crianças bilingues permite uma percepção precoce da vertente abstracta e simbólica das palavras” (561). Falando da mãe, diz:

Ao longo dos anos, a minha mãe foi aprendendo a comunicar à vontade na língua inglesa e, com o meu pai ao lado, tornou-se numa pessoa activa e respeitada na comunidade da Califórnia. As entradas nos diários foram mostrando mais auto-confiança e mais abertura ao exterior, ao mesmo tempo que documentavam o seu envolvimento social, mais do que o seu isolamento pessoal. (562-3)

Património e Tradições

Para combater a solidão da migração, e para participar em eventos sociais e cultivar as tradições das ilhas, a maioria das pessoas que emigra procura as associações e sociedades da comunidade. No artigo “A mulher portuguesa nas sociedades fraternais da Califórnia” (I: 149-172), Deolinda Adão, directora do Portuguese Studies Program da University of California, Berkeley, faz um esboço da história de cinco sociedades comunitárias da Califórnia, duas das quais – SPRSI (Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel) e UPPEC (União Portuguesa Protectora da Califórnia) – foram pioneiras porque, numa altura em que o associativismo era masculino, e continuou a sê-lo marcadamente até aos anos 70 do século passado, estas duas sociedades foram criadas por e para mulheres, há mais de um século.

SPRSI

Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel

~~~~~~

1889

SPRSI

Figura 3: Sigla da Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel.


Das muitas e variadas associações e sociedades que organizam eventos comunitários e mantêm as tradições açorianas na Califórnia, as que são conhecidas como Irmandade do Espírito Santo (IDES), ou Sociedade do Espírito Santo (SES) são notáveis. Existe uma, e por vezes várias, em cada comunidade, formando uma rede que atravessa o estado, de norte a sul. A primeira foi criada em 1861. Ao longo de 150 anos, chegou a haver 144 irmandades. Hoje, 99 mantêm-se em actividade, organizando celebrações em honra do Espírito Santo em todo o estado.

Desde 1861,

houve 144 irmandades do Espírito Santo na Califórnia.

~~~~~~

Presentemente,

99 destas irmandades continuam em actividade.

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Figura 4: Imagem da rainha e aias de uma festa do Espírito Santo na Califórnia.


No artigo “As rainhas das festas na Califórnia: a inversão e reversão do ritual” (II: 281-316), a antropóloga Mari Lyn Salvador descreve os rituais que caracterizam esta tradição secular, dizendo: “As rainhas participam em festividades que derivam do ciclo ritual português associado a Santa Isabel, Rainha de Portugal de 1261 a 1336” (282). Numa perspectiva histórica e antropológica, Mari Lyn descreve “uma das formas encontradas pelos imigrantes para combinar elementos expressivos do país de acolhimento, com os elementos da sua terra natal que consideram importantes para a manutenção da sua identidade cultural” (283).

De uma forma sintética, Mari Lyn explica como “uma rainha do século XIII que oferecia as suas jóias para dar de comer aos pobres e coroava um homem pobre com a sua própria coroa” foi transformada nas rainhas de hoje, ricamente trajadas com vestidos, capas e tiaras de luxo. Tal metamorfose é exemplo claro do processo de recriação e adaptação das tradições do Velho Mundo, transplantadas no Novo Mundo. Simultaneamente, é um exemplo notável da intervenção activa da mulher na transmissão do património cultural, entre gerações.

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Caixa de texto: Figura 5: Imagem de uma mãe e a filha, rainha da festa de Espírito Santo.


A Expressão Artística

Como migrantes, as/os açor-descendentes vivem a sua herança cultural de formas variadíssimas, com características pessoais e idiossincráticas. A diversidade de técnicas e temáticas nas obras de duas artistas plásticas da Califórnia retrata bem esta realidade. A mais jovem artista, Marlene Angeja, que vive na área de San Francisco, diz em “Duas paisagens: a visão de uma artista luso-americana” (II: 421-438):

Aquilo que une as várias formas que as minhas obras assumem é uma força subjacente, que é muitas vezes inconsciente e instintiva. Essa força motora parece estar relacionada com duas coisas. Uma é a paisagem das Ilhas dos Açores. A outra é o meu interesse nas histórias, lendas e mitologias do povo português. (422)

Caixa de texto: Figura 6: Imagem da obra “Duas paisagens” de Marlene Angeja.img025

A obra “Duas Paisagens” conjuga a tradição da vindima nas ilhas com a vivência do meio rural da Califórnia onde Marlene cresceu. Outro exemplo do seu trabalho é a própria capa da antologia A Mulher nos Açores e nas Comunidades, que retrata a mãe desta artista, hoje mestre em Belas Artes e professora na California State University, San José. Referindo-se a outra obra, Marlene desvenda aspectos da sua experiência como descendente de emigrantes oriundos dos Açores:

Ao Aeroporto é um desenho mixed media de uma menina com o dedo na boca… Ao longo do lado esquerdo da tela lemos as palavras “eu fui ao aeroporto, tu foste ao aeroporto, você foi ao aeroporto…” Esta conjugação do verbo “ir” em português evoca a aquisição de uma língua estrangeira. Alude, também, ao medo e ao encanto que senti na primeira viagem às ilhas e ao sentido de perda que senti quando partimos. Um aeroporto é um lugar de chegadas e partidas. Como os portos de onde os antigos marinheiros partiram para as Descobertas, é um lugar marcado pela saudade. (423)

A segunda artista é Maxine Olson, que vive no sul do Vale de San Joaquin e tem um largo currículo artístico. Em vez de abstracta, como a da Marlene, a obra de Maxine é claramente figurativa, justapondo imagens de pessoas que marcaram a sua vida numa tentativa de recriar na tela as narrativas de uma açor-descendente. O artigo de Maxine tem por título “Um retrato da minha mãe: o que ficou por dizer” (Volume II: 409-420) e conta a história da sua viagem aos Açores, em busca de respostas sobre as suas antepassadas. Maxine acaba o texto dizendo:

As tentativas que tenho feito para descobrir os segredos da vida de minha mãe, e da mãe dela, têm-me levado a perceber melhor as forças que controlam a minha vida. Se vamos aprender com o passado, e ser perdoadas pelas nossas decisões e omissões no presente, não podemos esquecer as estórias e as ofensas, as penas e as dificuldades pelas quais as nossas progenitoras passaram na sua demanda pelo amor e pelo afecto. (414)

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Caixa de texto: Figura 7: Imagem da obra “Retrato da Minha Mãe” da artista Maxine Olson.


A Saúde e o Envelhecimento

A construção da identidade migrante depende muito das relações em família e da postura perante o passado e a vida presente dos familiares. Nesta demanda, o desafio é ainda maior quando o envelhecimento das pessoas que nos são queridas bate à porta. Efectivamente, neste contexto, como em tantos outros, as mulheres têm maior tendência para assumir o papel de cuidadoras, dentro da família e da própria comunidade. Esta dinâmica social é a génese do artigo “POSSO: um centro comunitário da Califórnia” (IV: 975-982), da autoria de Vicky Machado. Como co-fundadora da POSSO e elemento activo da comunidade, Vicky descreve a origem deste centro comunitário, há mais de três décadas:

A Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO) é uma ONG e foi criada pela comunidade portuguesa de San José para auxiliar imigrantes na sua integração social e adaptação ao país de acolhimento. Foi fundada em 1976 para assegurar à comunidade portuguesa pleno acesso aos serviços sociais e benefícios governamentais… Éramos formados e estávamos inspirados pela onda de orgulho étnico que prevalecia na América de então, e pela calorosa lealdade que sentíamos pelos nossos pais e avós imigrantes… Para o nome, escolhemos o acrónimo POSSO, precisamente para combater o fatalismo da nossa comunidade idosa, que se sentia fragilizada para conseguir a integração social de que precisavam para lhes garantir a sua quota-parte do sonho americano. (975)

Health Fair at POSSO

Figura 8: Imagem da dinâmica social na sede da organização POSSO.


Ao descrever os muitos programas e serviços da POSSO, Vicky sublinha a importância desta organização para a comunidade idosa, “um grupo isolado porque as/os familiares tinham e têm o seu tempo muito ocupado, trabalhando fora de casa para conseguir a sobrevivência económica da família” (976). Ao terminar, Vicky destaca a intervenção feminina neste projecto comunitário:

Desde o princípio, as mulheres têm sido fundamentais para a POSSO, como fundadoras, chefes, staff e voluntárias. Numa perspectiva tradicional, a POSSO desempenha, hoje, as “tarefas da mulher” porque presta cuidados e apoio às pessoas idosas e outros familiares vulneráveis, enquanto as mulheres, que cumpririam tais tarefas, trabalham fora de casa, contribuindo assim para o sustento da família e para a sua realização profissional. Vista nesta perspectiva, a POSSO deve o seu sucesso e longevidade à feliz conjugação de valores tradicionais e actuais. (978)

Educação e Empresariado

Tradicionalmente, a mulher açoriana, dentro e fora das ilhas, foi sujeita a muitas limitações e condicionalismos sociais e culturais. No contexto actual, muito mudou. Na educação, por exemplo, verifica-se uma acentuada presença da mulher no ensino superior. Elmano Costa descreve esta situação no artigo “A feminização do ensino superior numa comunidade rural da Califórnia” (III: 575-620). Este educador faz um esboço da comunidade rural, situada no norte do Vale de San Joaquin, ao mesmo tempo que descreve a evolução dos valores e olhares da mesma, no que concerne à educação, ao trabalho e à situação da mulher. Ao apresentar os resultados do seu estudo, este educador e professor na University of California, Stanislaus, faz a seguinte síntese:

As mulheres luso-californianas gozam de oportunidades que as suas mães nunca tiveram. Podem seguir uma carreira; casar quando querem e não porque precisam de alguém que as sustente; escolher ficar solteiras; ou optar por serem domésticas. E podem regressar à vacaria, para assumir a gerência do negócio, mas como gerentes diplomadas. (583)

Elmano termina o seu texto com este desejo: “E oxalá que elas possam dar aos seus filhos homens a mesma motivação que as levou a frequentar e a completar, com êxito, os seus cursos superiores, para que eles, no futuro, possam também usufruir dos benefícios de um diploma universitário” (584).

A mulher açor-californiana tem-se aventurado, ela própria, em outros domínios, incluindo o mundo empresarial. O mesmo autor debruça-se sobre este tema no artigo “Empresariado no feminino: novos horizontes para a mulher luso-americana” (VI: 1429-1456). Ao analisar a crescente participação da mulher como empresária no mundo dos negócios, Elmano observa: “Estas mulheres são, sem dúvida, pioneiras, pois conseguiram não só superar a discriminação de género, como também ultrapassaram as dificuldades que imigrantes, da primeira e da segunda gerações, tiveram de enfrentar para se integrarem na nova cultura do país de acolhimento e no mundo competitivo do trabalho e do empresariado” (1429).

Efectivamente, visto que a relação de qualquer imigrante com a sua comunidade é multifacetada e, por vezes, muito complicada, estas empresárias californianas tiveram de enfrentar e ultrapassar muitos obstáculos e desafios. Numa óptica negativa, a descriminação de género teima em persistir e são muitas as dificuldades da integração numa outra cultura. Do lado positivo, verifica-se uma relação de grande proximidade e envolvência com a comunidade, fazendo com que estas mulheres destaquem o desejo e o prazer que sentem ao contribuírem para o bem-estar da mesma. Segundo o autor: “As empresárias luso-americanas gozam de outra característica que não vem na literatura. Quase todas sublinham a importância que tem nas suas vidas o contributo que podem prestar à comunidade luso-americana” (1439).

A Indústria de Lacticínios da Califórnia

Em termos económicos, ao longo de décadas, o grande trunfo da presença açoriana na Califórnia tem estado na indústria de lacticínios, hoje um negócio de milhões que está predominantemente nas mãos deste grupo da diáspora. À primeira vista, estas mãos parecem ser só masculinas. Contudo, um olhar mais cuidado revela outra realidade, como demonstra Alvin Graves em “Empresárias invisíveis: a mulher açor-americana nos lacticínios da Califórnia” (VI: 1487-1510). Este estudioso da presença açor-americana nos lacticínios californianos aponta para duas épocas:

…o período pré-2ª guerra mundial, quando dominava a cultura tradicional e a produção leiteira era um modo de vida, e o período pós- guerra, quando as normas culturais foram-se alterando e a produção leiteira do estado se transformou no que se chama agrobusiness. A mulher está bem presente em ambos os períodos, mas de uma forma invisível. (1488)

Figura 9: A mulher migrante na indústria de lacticínios da Califórnia. *

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Embora tenham sempre contribuído para os trabalhos da lavoura, as mulheres, actualmente com níveis mais elevados de escolarização, estão mais bem preparadas para lidar com o novo mundo do agrobusiness, em particular com a gestão financeira e a criação de bezerros. Alvin explica:

* Imagem tirada do livro The Portuguese Californians: Immigrants in Agriculture do autor Alvin Graves.

…são elas que fizeram cursos superiores; especializaram-se em gestão de empresas, finanças, contabilidade ou direito, tendo assim uma formação essencial que o marido raramente possui. Como a geração anterior, muitas continuam a gerir o negócio. Outras fazem marketing e formação do consumidor, e tomam parte nos lobbies do sector e na promoção de legislação favorável ao negócio leiteiro. (1495)

Figura 10: Imagem evocativa da presença açoriana na indústria leiteira californiana. *

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Formada em direito, Deanne Ferreira é uma açor-descendente que lida de perto com a legislação referente aos lacticínios, especialmente vista à luz das questões ambientais. No texto “Uma mulher e o ambiente: os desafios de sempre (VI: 1643-1658), Deanne explica:

Sendo recente, a legislação ambiental é ainda considerada um nicho do mercado no mundo da advocacia. É uma área dominada por homens, porque é normalmente necessário ter formação científica, e são os homens, mais do que as mulheres, que fazem a sua formação nas ciências exactas. (1645)

Tendo referido a participação dos seus antepassados na indústria leiteira do estado, Deanne conjuga a sua profissão com as suas raízes açóricas quando, ao referir o seu futuro profissional, descreve as suas intenções e motivações da seguinte forma:

Estou a estudar os efeitos da emissão de gás metano pelas vacas leiteiras. Várias vacarias estão a utilizar equipamento próprio para captar o gás metano do estrume (biomassa) de vaca, para depois convertê-lo em energia renovável. Os benefícios são notáveis. É minha intenção auxiliar os produtores de lacticínios da Califórnia a lidar com o labirinto de regras e leis ambientais que existem actualmente. Quero contribuir para que a herança dos nossos antepassados na indústria leiteira deste estado permaneça nas comunidades de descendentes de imigrantes dos Açores, um povo cujo esforço e conhecimento ultrapassaram tudo e todos. (1648-9)

* Imagem tirada do livro The Portuguese Californians: Immigrants in Agriculture do autor Alvin Graves.

Redefinindo a Identidade Cultural

Demonstrando, assim, uma grande sensibilidade para com a sua herança cultural e o reconhecimento inequívico das capacidades dos seus antepassados, Deanne Ferreira é uma jovem açor-descendente que, no contexto actual, está a redefinir a sua identidade cultural à luz dos novos paradigmas da contemporaneidade. Outro exemplo é Márcia Dinis, que se apresenta como “O ser jovem e luso-americana na era da globalização” (I: 181-190), descrevendo os afazers do seu dia-a-dia e os parâmetros da sua identidade da seguinte forma:

Levanto-me e tento fazer um jogging matinal todas as manhãs. Vou às aulas, faço umas horas de trabalho part-time, e às vezes jogo futebol ao serão. Depois, vou para casa e falo ao telefone com a minha mãe. Estas conversas são a melhor parte do meu dia porque me acalmam e me dão a oportunidade de falar a minha língua materna, o português… Na faculdade, escolhi o curso de Estudos Globais. Se perceber melhor a nossa sociedade global, talvez possa ajudar a minimizar os malefícios da mesma, enquanto ajudo a promover os benefícios. Ao mesmo tempo, estou a especializar-me em Português. Estudo a língua, a literatura e a cultura. Sou luso-americana, sou mulher e tenho 21 anos. (181)

Mais à frente no seu artigo, a jovem Márcia faz o seguinte o balanço do seu mundo e da sua identidade pessoal e cultural, afirmando:

Sou uma pessoa privilegiada. Acredito plenamente que esta era da globalização tem levado os jovens a sentir orgulho pela sua herança cultural… A bandeira portuguesa por cima da minha cama, a tatuagem do açor nas minhas costas, as peças de louça tradicional penduradas na parede do meu apartamento lembram-me que estou acima da média, que sou especial porque sou portuguesa. (182)

Carol Gregory é outra jovem de ascendência açoriana na Califórnia que está a desbravar o seu próprio caminho e a forjar o seu retrato individual, em relação estreita com o passado colectivo da comunidade californiana. No artigo “A geografia da minha identidade cultural” (I: 191-212), Carol traça as seguintes coordenadas identitárias:

Como geógrafa, estou a estudar a dimensão geográfica e a localização específica dos marcos da cultura lusa na Califórnia. Refiro-me a salões, igrejas e outros edifícios, e a nomes de ruas, zonas comerciais, bairros e parques. A riqueza deste património é o tema da minha tese de doutoramento, onde faço um inventário da quantidade e localização destes marcos historico-geográficos, desta forma ilustrando e descrevendo o impacto da nossa presença na paisagem cultural deste estado. (195)

Tendo colaborado com a Portuguese Historical and Cultural Society (PHCS) de Sacramento, a autora afirma que o contributo de Portugal foi fundamental para a história e para “o conhecimento geográfico do Mundo” (191).

Para concluir, o exemplo de uma jovem que está a redefinir a sua identidade e herança cultural ao ritmo da contemporaneidade. Chama-se Felicia Viator e é autora do artigo “A Neta do hip-hop: uma luso-americana no mundo da música contemporânea” (II: 381-392). Esta jovem, que vive na cidade de San Francisco, é DJ e é conhecida pelo apelido Neta. Como mulher, Felícia considera-se “quase um oximoro na cena hip-hop” e explica que, desde o seu início, nos anos 70, a cultura hip-hop tem seguido o modelo masculino. Eis a surpresa e a satisfação do público que assiste às suas actuações. Descendente, pelo lado materno, de emigrantes do Pico, esta jovem explica que escolheu o nome Neta em memória da avó. De visita à ilha ancestral, Felicia descreve os seus sentimentos e as recordações da avó, redefinindo-se como pessoa à luz desta herança vital e marcante, quando escreve:

De visita ao Pico, deixei-me levar pelo mundo da minha e comecei a perceber a dor que sentia. Procurava compreender como ela e este mundo tinham sido, sempre, uma parte vital de quem eu sou. Logo de seguida, a alcunha de DJ que tinha escolhido, o nome pelo qual sou conhecida no mundo do hip-hop de toda a área de San Francisco, cristalizou-se. Subitamente, o meu espírito elevou-se e senti simultaneamente humildade e ousadia. Parti do Pico e dos Açores sabendo: “I am Neta.” (385)

“I am Neta

PicoIsland-Azores

Figura 11: Imagem da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores.


BIBLIOGRAFIA

GOULART, T., coordenação (2003). The Holy Ghost Festas: A Historical Perspective of the Portuguese in California. San Jose, CA: Portuguese Heritage Publications of California.

GRAVES, A., (2004). The Portuguese Californians: Immigrants in Agriculture. San Jose, CA: Portuguese Heritage Publications of California.

SIMAS, R., coordenação e tradução (2003). A Mulher nos Açores e nas Comunidades / Women in the Azores and the Immigrant Communities, Volumes I, II, III e IV. Ponta Delgada: Empresa Gráfica Açoriana.

SIMAS, R., coordenação e tradução (2008). A Mulher e o Trabalho nos Açores e nas Comunidades / Women and Work in the Azores and the Immigrant Communities, Volumes V e VI. Ponta Delgada: UMAR-Açores.A MULHER MIGRANTE AÇORIANA NA CALIFÓRNIA:

DIVERSIDADE NUMA CULTURA COMUM

Rosa Neves Simas

Entre 2003 e 2008, tive o prazer de publicar A Mulher nos Açores e nas Comunidades, uma colectânea de 6 volumes contendo 100 artigos escritos por mulheres e homens de variadas idades, profissões e situações de vida, dando assim voz às diferentes experiências e perspectivas sobre a situação da mulher no arquipélago e nas comunidades dos Estados Unidos e do Canadá. Os artigos estão organizados de acordo com os seguintes tópicos: a mulher na sociedade, na educação, nos média, nas artes e tradições, nos assuntos legais e na saúde, com destaque para a mulher no mundo do trabalho.

Numa panorâmica da mulher açoriana na Califórnia, o que transparece é um retrato de diversidade no seio de uma cultura comum. O que surge é uma panóplia de formas diferentes de viver a experiência comum da açorianidade em terras da costa oeste dos Estados Unidos. A diversidade dos artigos sobre a mulher migrante na Califórnia pode ser apresentada em relação a variadas temáticas.

A Migração e a Língua

A emigração das ilhas para a Califórnia é centenária. Por isso, começo por voltar atrás no tempo, evocando uma mulher que emigrou nos anos 50 do século passado, altura em que ser imigrante nos Estados Unidos era considerado um entrave e uma origem étnica não-“americana” era vista como um handicap. Neste contexto, o sentimento de saudade era enorme e a ligação à família vital.

Emigração para a Califórnia nos anos 50 do século XX

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“Cadernos de uma mulher migrante: A língua e a procura do sentido da vida”

Volume III


Figura 1: Imagem da autora dos cadernos quando emigrou para a Califórnia.

Mom & Dad

Sexta, 28 Maio 1954 – Faz hoje um ano que chegámos à América, a casa da Maria. Recebi carta do José. Fala-me em vir cá para o ano… Principiei a sentir o bebé mexer.

Assim começa o artigo “Cadernos de uma mulher migrante: a língua e a procura do sentido da vida” (III: 555-574), um texto em que a autora, Helena, analisa o impacto da emigração na vida da sua mãe, uma mulher que encontrou consolo na escrita, para expressar os dilemas e as saudades e para combater o isolamento que sentia no ambiente estranho da América dos anos 50, época ultra-conservadora e avessa à migração. Escreve a filha desta mulher que emigrou em 1953 da ilha do Pico:

Contra tudo e todos, a minha mãe escrevia e guardava cadernos de diários. Caladamente persistente, escrevia quase todos os dias. Isto poderá não parecer notável, mas a verdade é que ela tinha apenas completado a antiga quarta classe nos Açores. Para além disso, ela era uma mulher migrante a viver isolada, em termos culturais e linguísticos, numa das vacarias típicas do Vale de San Joaquin na Califórnia. (555)

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Figura 2: Folhas dos cadernos de uma mulher migrante na Califórnia.


Como todas as pessoas que migram, esta mulher enfrentou a barreira de uma língua estrangeira, refugiando-se na escrita em português, como explica a filha, Helena, hoje mestre em linguística aplicada:

A língua, em qualquer das suas formas, evoca muita emoção numa pessoa imigrante. É muitas vezes uma lembrança dolorosa e constante da identidade que ficou atrás, e da separação que sentem do mundo lá fora, a falar através de um código desconhecido. A minha mãe refugiava-se na língua, com os seus pensamentos anotados no papel, para desvendar os hiatos da sua experiência entre dois mundos. (556)

Com o tempo, a filha vem a considerar esta experiência bilingue e bicultural como uma mais-valia, para si e para as irmãs. Hoje professora, a coordenar o ensino da língua inglesa em doze países do Médio Oriente, Helena observa: “A maior sensibilidade meta-linguística das crianças bilingues permite uma percepção precoce da vertente abstracta e simbólica das palavras” (561). Falando da mãe, diz:

Ao longo dos anos, a minha mãe foi aprendendo a comunicar à vontade na língua inglesa e, com o meu pai ao lado, tornou-se numa pessoa activa e respeitada na comunidade da Califórnia. As entradas nos diários foram mostrando mais auto-confiança e mais abertura ao exterior, ao mesmo tempo que documentavam o seu envolvimento social, mais do que o seu isolamento pessoal. (562-3)

Património e Tradições

Para combater a solidão da migração, e para participar em eventos sociais e cultivar as tradições das ilhas, a maioria das pessoas que emigra procura as associações e sociedades da comunidade. No artigo “A mulher portuguesa nas sociedades fraternais da Califórnia” (I: 149-172), Deolinda Adão, directora do Portuguese Studies Program da University of California, Berkeley, faz um esboço da história de cinco sociedades comunitárias da Califórnia, duas das quais – SPRSI (Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel) e UPPEC (União Portuguesa Protectora da Califórnia) – foram pioneiras porque, numa altura em que o associativismo era masculino, e continuou a sê-lo marcadamente até aos anos 70 do século passado, estas duas sociedades foram criadas por e para mulheres, há mais de um século.

SPRSI

Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel

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1889

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Figura 3: Sigla da Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel.


Das muitas e variadas associações e sociedades que organizam eventos comunitários e mantêm as tradições açorianas na Califórnia, as que são conhecidas como Irmandade do Espírito Santo (IDES), ou Sociedade do Espírito Santo (SES) são notáveis. Existe uma, e por vezes várias, em cada comunidade, formando uma rede que atravessa o estado, de norte a sul. A primeira foi criada em 1861. Ao longo de 150 anos, chegou a haver 144 irmandades. Hoje, 99 mantêm-se em actividade, organizando celebrações em honra do Espírito Santo em todo o estado.

Desde 1861,

houve 144 irmandades do Espírito Santo na Califórnia.

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Presentemente,

99 destas irmandades continuam em actividade.

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Figura 4: Imagem da rainha e aias de uma festa do Espírito Santo na Califórnia.


No artigo “As rainhas das festas na Califórnia: a inversão e reversão do ritual” (II: 281-316), a antropóloga Mari Lyn Salvador descreve os rituais que caracterizam esta tradição secular, dizendo: “As rainhas participam em festividades que derivam do ciclo ritual português associado a Santa Isabel, Rainha de Portugal de 1261 a 1336” (282). Numa perspectiva histórica e antropológica, Mari Lyn descreve “uma das formas encontradas pelos imigrantes para combinar elementos expressivos do país de acolhimento, com os elementos da sua terra natal que consideram importantes para a manutenção da sua identidade cultural” (283).

De uma forma sintética, Mari Lyn explica como “uma rainha do século XIII que oferecia as suas jóias para dar de comer aos pobres e coroava um homem pobre com a sua própria coroa” foi transformada nas rainhas de hoje, ricamente trajadas com vestidos, capas e tiaras de luxo. Tal metamorfose é exemplo claro do processo de recriação e adaptação das tradições do Velho Mundo, transplantadas no Novo Mundo. Simultaneamente, é um exemplo notável da intervenção activa da mulher na transmissão do património cultural, entre gerações.

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Caixa de texto: Figura 5: Imagem de uma mãe e a filha, rainha da festa de Espírito Santo.


A Expressão Artística

Como migrantes, as/os açor-descendentes vivem a sua herança cultural de formas variadíssimas, com características pessoais e idiossincráticas. A diversidade de técnicas e temáticas nas obras de duas artistas plásticas da Califórnia retrata bem esta realidade. A mais jovem artista, Marlene Angeja, que vive na área de San Francisco, diz em “Duas paisagens: a visão de uma artista luso-americana” (II: 421-438):

Aquilo que une as várias formas que as minhas obras assumem é uma força subjacente, que é muitas vezes inconsciente e instintiva. Essa força motora parece estar relacionada com duas coisas. Uma é a paisagem das Ilhas dos Açores. A outra é o meu interesse nas histórias, lendas e mitologias do povo português. (422)

Caixa de texto: Figura 6: Imagem da obra “Duas paisagens” de Marlene Angeja.img025

A obra “Duas Paisagens” conjuga a tradição da vindima nas ilhas com a vivência do meio rural da Califórnia onde Marlene cresceu. Outro exemplo do seu trabalho é a própria capa da antologia A Mulher nos Açores e nas Comunidades, que retrata a mãe desta artista, hoje mestre em Belas Artes e professora na California State University, San José. Referindo-se a outra obra, Marlene desvenda aspectos da sua experiência como descendente de emigrantes oriundos dos Açores:

Ao Aeroporto é um desenho mixed media de uma menina com o dedo na boca… Ao longo do lado esquerdo da tela lemos as palavras “eu fui ao aeroporto, tu foste ao aeroporto, você foi ao aeroporto…” Esta conjugação do verbo “ir” em português evoca a aquisição de uma língua estrangeira. Alude, também, ao medo e ao encanto que senti na primeira viagem às ilhas e ao sentido de perda que senti quando partimos. Um aeroporto é um lugar de chegadas e partidas. Como os portos de onde os antigos marinheiros partiram para as Descobertas, é um lugar marcado pela saudade. (423)

A segunda artista é Maxine Olson, que vive no sul do Vale de San Joaquin e tem um largo currículo artístico. Em vez de abstracta, como a da Marlene, a obra de Maxine é claramente figurativa, justapondo imagens de pessoas que marcaram a sua vida numa tentativa de recriar na tela as narrativas de uma açor-descendente. O artigo de Maxine tem por título “Um retrato da minha mãe: o que ficou por dizer” (Volume II: 409-420) e conta a história da sua viagem aos Açores, em busca de respostas sobre as suas antepassadas. Maxine acaba o texto dizendo:

As tentativas que tenho feito para descobrir os segredos da vida de minha mãe, e da mãe dela, têm-me levado a perceber melhor as forças que controlam a minha vida. Se vamos aprender com o passado, e ser perdoadas pelas nossas decisões e omissões no presente, não podemos esquecer as estórias e as ofensas, as penas e as dificuldades pelas quais as nossas progenitoras passaram na sua demanda pelo amor e pelo afecto. (414)

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Caixa de texto: Figura 7: Imagem da obra “Retrato da Minha Mãe” da artista Maxine Olson.


A Saúde e o Envelhecimento

A construção da identidade migrante depende muito das relações em família e da postura perante o passado e a vida presente dos familiares. Nesta demanda, o desafio é ainda maior quando o envelhecimento das pessoas que nos são queridas bate à porta. Efectivamente, neste contexto, como em tantos outros, as mulheres têm maior tendência para assumir o papel de cuidadoras, dentro da família e da própria comunidade. Esta dinâmica social é a génese do artigo “POSSO: um centro comunitário da Califórnia” (IV: 975-982), da autoria de Vicky Machado. Como co-fundadora da POSSO e elemento activo da comunidade, Vicky descreve a origem deste centro comunitário, há mais de três décadas:

A Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO) é uma ONG e foi criada pela comunidade portuguesa de San José para auxiliar imigrantes na sua integração social e adaptação ao país de acolhimento. Foi fundada em 1976 para assegurar à comunidade portuguesa pleno acesso aos serviços sociais e benefícios governamentais… Éramos formados e estávamos inspirados pela onda de orgulho étnico que prevalecia na América de então, e pela calorosa lealdade que sentíamos pelos nossos pais e avós imigrantes… Para o nome, escolhemos o acrónimo POSSO, precisamente para combater o fatalismo da nossa comunidade idosa, que se sentia fragilizada para conseguir a integração social de que precisavam para lhes garantir a sua quota-parte do sonho americano. (975)

Health Fair at POSSO

Figura 8: Imagem da dinâmica social na sede da organização POSSO.


Ao descrever os muitos programas e serviços da POSSO, Vicky sublinha a importância desta organização para a comunidade idosa, “um grupo isolado porque as/os familiares tinham e têm o seu tempo muito ocupado, trabalhando fora de casa para conseguir a sobrevivência económica da família” (976). Ao terminar, Vicky destaca a intervenção feminina neste projecto comunitário:

Desde o princípio, as mulheres têm sido fundamentais para a POSSO, como fundadoras, chefes, staff e voluntárias. Numa perspectiva tradicional, a POSSO desempenha, hoje, as “tarefas da mulher” porque presta cuidados e apoio às pessoas idosas e outros familiares vulneráveis, enquanto as mulheres, que cumpririam tais tarefas, trabalham fora de casa, contribuindo assim para o sustento da família e para a sua realização profissional. Vista nesta perspectiva, a POSSO deve o seu sucesso e longevidade à feliz conjugação de valores tradicionais e actuais. (978)

Educação e Empresariado

Tradicionalmente, a mulher açoriana, dentro e fora das ilhas, foi sujeita a muitas limitações e condicionalismos sociais e culturais. No contexto actual, muito mudou. Na educação, por exemplo, verifica-se uma acentuada presença da mulher no ensino superior. Elmano Costa descreve esta situação no artigo “A feminização do ensino superior numa comunidade rural da Califórnia” (III: 575-620). Este educador faz um esboço da comunidade rural, situada no norte do Vale de San Joaquin, ao mesmo tempo que descreve a evolução dos valores e olhares da mesma, no que concerne à educação, ao trabalho e à situação da mulher. Ao apresentar os resultados do seu estudo, este educador e professor na University of California, Stanislaus, faz a seguinte síntese:

As mulheres luso-californianas gozam de oportunidades que as suas mães nunca tiveram. Podem seguir uma carreira; casar quando querem e não porque precisam de alguém que as sustente; escolher ficar solteiras; ou optar por serem domésticas. E podem regressar à vacaria, para assumir a gerência do negócio, mas como gerentes diplomadas. (583)

Elmano termina o seu texto com este desejo: “E oxalá que elas possam dar aos seus filhos homens a mesma motivação que as levou a frequentar e a completar, com êxito, os seus cursos superiores, para que eles, no futuro, possam também usufruir dos benefícios de um diploma universitário” (584).

A mulher açor-californiana tem-se aventurado, ela própria, em outros domínios, incluindo o mundo empresarial. O mesmo autor debruça-se sobre este tema no artigo “Empresariado no feminino: novos horizontes para a mulher luso-americana” (VI: 1429-1456). Ao analisar a crescente participação da mulher como empresária no mundo dos negócios, Elmano observa: “Estas mulheres são, sem dúvida, pioneiras, pois conseguiram não só superar a discriminação de género, como também ultrapassaram as dificuldades que imigrantes, da primeira e da segunda gerações, tiveram de enfrentar para se integrarem na nova cultura do país de acolhimento e no mundo competitivo do trabalho e do empresariado” (1429).

Efectivamente, visto que a relação de qualquer imigrante com a sua comunidade é multifacetada e, por vezes, muito complicada, estas empresárias californianas tiveram de enfrentar e ultrapassar muitos obstáculos e desafios. Numa óptica negativa, a descriminação de género teima em persistir e são muitas as dificuldades da integração numa outra cultura. Do lado positivo, verifica-se uma relação de grande proximidade e envolvência com a comunidade, fazendo com que estas mulheres destaquem o desejo e o prazer que sentem ao contribuírem para o bem-estar da mesma. Segundo o autor: “As empresárias luso-americanas gozam de outra característica que não vem na literatura. Quase todas sublinham a importância que tem nas suas vidas o contributo que podem prestar à comunidade luso-americana” (1439).

A Indústria de Lacticínios da Califórnia

Em termos económicos, ao longo de décadas, o grande trunfo da presença açoriana na Califórnia tem estado na indústria de lacticínios, hoje um negócio de milhões que está predominantemente nas mãos deste grupo da diáspora. À primeira vista, estas mãos parecem ser só masculinas. Contudo, um olhar mais cuidado revela outra realidade, como demonstra Alvin Graves em “Empresárias invisíveis: a mulher açor-americana nos lacticínios da Califórnia” (VI: 1487-1510). Este estudioso da presença açor-americana nos lacticínios californianos aponta para duas épocas:

…o período pré-2ª guerra mundial, quando dominava a cultura tradicional e a produção leiteira era um modo de vida, e o período pós- guerra, quando as normas culturais foram-se alterando e a produção leiteira do estado se transformou no que se chama agrobusiness. A mulher está bem presente em ambos os períodos, mas de uma forma invisível. (1488)

Figura 9: A mulher migrante na indústria de lacticínios da Califórnia. *

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Embora tenham sempre contribuído para os trabalhos da lavoura, as mulheres, actualmente com níveis mais elevados de escolarização, estão mais bem preparadas para lidar com o novo mundo do agrobusiness, em particular com a gestão financeira e a criação de bezerros. Alvin explica:

* Imagem tirada do livro The Portuguese Californians: Immigrants in Agriculture do autor Alvin Graves.

…são elas que fizeram cursos superiores; especializaram-se em gestão de empresas, finanças, contabilidade ou direito, tendo assim uma formação essencial que o marido raramente possui. Como a geração anterior, muitas continuam a gerir o negócio. Outras fazem marketing e formação do consumidor, e tomam parte nos lobbies do sector e na promoção de legislação favorável ao negócio leiteiro. (1495)

Figura 10: Imagem evocativa da presença açoriana na indústria leiteira californiana. *

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Formada em direito, Deanne Ferreira é uma açor-descendente que lida de perto com a legislação referente aos lacticínios, especialmente vista à luz das questões ambientais. No texto “Uma mulher e o ambiente: os desafios de sempre (VI: 1643-1658), Deanne explica:

Sendo recente, a legislação ambiental é ainda considerada um nicho do mercado no mundo da advocacia. É uma área dominada por homens, porque é normalmente necessário ter formação científica, e são os homens, mais do que as mulheres, que fazem a sua formação nas ciências exactas. (1645)

Tendo referido a participação dos seus antepassados na indústria leiteira do estado, Deanne conjuga a sua profissão com as suas raízes açóricas quando, ao referir o seu futuro profissional, descreve as suas intenções e motivações da seguinte forma:

Estou a estudar os efeitos da emissão de gás metano pelas vacas leiteiras. Várias vacarias estão a utilizar equipamento próprio para captar o gás metano do estrume (biomassa) de vaca, para depois convertê-lo em energia renovável. Os benefícios são notáveis. É minha intenção auxiliar os produtores de lacticínios da Califórnia a lidar com o labirinto de regras e leis ambientais que existem actualmente. Quero contribuir para que a herança dos nossos antepassados na indústria leiteira deste estado permaneça nas comunidades de descendentes de imigrantes dos Açores, um povo cujo esforço e conhecimento ultrapassaram tudo e todos. (1648-9)

* Imagem tirada do livro The Portuguese Californians: Immigrants in Agriculture do autor Alvin Graves.

Redefinindo a Identidade Cultural

Demonstrando, assim, uma grande sensibilidade para com a sua herança cultural e o reconhecimento inequívico das capacidades dos seus antepassados, Deanne Ferreira é uma jovem açor-descendente que, no contexto actual, está a redefinir a sua identidade cultural à luz dos novos paradigmas da contemporaneidade. Outro exemplo é Márcia Dinis, que se apresenta como “O ser jovem e luso-americana na era da globalização” (I: 181-190), descrevendo os afazers do seu dia-a-dia e os parâmetros da sua identidade da seguinte forma:

Levanto-me e tento fazer um jogging matinal todas as manhãs. Vou às aulas, faço umas horas de trabalho part-time, e às vezes jogo futebol ao serão. Depois, vou para casa e falo ao telefone com a minha mãe. Estas conversas são a melhor parte do meu dia porque me acalmam e me dão a oportunidade de falar a minha língua materna, o português… Na faculdade, escolhi o curso de Estudos Globais. Se perceber melhor a nossa sociedade global, talvez possa ajudar a minimizar os malefícios da mesma, enquanto ajudo a promover os benefícios. Ao mesmo tempo, estou a especializar-me em Português. Estudo a língua, a literatura e a cultura. Sou luso-americana, sou mulher e tenho 21 anos. (181)

Mais à frente no seu artigo, a jovem Márcia faz o seguinte o balanço do seu mundo e da sua identidade pessoal e cultural, afirmando:

Sou uma pessoa privilegiada. Acredito plenamente que esta era da globalização tem levado os jovens a sentir orgulho pela sua herança cultural… A bandeira portuguesa por cima da minha cama, a tatuagem do açor nas minhas costas, as peças de louça tradicional penduradas na parede do meu apartamento lembram-me que estou acima da média, que sou especial porque sou portuguesa. (182)

Carol Gregory é outra jovem de ascendência açoriana na Califórnia que está a desbravar o seu próprio caminho e a forjar o seu retrato individual, em relação estreita com o passado colectivo da comunidade californiana. No artigo “A geografia da minha identidade cultural” (I: 191-212), Carol traça as seguintes coordenadas identitárias:

Como geógrafa, estou a estudar a dimensão geográfica e a localização específica dos marcos da cultura lusa na Califórnia. Refiro-me a salões, igrejas e outros edifícios, e a nomes de ruas, zonas comerciais, bairros e parques. A riqueza deste património é o tema da minha tese de doutoramento, onde faço um inventário da quantidade e localização destes marcos historico-geográficos, desta forma ilustrando e descrevendo o impacto da nossa presença na paisagem cultural deste estado. (195)

Tendo colaborado com a Portuguese Historical and Cultural Society (PHCS) de Sacramento, a autora afirma que o contributo de Portugal foi fundamental para a história e para “o conhecimento geográfico do Mundo” (191).

Para concluir, o exemplo de uma jovem que está a redefinir a sua identidade e herança cultural ao ritmo da contemporaneidade. Chama-se Felicia Viator e é autora do artigo “A Neta do hip-hop: uma luso-americana no mundo da música contemporânea” (II: 381-392). Esta jovem, que vive na cidade de San Francisco, é DJ e é conhecida pelo apelido Neta. Como mulher, Felícia considera-se “quase um oximoro na cena hip-hop” e explica que, desde o seu início, nos anos 70, a cultura hip-hop tem seguido o modelo masculino. Eis a surpresa e a satisfação do público que assiste às suas actuações. Descendente, pelo lado materno, de emigrantes do Pico, esta jovem explica que escolheu o nome Neta em memória da avó. De visita à ilha ancestral, Felicia descreve os seus sentimentos e as recordações da avó, redefinindo-se como pessoa à luz desta herança vital e marcante, quando escreve:

De visita ao Pico, deixei-me levar pelo mundo da minha e comecei a perceber a dor que sentia. Procurava compreender como ela e este mundo tinham sido, sempre, uma parte vital de quem eu sou. Logo de seguida, a alcunha de DJ que tinha escolhido, o nome pelo qual sou conhecida no mundo do hip-hop de toda a área de San Francisco, cristalizou-se. Subitamente, o meu espírito elevou-se e senti simultaneamente humildade e ousadia. Parti do Pico e dos Açores sabendo: “I am Neta.” (385)

“I am Neta

PicoIsland-Azores

Figura 11: Imagem da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores.


BIBLIOGRAFIA

GOULART, T., coordenação (2003). The Holy Ghost Festas: A Historical Perspective of the Portuguese in California. San Jose, CA: Portuguese Heritage Publications of California.

GRAVES, A., (2004). The Portuguese Californians: Immigrants in Agriculture. San Jose, CA: Portuguese Heritage Publications of California.

SIMAS, R., coordenação e tradução (2003). A Mulher nos Açores e nas Comunidades / Women in the Azores and the Immigrant Communities, Volumes I, II, III e IV. Ponta Delgada: Empresa Gráfica Açoriana.

SIMAS, R., coordenação e tradução (2008). A Mulher e o Trabalho nos Açores e nas Comunidades / Women and Work in the Azores and the Immigrant Communities, Volumes V e VI. Ponta Delgada: UMAR-Açores.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CONCLUSÕES DO ENCONTRO DA MAIA Maria Amélia Paiva

Mª Amélia Paiva
12.1.12


Encontro Mundial de Mulheres Migrantes
Maia, 25e 26 de Novembro de 2011

Algumas palavras em jeito de Síntese

Alguns números dos trabalhos destes dois dias:

Quase 70 intervenções/7 painéis/ 2 mulheres exemplo/modelo e muitas horas de testemunhos/estudos/ cultura /muitas e diversas diásporas.

Nesta moderna e acolhedora cidade da Maia e sob a égide de duas grandes portuguesas do século XX – Maria Lamas e Maria Archer – tivemos o privilégio de poder escutar e aprender com as histórias, testemunhos, reflexões, estudos e análise de tantas e tantos mulheres e homens empenhados(as) em que as contribuições das mulheres migrantes possam ter o espaço e a atenção que merecem.

Foram dois dias de leituras complementares do “terreno” e da “academia”. Dois dias intensos não só pelo grande número de informações, dados e tantos outros saberes mas também pela diversidade das origens, das geografias, das experiências e das várias gerações participantes. Quase que poderíamos afirmar que a matéria que foi apresentada – temas, intervenientes e tantas outras contribuições – poderiam facilmente ter sido objecto de 3 ou mais encontros.

A qualidade e a quantidade das experiências, ideias e também algumas propostas foram, de facto, notáveis. Espero assim que o livro de actas – electrónico ou em papel possa ajudar a sistematizar e a promover todo este enorme manancial de saberes.

Da história das migrações aos tempos e modos de viver a cidadania no feminino no século XXI e, sobretudo com mais mulheres, as intervenções e contributos efectuados ajudaram-nos a perceber o caminho já percorrido com vista à igualdade e paridade mas também o muito que ainda há para percorrer com vista a dar mais visibilidade e voz às mulheres da Diáspora, e das Diásporas.

Não há domínios a excluir – do associativismo à cultura – passando pelas empresárias (habitualmente tão pouco reconhecidas) mas sem esquecer a educação e a política – o papel das mulheres precisa de ser reconhecido, estimulado, divulgado e apoiado, nas nossas comunidades, como no mundo em geral.
Não podemos hoje, como no futuro, desperdiçar a criatividade, o trabalho, enfim os contributos de metade do mundo que fala e sente em português.

As várias intervenções fizeram eco disso mesmo – começando pela Aurora Cunha que, citou a Dra. Manuela Aguiar e bem, ao afirmar que foram as mulheres que geraram as comunidades.

Voluntariado, anonimato, invisibilidade, mobilização, solidariedade, responsabilidade e transmissão do património cultural e linguístico são apenas algumas das expressões que muitas(os) de vós usaram para nos falar das mulheres da Diáspora.

Sumariamente foram também referidas várias outras ideias e propostas:

• Necessidade de mais estudos e dados estatísticos sobre as mulheres migrantes;
• Progressos registados na última década em termos de qualificações e de aumento da visibilidade (também na política);
• Invisibilidade das migrações /défice de conhecimento sobre os(as) portugueses(as) no exterior/crescimento recente do grupo dos que emigram muito jovens, tendo nesse grupo vindo a ganhar expressão a emigração feminina;
• Aumento da emigração no feminino. Mudança do paradigma da emigração feminina nos dias de hoje – mais qualificadas e já não apenas no quadro do reagrupamento familiar – ainda assim as mulheres continuam a ser vítimas de segregação profissional;
• “Gap” geracional e pouca expressão pública das mulheres em comunidades dominadas pelos homens;
• As Mulheres são preservadoras da cultura mas também promotoras da integração e das decisões de não regresso a Portugal; Importância da celebração de acordos culturais;
• Trabalho voluntário das mulheres – vector essencial nas iniciativas sócio-culturais e político-cívicas nas comunidades – agentes de mudança para o aumento da cidadania;
• Defesa de uma maior e mais efectiva ligação às Diásporas;
• Urge aprofundar o debate acerca das duplas pertenças e duplas identidades, potencializar a fazer crescer as redes de pertença – plataformas de ligação e facilitadoras das integrações – lá e cá!;
• Plena maturidade e uma maior visibilidade e reconhecimento no exercício da cidadania ainda está para chegar – as desigualdades, mesmo salariais, têm que ser resolvidas. Podem recuperar-se as 2ªs e 3ªs gerações mas para tal é necessário mudar o paradigma;
• Urge que, nas associações e organizações se mudem as tradicionais formas de divisão de trabalho e também, como alguém defendia, “as comunidades deixem de ser só para os homens”;
• É tempo de fazer sair as mulheres dos espaços das margens – a cultura surge, por vezes, como espaço de marginalização. No entanto, importa realçar que a educação e a cultura, tantas vezes centradas nas mulheres, são espaços de preservação do património;
• A língua e a transmissão do património cultural mas também da promoção de Portugal devem merecer uma aprofundada reflexão estratégica adaptadas às muito diversas realidades locais;
• Urge, como defendi, no contexto de anteriores responsabilidades, feminizar a memória, neste caso, dos contributos das mulheres na construção da história e histórias da Diáspora;
• Da enorme diversidade, riqueza, experiências que, quer do ponto de vista de partidas, quer de chegada são em si tão diferentes pode afirmar-se que o diálogo inter-geracional é essencial e que, nesse diálogo, a promover nas comunidades e com as comunidades portuguesas estejam elas na Diáspora ou em Portugal, as mulheres devem ser chamadas e reconhecidas;
• Urge ainda que Programas de e para as Comunidades integrem sistematicamente a perspectiva de género - e que as iniciativas dêem adequado e devido destaque na sua delineação e concretização às mulheres, combatendo a discriminação e a invisibilidade, nomeadamente através da colocação das mulheres em lugares elegíveis;
• A aplicação dos Planos Nacionais (Igualdade e Violência Doméstica) deve, na sua execução, colocar maior ênfase nas políticas concretas de promoção das mulheres nas comunidades;
• Promover a aprendizagem e as trocas de saberes com as muitas mulheres líderes nas várias idades da sobrevivência, autonomia e crescente liderança;
• Partilha de boas práticas e das mudanças em paridade com os homens. As dificuldades devem ser usadas para crescer;
• Urge aprimorar o Observatório da Emigração e agilizar as redes de contacto nas e entre as comunidades – sites, blogs e congressos;
• Criação de uma Câmara de Comércio dos(as) Empresários(as) Portugueses(as) da Diáspora.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Graça Guedes DANÇA NO DIÁLOGO INTERCULTURAL

AS MULHERES PORTUGUESAS NO MUNDO
a Dança no diálogo intercultural


Prof. Doutora Maria da Graça Sousa Guedes
Professora Catedrática do ISCS-N
gracaguedes@net.sapo.pt




INTRODUÇÃO


O comportamento social da mulher e o desenvolvimento dos mecanismos responsáveis pelo seu ajustamento, ocorre em função da cultura, que parece funcionar como elemento determinante do seu bem – estar.

Num diálogo intercultural, as mulheres e as jovens da diáspora portuguesa têm utilizado actividades corporais em forma de DANÇA, que é dinamizada nas Associações portuguesas espalhadas pelo mundo.

Dançando o nosso património cultural, preservam-no, valorizam-no e divulgam-no, numa participação espontânea, alegre, activa, motivadora e paritária, que importa não ser interrompido pelas novas gerações.

Para que os jovens e as jovens de origem portuguesa continuem a desempenhar este papel, é necessário providenciar motivações, com actividades adequadas e atractivas, para que frequentem estes espaços portugueses e continuem o papel desempenhado pelos seus pais, com igual dinamismo e vontade de preservar a língua e a cultura portuguesa.











• Directora do Departamento de Ciências do Desporto do ISCS-N
Presidente da Assembleia Geral do Sporting Clube de Espinho
Vice-Presidente da Assembleia Geral do Orfeão de Espinho


CORPORALIDADE VERSUS GÉNERO FEMININO

Na grande maioria das sociedades humanas, existe um desequilíbrio entre géneros: a mulher percepciona-se inferior ao homem no desempenho de papéis socialmente determinantes, ocasionando conflitos que interferem na sua auto-estima. Segundo Fox (1998), é com frequência que as mulheres não têm confiança nas suas habilidades, quando se comparam com os homens, pelo que interfere na sua auto-confiança e na relação com o seu corpo, bem como nas expectativas das suas eficácias no desporto.

Já em 1945, Merleau-Ponty falava na necessidade de se descrever o corpo, como o lugar de aproximação existencial; o espaço onde realizamos no mundo um conjunto de significações, eleitas para conferir sentido à nossa existência.

Ora, se consideramos a corporalidade como forma dos nossos reflexos, temos de questionar acerca do lugar que ocupa na sua vida; investigar acerca da apropriação significativa realizada pela mulher no horizonte das suas experiências.

A auto-estima e o auto-conceito, de mulher ocidental reflecte o efeito de uma forte influência social, seguido como fonte de possíveis desajustamentos ou de conflitos interpessoais, com repercussões na sua imagem corporal e na sua saúde mental.

É cada vez maior o número de mulheres que recorrem à prática de actividades físicas, com a finalidade de encontrarem o seu bem-estar psicológico e assim combaterem os efeitos de conflitos internos e de pressões causadas pelo modelo social, que se traduzem em ansiedade, depressão, folias, alterações negativas de humor, do auto-conceito e de auto-estima.

Para Altermann & Saole (2000), os níveis baixos de auto-estima podem conduzir a patologias diversas, comprometendo a qualidade de vida, para além de interferirem nos níveis de satisfação com a vida.

As diferenças de género, que estão bem impressas nas estruturas sociais e mentais (Bordieu, 1996), parecem potenciar-se no âmbito de actividade física e do desporto.

Verifica-se o desenvolvimento de atitudes preconceituosas e de estereótipos de género, que são limitadores na construção de feminilidade e de masculinidade. Incutem, subtilmente, a ideia de uma imagem hegemónica masculina, expressa num padrão legitimo de masculinidade (Botelho Gomes et al. , 2002)

Ora é a Escola que deve atender à pluralidade de cultura que caracteriza o desporto e, segundo Thoberge (1991), à sua irrisória mentalidade na construção dos géneros. Esta falha mentalidade do Desporto, lidando com os alunos e as alunas da mesma maneira, numa errónea suposição de que assim se atinge a justiça e a igualdade de oportunidades, tem inquinado a educação. Esta falsa mentalidade é contrariada por Patrício (1990), que afirma categoricamente que educamos personalidades irrepetíveis e que nos projectos individuais de existência, devem estar incluídos os diversos saberes e culturas.

A Escola tem efectivamente de respeitar e de implementar os princípios de equidade, que assegurem justeza e justiça no processo educativo. E, assim sendo, a Actividade Física e o Desporto devem propiciar a auto-estima e a competência, de forma a que seja percebida pelos alunos e pelas alunas, de modo que todos e não importa o género, vejam estas práticas corporais como actividades incluídas no seu quotidiano e que devem permanecer ao longo das suas vidas. E, para tal, é fundamental que tenham prazer ao praticá-las.

Hoje são consensuais as noções de que a actividade física regular assume um papel relevante na promoção de um estilo de vida saudável e de que níveis elevados de actividade de uma participação similar quando adultos.

E esta prática regular de actividade física acontece naturalmente na mulher da diáspora portuguesa quando dança as nossas tradições, para afirmação e divulgação da cultura portuguesa no mundo dinamizada nas suas associações.

As danças, assim como cantares, constituem um património cultural extremamente rico e diversificado, com o qual os portugueses da diáspora se identificam e se formam agentes de preservação das suas tradições.

Interpretam-nas com um grande prazer e orgulho, na certeza de estarem a contribuir para que sejam mantidas vivas as suas raízes e, consequentemente, fortalecerem o diálogo entre os dois universos que os condicionam.

E nelas podem participar todos, não importa a idade e o género. Mesmo quando não dançam, fazem parte dos coros ou dos grupos instrumentais que as acompanham.


A MULHER DA DIÁSPORA PORTUGUESA E O DIÁLOGO INTERCULTURAL

O associativismo na diáspora portuguesa constituiu uma forma de conjugar indivíduos com interesses ou gostos análogos, que tem favorecido a implementação de objectivos comuns: convivência social, prossecução de práticas culturais, recreativas e desportivas, para além da defesa de interesses nos centros de saúde, do trabalho, das condições de vida, da política (Guedes, 1995).

As Associações portuguesas espalhadas pelo mundo, podem efectivamente ser consideradas como um processo globalizante de interpretações sociais e um meio privilegiado para o estabelecimento de um diálogo intercultural, que se alicerça no fortalecimento dos seus próprios valores culturais.

O elevado número de associações que abrange todos os continentes, reflecte a espontânea necessidade em manter e cultivar a sua própria identidade, de forma a criar mecanismos próprios para defesa dos seus interesses, bem como para manifestar uma presença activa no país de acolhimento.

Nestes espaços de convívio que os portugueses criaram em todo o mundo e que se destinam à sua sobrevivência cultural, são desenvolvidos diferentes tipos de actividades. Pode haver algumas diferenças, dependentes das suas motivações, mas em quase todas há Desporto e há Folclore.

Tive a oportunidade de conhecer uma grande parte de Associações na Europa (França e Suiça), em África (Zaire e África do Sul), na América do Norte e Central (EUA, Canadá e Panamá), na América do Sul (Brasil, Venezuela, Uruguai e Argentina), na Ásia (Malaca) e de trabalhar com os Grupos de Folclore, reconhecendo um empenho extraordinário de todos e uma vontade de melhorar e aumentar os seus reportórios.

Reflectindo uma Cultura Motora inerente às suas vivências e às suas memórias, procuravam reproduzi-las com rigôr. Com todos eles procurei corrigir alguns defeitos, melhorar as suas prestações, adequar as coreografias e os passos inerentes às Danças portuguesas, ampliar os reportórios bem como as músicas e os instrumentos a que recorriam. Foi uma tarefa extremamente enriquecedora que vivenciei e, se em alguns casos, o tempo de duração foi favorável, tal como no Uruguai e em Malaca (15 dias), nos outros casos foi menos intenso, mas a dedicação de todos e em regime pós-laboral, propiciou excelentes progressos.

Estas acções foram reconhecidas pela minha Faculdade – Educação Física e Desporto da Universidade do Porto – e expressas em diplomas entregues a todos os participantes.

No Encontro Mundial de Mulheres Migrantes, realizado em Espinho em 1995, apresentei um estudo que realizei acerca do papel do Folclore na aculturação dos povos, no qual foram quantificados os grupos então existentes nas Associações e distribuídos pelos continentes (Quadro nº. 1).


Quadro nº 1 - Grupos de Folclore nas Associações Portuguesas

CONTINENTES ASSOCIAÇÕES GRUPOS DE FOLCLORE
EUROPA
1057 446
ÁFRICA
100 22
AMÉRICA DO NORTE
448 94
AMÉRICA CENTRAL E DO SUL
289 74
TOTAL
1894 636
Guedes, 1995

Haverá provavelmente alguma alteração nestes valores e que valerá a pena actualizar, uma vez que estão decorridos já bastantes anos. E, complementarmente, conhecer mais acerca das modalidades desportivas existentes, quantidade de participantes envolvidos e distribuídos em função do género e idade.


O Folclore, é efectivamente praticado em quase um terço das Associações. E, porque as danças portuguesas são caracterizadamente realizadas aos pares, há necessariamente uma participação com paridade entre géneros.

Para além destas práticas corporais constituírem um celeiro de novas sementes, que fertilizam a dinâmica corporal expressa em dança, há também relações de género.

Há educação estética, como processo formativo do ser humano, mas também como processo de abertura e de ampliação das capacidades de sinalização para aceite, em relação ao outro (género) e em relação ao mundo (educação) que não pode ser desvalorizado nem interrompido, com uma participação cada vez maior e atractiva para os mais novos.

No Desporto, a participação feminina não será significativa, não porque tenham sido levantados dados relativos a este tipo de envolvência, mas por conhecimento pessoal obtido nas visitas às Associações.

As jovens e as mulheres portuguesas dançam o nosso património cultural, preservando-o e divulgando-o, numa participação espontânea, alegre, activa, motivadora e paritária.

Há certamente muitas jovens que praticam desportos e ao mais elevado nível, como também de outras actividades culturais. Estarão provavelmente distantes da comunidade portuguesa e não utilizam as suas performances para atraírem e motivarem os mais novos para as práticas que dominam. Mas estas jovens podem ser agentes excelentes para as dinamizarem nas Associações portuguesas.

Consequentemente, estes espaços ficariam enriquecidos com a presença constante das novas gerações e de novas actividades, que arrastariam os amigos e potencializariam cada vez mais estes magníficos espaços portugueses espalhados pelo mundo.

Para tal, importa que as suas Direcções consciencializem a importância destes contributos, que irão dar continuidade ao contributo notável que têm dado para a concretização de um processo globalizante de interpretações sociais neste meio privilegiado onde se estabelece um diálogo intercultural, alicerçado no fortalecimento dos seus próprios valores culturais.






CONCLUSÃO

Apesar de ser cada vez maior o número de mulheres que recorrem à prática de actividades físicas, com a finalidade de encontrarem o seu bem-estar psicológico, a sociedade portuguesa é ainda hoje impressa de atitudes preconceituosas e de estereótipos de género, que são limitadores de uma prática desportiva feminina mais dinamizada, diversificada e divulgada.


Nas Associações, esses espaços de convívio que os portugueses criaram em todo o mundo e que se destinam à sua sobrevivência cultural, são desenvolvidos diferentes tipos de actividades, onde o desporto e o folclore são uma constante.

Se, no Desporto, a participação feminina não será significativa, no Folclore há paridade de géneros, na medida em que as danças portuguesas que praticam são realizadas aos pares, tal como é caracterizada a dança tradicional portuguesa.

As jovens e as mulheres portuguesas dançam o nosso património cultural, preservando-o e divulgando-o, numa participação espontânea, alegre, activa, motivadora e paritária.

Há certamente muitas jovens que praticam desportos e ao mais elevado nível, como também de outras actividades culturais. Estarão provavelmente distantes da comunidade portuguesa e não utilizam as suas performances para atraírem e motivarem os mais novos para as práticas que dominam. Mas estas jovens podem ser agentes excelentes para as dinamizarem nas Associações portuguesas e que importa aproveitar.

Consequentemente, estes espaços ficariam enriquecidos com a presença constante das novas gerações e de novas actividades, que arrastariam os amigos e potencializariam cada vez mais estes magníficos espaços portugueses espalhados pelo mundo.

Importa que as suas Direcções consciencializem a importância destes contributos, que irão dar continuidade ao contributo notável que têm dado para a concretização de um processo globalizante de interpretações sociais neste meio privilegiado onde se estabelece um diálogo intercultural, alicerçado no fortalecimento dos seus próprios valores culturais que tão bem sabem preservar.


BIBLIOGRAFIA

BORDIEU,P. (1999). A Dominação Masculina. Oeiras: Celta Editora.

FOX, R.K. (1998). Advances in Measurement of the Physical Self. In. J.L, Luda (Ed.), Advances in Sport and Exercise Measurement. Morgantown: Fitness Information Technology

MERLEAU-PONTY, M. (1945). Phenomenologie de La Perception. Paris : Gallimard.

SOUSA GUEDES, M.G. (1995). O Papel do Folclore na Aculturação dos Povos; os portugueses no mundo. Actas do Encontro Mundial de Mulheres Migrantes – Gerações em Diálogo. Espinho: Março de 1995.

SOUSA GUEDES, M.G. (2005). As Mulheres Portuguesas em Movimento. Encontros para a Cidadania: a igualdade entre homens e mulheres nas comunidades portuguesas - Argentina. Buenos Aires, Novembro de 2005.

SOUSA GUEDES, M.G. (2006). A não igualdade entre géneros no Desporto. Encontros para a Cidadania: a igualdade entre homens e mulheres nas comunidades portuguesas - Europa. Estocolmo, Março de 2006.



Graça Guedes
Espinho, Novembrol de 2011






























A MULHER E O DESPORTO
as portuguesas no diálogo intercultural


Prof. Doutora Maria da Graça Sousa Guedes
Professora Catedrática do ISCS-N
gracaguedes@net.sapo.pt


INTRODUÇÃO


O comportamento social da mulher e o desenvolvimento dos mecanismos responsáveis pelo seu ajustamento, ocorre em função da cultura, que parece funcionar como elemento determinante do seu bem–estar.

A auto-estima e o auto-conceito da mulher ocidental, reflecte o efeito de uma forte influência social, agindo como fonte de possíveis desajustamentos ou de conflitos interpessoais, com repercussões na sua imagem corporal e na sua saúde mental.

As diferenças de género, bem impressas nas estruturas sociais e mentais (Bordieu, 1996), potenciam-se ainda hoje no âmbito da Actividade Física e do Desporto.

E a Escola, forja das novas gerações, considerando a pluralidade cultural que caracteriza o Desporto, tem vindo gradativamente a propiciar práticas de Actividade Física, não só na disciplina de Educação Física ministrada ao longo de todo o ensino Básico e Secundário, como também no Desporto Escolar, favorecendo assim a auto-estima e a competência, qualquer que seja o género, balizando criar uma Cultura Motora que favoreça a inclusão de práticas corporais no seu quotidiano que devem permanecer ao longo das suas vidas.

A confirmar esta mudança nos curricula escolares que valoriza a área do Desporto, serão apresentados estudos que revelam a participação dos jovens e das jovens portuguesas em actividades desportivas extra-curriculares. Contrariando este fomento do desporto na escola, a comunicação social desvaloriza o Desporto feminino, tal como se demonstrará em estudos realizados.

Num diálogo intercultural, as mulheres e as jovens da diáspora portuguesa têm utilizado actividades corporais em forma de DANÇA, que é dinamizada nas Associações portuguesas espalhadas pelo mundo.

Dançando o nosso património cultural, preservam-no, valorizam-no e divulgam-no, numa participação espontânea, alegre, activa, motivadora e paritária, que importa não ser interrompido pelas novas gerações.

Para que os jovens e as jovens de origem portuguesa continuem a desempenhar este papel, é necessário providenciar motivações, com actividades adequadas e atractivas, para que frequentem estes espaços portugueses e continuem o papel desempenhado pelos seus pais, com igual dinamismo e vontade de preservar a língua e a cultura portuguesa.




• Directora do Departamento de Ciências do Desporto do ISCS-N
Presidente da Assembleia Geral do Sporting Clube de Espinho
Vice-Presidente da Assembleia Geral do Orfeão de Espinho

CORPORALIDADE VERSUS GÉNERO FEMININO


Na grande maioria das sociedades humanas, existe um desequilíbrio entre géneros: a mulher percepciona-se inferior ao homem no desempenho de papéis socialmente determinantes, ocasionando conflitos que interferem na sua auto-estima.

Segundo Fox (1998), é com frequência que as mulheres não têm confiança nas suas habilidades, quando se comparam com os homens, pelo que interfere na sua auto-confiança e na relação com o seu corpo, bem como nas expectativas das suas eficácias no Desporto.

A auto-estima e o auto-conceito da mulher ocidental, reflecte o efeito de uma forte influência social, seguido como fonte de possíveis desajustamentos ou de conflitos interpessoais, com repercussões na sua imagem corporal e na sua saúde mental.

É cada vez maior o número de mulheres que recorrem à prática de actividades físicas, com a finalidade de encontrarem o seu bem-estar psicológico e assim combaterem os efeitos de conflitos internos e de pressões causadas pelo modelo social, que se traduzem em ansiedade, depressão, folias, alterações negativas de humor, do auto-conceito e de auto-estima.

As diferenças de género, que estão bem impressas nas estruturas sociais e mentais (Bordieu, 1996), parecem potenciar-se no âmbito de Actividade Física e do Desporto.

Verifica-se o desenvolvimento de atitudes preconceituosas e de estereótipos de género, que são limitadores na construção de feminilidade e de masculinidade. Incutem, subtilmente, a ideia de uma imagem hegemónica masculina, expressa num padrão legítimo de masculinidade (Botelho Gomes et al., 2002)

Ora é a Escola, forja das novas gerações, que tem de respeitar e de implementar os princípios de equidade, que assegurem justeza e justiça no processo educativo, dispondo para tal da pluralidade cultural que caracteriza o Desporto, mas que e segundo Thoberge (1991), mantém uma irrisória mentalidade na construção dos géneros.

Esta falha relativamente à importância do Desporto, lidando com os alunos e as alunas da mesma maneira, numa errónea suposição de que assim se atinge a justiça e a igualdade de oportunidades, tem inquinado a Educação, muito embora as novas políticas evidenciem um gradativo aumento da valorização da Educação Física e do Desporto, agora obrigatória ao longo de todo o ensino Básico e Secundário.

A Actividade Física e o Desporto devem propiciar a auto-estima e a competência, mas percebida pelos alunos e pelas alunas, de modo a que todos, não importa o género, vejam estas práticas corporais como actividades incluídas no seu quotidiano e a permanecer ao longo das suas vidas, razão pela qual é fundamental que tenham prazer ao praticá-las.

Hoje são consensuais as noções de que a actividade física regular assume um papel relevante na promoção de um estilo de vida saudável e de que níveis elevados de actividade de uma participação similar quando adultos. No entanto, a realidade portuguesa tem revelado uma fraca aquisição de hábitos desportivos, tanto nos homens quanto nas mulheres, sendo este quadro ainda mais preocupante no que se refere às mulheres (Marivoet, 1998), condicionando assim a sua qualidade de vida.

Num estudo desenvolvido por Marivoet (2001) sobre os hábitos desportivos da população portuguesa e realizado no concelho de Matosinhos (Quadro nº. 1), da qual foi seleccionada uma amostra constituída por 450 alunos, com idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos, sendo 224 do género feminino (50,2%) e 226 do género masculino (49,8%), foi constatado que a maioria dos alunos (55,8%) são praticantes desportivos, para além das práticas nas aulas regulares de Educação Física, mas são sobretudo do género masculino (71,2%).


Quadro nº. 1 – Hábitos desportivos da população portuguesa

Praticantes Não Total
Praticantes
N % N % N %
Feminino 90 40,2% 134 59,8% 224 100%
Género
Masculino 161 71,2% 65 28,8% 226 100%


Total

251

55,8%

199

44,2%

450

100%


Há esperança de um novo rumo para a prática desportiva dos jovens, sobretudo se verificar a evolução registada num estudo desenvolvido no Instituto de Desporto de Portugal (Quadro nº. 2) e realizado por Adelino; Vieira & Coelho (2004), onde é comparada a percentagem de jovens, com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos que praticam desporto federado e com base nos censos populacionais de 1991 e de 2001.

Apesar desta evolução, é importante que os políticos desportivos e as instituições responsáveis pela sua aplicação, tomem as medidas necessárias para concretizar as intenções manifestadas na legislação portuguesa e nas cartas e acordos internacionais, de forma a que cada vez mais os cidadãos, independentemente o género, acedam ao Desporto.


Quadro nº. 2 – Praticantes de desporto federado (10 / 16 anos de idade)

Praticantes
1998
2004

Masculinos

Praticantes
91874
20,7%
109790 27,3&


Dados do Censo
444151


402646

Femininos
Praticantes 24885 5,9% 53358 9,2&


Dados do Censo 421930

384971


Total
Praticantes
116759
13,5%
145148
18,4%

Dados do Censo 866081 787617


Estas preocupações, que exigem mudanças de mentalidade e pressupõem legislação própria, sensibilizou já o Conselho da Europa.

Efectivamente, a Comissão sobre a Igualdade de Oportunidades para as Mulheres e os Homens da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, elaborou recentemente um documento redigido pela Dra. Manuela Aguiar e intitulado Descriminação contra as mulheres e jovens nas actividades desportivas, que constituiu a Recomendação 1701 (2005), discutida e aprovada por aquela Assembleia em 27 de Abril de 2005.

Esta recomendação partiu de dois grandes objectivos:

A – As mulheres são confrontadas com numerosas descriminações no acesso à prática desportiva amadora e profissional, que são contrários aos princípios do Conselho da Europa. A persistência de estereótipos, a falta de estruturas de enquadramento e de apoio às mulheres desportivas e às jovens dotadas de um potencial desportivo, a dificuldade de conciliar a vida profissional / desportiva e familiar, a difícil reinserção no mundo do trabalho, uma cobertura mediática insuficiente dos desportos praticados pelas mulheres e os financiamentos privados limitados, são manifestações destas descriminações.


B – A Assembleia Parlamentar deveria pedir ao Comité dos Ministros do Conselho da Europa para desenvolver um “Estratégia para as Mulheres e os Desportos”, para desigualmente promover a participação das mulheres e dos jovens em actividades desportivas desde a escola e ao longo de toda a vida, considerando a dimensão do género nas políticas do desporto, apoiar os desportos femininos e a prática do desporto de alta competição, favorecer a participação das mulheres nas instancias dirigentes e encorajar uma melhor cobertura mediática dos desportos femininos.

A MULHER, O DESPORTO E OS “MASS MEDIA”

Actualmente, as mulheres não só competem, como praticam todas as modalidades desportivas; obtêm também cada vez com melhores resultados.

No entretanto, a cobertura que os “mass media” efectuam no desporto feminino é significativamente inferior à efectuada no desporto masculino.

Diversos estudos realizados noutros países acerca da cobertura televisiva e dada pela imprensa escrita sobre o desporto feminino e masculino, revelam que o desporto feminino recebe pouca atenção, quando comparado com o masculino (Crossman et al; 1994; Duncan et al; 1994; Hargreaves, 1994; Lever & Wheeler, 1984).

Em Portugal, num estudo recente realizado por Pinheiro & Queiroz (2003), esta realidade é confirmada.

As autoras analisaram durante um mês dois jornais diários, um desportivo (A Bola) e um generalista (Jornal de Noticias), tendo excluído todas as referências ao futebol, a tabelas de resultados, a agendas desportivas, a artigos de opinião e a notícias breves.

Para a análise, elegeram as seguintes categorias: artigos/notícias e fotografias de atletas portuguesas e estrangeiros. Cada categoria foi dividida em sub-categorias: masculino (artigo ou foto), feminino (artigo ou foto) e misto. Posteriormente, cada uma das sub-categorias foi analisada em função do número de artigos/notícias e fotografias, do espaço físico ocupado, da sua colocação em cada página (topo, centro e baixo).

Quadro nº. 3 – Os mass media e o desporto versus género

Género A Bola Jornal de Notícias
Artigos Masculino
Feminino
Misto 334
72
32 225
31
17
Fotografias Masculino
Feminino
Misto 337
66
15 135
22
2


Quadro nº. 4 – Os mass media, o espaço físico das notícias versus género

Artigos/Fotos Jornal de Notícias A Bola
Género N Média SD N Média SD
Espaço físico
(cm2) Artigos masculinos 225 39,3848 32,9598 335 111,2550 49,7169
Artigos femininos 31 20,8497 16,7290 72 86,2736 53,2259
Artigos mistos
57,5612 52,5373 120,7000 65,5275
Espaço físico
(cm2) Fotografias masculinas 135 42,0467 50,7668 337 113,5469 93,3389
Fotografias femininas
22 24,9127 31,5451 66 109,9805 83,2288
Fotografias mistas
69,985 81,3385 120,4567 108,452
3


Quadro nº. 5 – Os mass media e a colocação dos artigos versus género

Artigos Fotografias
Masculinos Femininos Mistos Masculinas Femininas Mistas
Jornal de Notícias Topo N 76 17 3 51 9 1
% 27,8 6,2 1,1 32,1 5,7 0,6
Centro N 53 5 5 40 5 1
% 19,4 1,8 1,8 25,2 3,1 0,6
Baixo N 42 5 7 13 4
% 15,4 1,8 2,6 8,2 2,5
Centro/Topo N 34 4 1 23 4
% 12,5 1,5 0,4 14,5 2,5
Centro/Baixo N 20 1 8
% 7,3 0,4 5

Total N 225 31 17 135 22 2
82,4 11,4 6,2 84,9 13,8 1,3
A Bola Topo N 17 1 58 2 2
% 3,9 0,2 13,9 0,5 0,5
Centro N 17 5 1 43 7 2
%
3,9 1,1 0,2 10,3 1,7 0,5
Baixo N 69 30 8 67 14 4
% 15,8 6,8 1,8 16 3,3 1
Centro/Topo N 139 21 15 98 26 7
% 31,7 4,8 3,4 23,4 6,2 1,7
Centro/Baixo N 92 15 8 54 15
%
21 3,4 1,8 12,9 3,6

Total N 334 72 32 337 66 15
% 76,3 16,4 7,3 80,6 15,8 3,6


Os resultados apresentados nos quadros 3,4 e 5, revelam que se continua a verificar uma certa descriminação pela imprensa escrita, acompanhando a tendência detectada em outros estudos desenvolvidos em Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Finlândia.

Para Ducan et al. (1994), a pequena atenção dedicada ao desporto feminino, bem como a forma como são frequentemente tratados os atletas e também como são efectuados os comentários e a linguagem que é utilizada, tendem a reforçar a desigualdade entre géneros.

Tal como refere Gerbner (1978, cit in Boutellier & SanGiovanni, 1983: 185), a menor atenção dedicada ao desporto feminino constitui na realidade “… uma imaginação simbólica de mulher”. Os meios de comunicação social ajudam assim a veícular a ideia de que o desporto feminino não é tão importante quanto o masculino e, como tal, as mulheres atletas e as suas prestações desportivas não são merecedoras da mesma atenção que é dada à dos homens atletas.

Para além de continuarem a mostrar o Desporto como área essencialmente masculina, ajudam a perpetuar ideias estereotipadas de feminilidade e de masculinidade.

Uma maior abertura do desporto feminino na comunicação social, pode efectivamente ajudar a mudar estas ideias estereotipadas relativas ao envolvimento de mulher em práticas desportivas, bem como às ideias inerentes às suas habilidades motoras e, consequentemente, encorajar mais raparigas e mulheres para o desporto.

Com a maior divulgação pelos mass media, as várias mulheres atletas podem inclusivamente funcionar como modelos para as jovens e assim favorecer o aumento dos hábitos de práticas corporais da população feminina.

Todos os atletas, sejam homens ou mulheres, merecem a mesma atenção. Uma atenção equilibrada, já que as relações entre géneros no desporto, assim como em qualquer outra prática social, são relações de poder (Hargreaves, 1994).

A MULHER DA DIÁSPORA PORTUGUESA E O DIÁLOGO INTERCULTURAL

O associativismo na diáspora portuguesa constituiu uma forma de conjugar indivíduos com interesses ou gostos análogos, que tem favorecido a implementação de objectivos comuns: convivência social, prossecução de práticas culturais, recreativas e desportivas, para além da defesa de interesses nos centros de saúde, do trabalho, das condições de vida, da política (Guedes, 1995).

As Associações portuguesas espalhadas pelo mundo, podem efectivamente ser consideradas como um processo globalizante de interpretações sociais e um meio privilegiado para o estabelecimento de um diálogo intercultural, que se alicerça no fortalecimento dos seus próprios valores culturais.

O elevado número de associações que abrange todos os continentes, reflecte a espontânea necessidade em manter e cultivar a sua própria identidade, de forma a criar mecanismos próprios para defesa dos seus interesses, bem como para manifestar uma presença activa no país de acolhimento.

Nestes espaços de convívio que os portugueses criaram em todo o mundo e que se destinam à sua sobrevivência cultural, são desenvolvidos diferentes tipos de actividades. Pode haver algumas diferenças, dependentes das suas motivações, mas em quase todas elas há Desporto e há Folclore.

Tive a oportunidade de conhecer grande parte delas e de trabalhar com os Grupos de Folclore, reconhecendo um empenho extraordinário de todos e uma vontade de melhorar e aumentar os seus reportórios, que reflectiam uma Cultura Motora que recorria às suas memórias.

No Encontro Mundial de Mulheres Migrantes, realizado em Espinho em 1995, apresentei um estudo que realizei acerca do papel do Folclore na aculturação dos povos, no qual foram quantificados os grupos então existentes nas Associações e distribuídos pelos continentes (Quadro nº. 6).


Haverá provavelmente alguma alteração nestes valores e que valerá a pena actualizar, uma vez que estão decorridos dez anos. E, complementarmente, conhecer mais acerca das modalidades desportivas existentes, quantidade de participantes envolvidos e distribuídos em função do género e idade.


Quadro nº 5 - Grupos de Folclore nas Associações Portuguesas

CONTINENTES ASSOCIAÇÕES GRUPOS DE FOLCLORE
EUROPA
1057 446
ÁFRICA
100 22
AMÉRICA DO NORTE
448 94
AMÉRICA CENTRAL E DO SUL
289 74
TOTAL
1894 636
Guedes, 1995


As danças, assim como cantares, constituem um património cultural extremamente rico e diversificado, com o qual os portugueses da diáspora se identificam e se formam agentes de preservação das suas tradições.

Interpretam-nas com um grande prazer e orgulho, na certeza de estarem a contribuir para que sejam mantidas vivas as suas raízes e, consequentemente, fortalecerem o diálogo entre os dois universos que os condicionam.

E nelas podem participar todos, não importa a idade e o género. Mesmo quando não dançam, fazem parte dos coros ou dos grupos instrumentais que as acompanham.

O Folclore, é efectivamente praticado em quase um terço das Associações. E, porque as danças portuguesas são caracterizadamente realizadas aos pares, há necessariamente uma participação com paridade entre géneros.

Para além destas práticas corporais constituírem um celeiro de novas sementes, que fertilizam a dinâmica corporal expressa em dança, há também relações de género.

Há educação estética, como processo formativo do ser humano, mas também como processo de abertura e de ampliação das capacidades de sinalização para aceite, em relação ao outro (género) e em relação ao mundo (educação) que não pode ser desvalorizado nem interrompido, com uma participação cada vez maior e atractiva para os mais novos.

No Desporto, a participação feminina não será significativa, não porque tenham sido levantados dados relativos a este tipo de envolvência, mas por conhecimento pessoal obtido nas visitas às Associações.

As jovens e as mulheres portuguesas dançam o nosso património cultural, preservando-o e divulgando-o, numa participação espontânea, alegre, activa, motivadora e paritária.

Há certamente muitas jovens que praticam desportos e ao mais elevado nível, como também de outras actividades culturais. Estarão provavelmente distantes da comunidade portuguesa e não utilizam as suas performances para atraírem e motivarem os mais novos para as práticas que dominam. Mas estas jovens podem ser agentes excelentes para as dinamizarem nas Associações portuguesas.

Consequentemente, estes espaços ficariam enriquecidos com a presença constante das novas gerações e de novas actividades, que arrastariam os amigos e potencializariam cada vez mais estes magníficos espaços portugueses espalhados pelo mundo.

Para tal, importa que as suas Direcções consciencializem a importância destes contributos, que irão dar continuidade ao contributo notável que têm dado para a concretização de um processo globalizante de interpretações sociais neste meio privilegiado onde se estabelece um diálogo intercultural, alicerçado no fortalecimento dos seus próprios valores culturais.

CONCLUSÃO

Apesar de ser cada vez maior o número de mulheres que recorrem à prática de actividades físicas, com a finalidade de encontrarem o seu bem-estar psicológico, a sociedade portuguesa é ainda hoje impressa de atitudes preconceituosas e de estereótipos de género, que são limitadores de uma prática desportiva feminina mais dinamizada, diversificada e divulgada.

Na Escola, que deve respeitar a pluralidade da cultura que caracteriza o desporto, mas aonde há ainda uma ilusória neutralidade na construção dos géneros, tudo deve ser feito para que a actividade física e o desporto propiciem a auto-estima e a competência, percebida pelos alunos e pelas alunas, de modo a que todos vejam estas práticas corporais como actividades incluídas no seu quotidiano e que devem permanecer ao longo das suas vidas.

Também uma maior cobertura do desporto feminino na comunicação social, que é significativamente inferior à efectuada no desporto masculino, poderá ajudar mudar as ideias estereotipadas relativas ao envolvimento das jovens e das mulheres em práticas desportivas, bem como às ideias inerentes às suas habilidades técnicas e, consequentemente, encorajar mais raparigas e mulheres para o desporto.

Nas Associações, esses espaços de convívio que os portugueses criaram em todo o mundo e que se destinam à sua sobrevivência cultural, são desenvolvidos diferentes tipos de actividades, onde o desporto e o folclore são uma constante.

Se, no desporto, a participação feminina não será significativa, no folclore há paridade de géneros, na medida em que as danças portuguesas que praticam são realizadas aos pares, tal como é caracterizada a dança tradicional portuguesa.

As jovens e as mulheres portuguesas dançam o nosso património cultural, preservando-o e divulgando-o, numa participação espontânea, alegre, activa, motivadora e paritária.


Há certamente muitas jovens que praticam desportos e ao mais elevado nível, como também de outras actividades culturais. Estarão provavelmente distantes da comunidade portuguesa e não utilizam as suas performances para atraírem e motivarem os mais novos para as práticas que dominam. Mas estas jovens podem ser agentes excelentes para as dinamizarem nas Associações portuguesas.

Consequentemente, estes espaços ficariam enriquecidos com a presença constante das novas gerações e de novas actividades, que arrastariam os amigos e potencializariam cada vez mais estes magníficos espaços portugueses espalhados pelo mundo.

Importa que as suas Direcções consciencializem a importância destes contributos, que irão dar continuidade ao contributo notável que têm dado para a concretização de um processo globalizante de interpretações sociais neste meio privilegiado onde se estabelece um diálogo intercultural, alicerçado no fortalecimento dos seus próprios valores culturais.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maria de Lurdes Almeida NOVA EMIGRAÇÃO: A Afirmação da Mulher Luso-Venezuelana

I.- CAUSAS DA EMIGRAÇÃO- DO PASSADO AO PRESENTE

II.- TESTEMUNHOS

III.- IDENTIDADE DA MULHER LUSO-VENEZUELANA

IV.- A ATUAL MULHER LUSO-VENEZUELANA

V.- CONCLUSÃO

VI.- BIBLIOGRAFIA

SÍNTESE

Pretendo com esta breve discriptiva dar a conhecer a transformação da emigração
portuguesa dentro da comunidade venezuelana. As nossas origens, o que passámos
e o que fizemos para desempenhar na atualidade o importante papel de mulher de
trabalho e o reconhecimento de que somos objeto. Já passaram os anos em que nós
ficávamos em casa. Hoje em dia desempenhamo-nos no mundo político, económico,
social e cultural num ambiente competitivo, o qual cada dia mais nos demanda
esforços para continuar a crescer como individuos duma sociedade multifacetada e
exigente.

I.- CAUSAS DA EMIGRAÇÃO- DO PASSADO AO PRESENTE

Não se pode falar da nova emigração sem rever a sua história para assim poder melhor
compreender as mudanças que ao longo do tempo têm vindo a suceder. Por isso
é importante saber os motivos que levaram no passado o povo português a buscar
novos horizontes. Razões várias, dos tempos mais remotos à actualidade, justificam
este fenómeno. Devemos assinalar a falta dos meios de subsistência responsáveis
pelo "êxodo" de emigrantes isolados e de famílias inteiras, hoje radicadas nos diversos países de imigração. É também importante assinalar as circunstâncias de natureza política que as determinaram associadas a perseguições desta natureza, à falta de liberdade expressão, à guerra nas antigas colónias e às práticas sociais dominantes que levaram à fuga de muitos jovens, antes ou durante o cumprimento do serviço militar.
A emigração de portugueses sempre esteve presente na sociedade portuguesa cuja
evolução ficou mais forte ao término do século XIX e durante grande parte do século
XX. Todas estas razões são as principais causas da presença da comunidade portuguesa
nos cinco continentes. Inicialmente partiam os homens, para criarem depois as
condições necessárias para a família se juntarem a eles. Isto trouxe como consequência a separação de famílias, ficando a mulher a cumprir as funções de pai e mãe ao mesmo tempo. O emigrante português, no seu perfil mais clássico , partia para outro país para angariar dinheiro para o futuro, pretendendo sempre regressar a Portugal uma vez cumprida a sua tarefa.No entanto, algumas nunca voltariam a ver o homem que procreou os filhos e estes nunca mais voltariam a ver o pai biológico.
Sendo que estas primeiras emigrações eram provenientes na sua maioria de zonas
rurais, numa época em que o ensino superior era mais para aqueles de um estatus
social elevado, é fácil de perceber que a escolaridade dos que emigravam era pouca
ou nenhuma.Assim que o que mais importava era o trabalho árduo, de sol a sol, e
a escolaridade no país de acolhimento passava a um segundo plano. Até à década
de oitenta/noventa o emigrante abdicava de uma vida com dignidade no país de
acolhimento, para a ter no seu país de origem , mesmo que não usufruísse desse bem
– estar. A qualidade de vida , habitação, mobiliário, gastos com os tempos livres era
reduzida ao mais elementar .
A família portuguesa tendeu sempre a acentuar o aspecto da identidade, colocando
de lado qualquer apelo de integração, pois este era entendido e sentido como uma
ameaça à sua identidade. Os emigrantes portugueses procuraram sempre manter uma
unidade cultural , que os impediu de integrar as sociedades onde se inseriam, mantendo sempre a esperança e o desejo de regressarem ao seu país de origem. No entanto, “a dinâmica de uma sociedade multicultural e intercultural assenta, por um lado, na cultura da autonomia, por outro, na obrigatoriedade da participação e o emigrante português, fixado na ideia de regresso, sentia pouca vontade de participar e integrar a nova comunidade.”
Gradualmente, este tipo de emigração sofreu alterações. Se o projecto primeiro era
angariar o máximo de dinheiro no mínimo de tempo, para poder regressar, cedo a
família deu-se conta que esse projecto económico não era realizável no espaço de tempo sonhado e, prolongando-se, entrava em conflito com outros objectivos importantes da família.- A formação escolar das crianças exigia o adiamento do regresso e obrigava a uma certa integração de facto, em conflito com a ideia do regresso.- A redistribuição de papéis na família, muitas vezes de forma pouco fiel à tradição, começava a afirmar-se à medida que as mulheres encontravam formas de trabalho remunerado.

II.- TESTEMUNHOS

1.-A costura é a minha paixão desde pequena

A 3 de Janeiro de 1956 nasce Maria do Rosário Abreu de Freitas, no Porto da Cruz,
Madeira.Com apenas 2 anos de idade, partiria a bordo do navio Santa Maria,
acompanhada pela mãe e pelo irmão mais velho (Manuel), com destino à Venezuela,
país onde o pai já vivia há um ano. Terra nova, vida nova
“A minha mãe conta sempre que quando chegámos à Venezuela, o meu pai perguntou
se ela queria uma ‘malta’, e ela pensou que se tratava de uma multidão de pessoas e não compreendia bem o que é que ele lhe queria dar, até que lhe explicou que se tratava de uma bebida semelhante a um refresco”, conta Abreu, entre risos.
Viveram em Flores de Catia, no edifício Diamante, “e ali conheci a minha melhor
amiga de criança e com quem ainda mantenho contacto constante, Fátima dos Reis, e
também ali nasceu a minha irmã Maria Dolores.”
Depois foram viver para San José, onde nasceram mais duas irmãs, a quarta e a quinta,
Maria de Fátima e Margarita Matilde. “No ano seguinte, mudámo-nos três vezes. De
San José fomos para a estrada velha de La Guaira, El Cementerio e depois para San
Agustín. Ali nasceram mais dois irmãos, Juan António e José Luís”, conta Abreu.
Passados uns anos, o seu pai decidiu comprar uma casa em El Junquito, na urbanização
Luís Hurtado, onde nasceram os três últimos irmãos de Abreu: Ana Isabel, Joaquín
Miguel e María Mercedes. “Mudámo-nos no ano do terramoto, em 1967; recordo-me
que eram 8 da noite e estávamos a ver o Miss Venezuela quando começou tudo a
mexer”,recorda.

Entre a família e a moda

Rosário Abreu ajudava a sua mãe a cuidar dos 9 irmãos e nos seus tempos livres
inventava vestidos para as bonecas e até para os seus irmãos. “Recordo-me que tinha
uma boneca que se chamava Rosa/Luís, era como ter dois em um, porque quando fazia
roupa de menina, chamava-a Rosa e quando a vestia com roupa de rapaz era Luís. Fazia
sempre muitos trajes com os pedaços de tecido que a minha mãe deixava”, conta Abreu.
Aos 15 anos, pediu uma máquina de costura. “O meu pai sabia que eu gostava de
costura e que o fazia muito bem, e assim, aos 15 anos, ofereceu-me uma máquina. “Para
mim foi o máximo”. Dias depois, viu no jornal que estavam abertas inscrições para o
Instituto de Superação, para um curso de corte e confecção que se fazia por
correspondência, ministrado a partir de Nova Iorque. Tirou o curso num ano e com
apenas 16 primaveras, Abreu começou a trabalhar numa fábrica e aos poucos foi
adquirindo as suas próprias clientes. “Lembro-me que fiz um vestido de primeira
comunhão azul com chapéu e tudo”.
Em Setembro, conheceu o marido, Manuel Correia Gonçalves Pereira, nascido em
Campanário, Madeira, e em Dezembro do ano seguinte casaram-se. “Ele era o dono
dum supermercado no quilómetro 12 de El Junquito e foi levar uma encomenda a casa.
Depois de conhecer-me, pediu a minha mão passados 15 dias”. Tem quatro filhos:
Manuel, Juan David, Nahir Olinda e Jeysell Daniela; e cinco netos.
“Há 13 anos, Bernadete Sousa Pires, que tinha montado uma loja no Centro Vista,
precisaram de uma modista. Trabalhei ali 10 anos. Aprendi muito, ganhei experiência e
clientes”.
Há três anos, tornou-se independente e montou o seu próprio atelier no centro
Comercial El Castillo, no quilómetro 13 de El Junquito. “Ali tive o prazer de fazer o
vestido de Dayana Mendes, primeira finalista do Centro Português há dois anos”.
Refere que é a modista e designer de muitos dos trajes usados pelas senhoras das
comunidades portuguesa, italiana e árabe.
Um ano depois de ter aberto o seu próprio atelier, o marido morreu. “Infelizmente
enviuvei mas sempre lutei com a minha família e apesar das adversidades, mantivemo-
nos unidos.” Desde criança Maria do Rosário Abreu sente que Deus sempre a ajudou e
a abençoou ao longo da sua vida, assim como à sua família. “Graças a Deus por tudo o
que me deu”.

2.-Madeirense de nascimento, Portuguesenha de coração

A cultura e as tradições portuguesas ganham vida todos os dias nestas terras
venezuelanas e Maria da Câmara Araújo é uma digna representante disso. Proveniente
do sítio do Ribeiro Loiro, freguesia de Santa Cruz, Madeira, esta lusitana já está no
país há 37 anos, depois de aterrar na Venezuela em Agosto de 1974.Quando chegou
a Maiquetía, já trazia consigo os dois primeiros filhos, da sua união com Florentino
das Neves Rodrigues. Ainda nasceriam mais dois, mas infelizmente a mais velha viria
a falecer anos mais tarde em terras lusas.Como a maioria das mulheres madeirenses,
Maria, a mais velha de seis irmãos, foi criada entre a agricultura, as tarefas de casa e a necessidade de conseguir algum dinheiro para o seu sustento. Também trabalharia como bordadeira desde muito pequena.O marido, Florentino, saiu de África e rumou à Venezuela dois meses mais tarde. Seis anos depois, mandou buscar a mulher. Ela ainda recorda a sua primeira casa com telhado de zinco na cidade de Acarigua e o seu trabalho como ajudante do marido na limpeza do negócio e no trabalho em casa. No
início angustiou-se muito pelas diferenças culturais: Um idioma novo e uma comida à
qual não estava habituada. No entanto, em breve viria o maior golpe, quando o marido
perdeu o negócio. Mas os tempos melhoraram. Ao acostumar-se ao tipo de vida e
amoldar-se aos costumes crioulos, Maria decidiu mostrar à comunidade tudo o que tinha
aprendido na sua infância e juventude, ao ponto de ser famosa na sua localidade pelos
seus saborosos bolos do caco. E não é para menos: Chegou ao ponto de partilhar os seus segredos de cozinha e ensinar aos habitantes da zona para que aprendessem a elaborá-los.

Uma das coisas pela qual também é famosa na sua zona é pela cura do mau-olhado.
E Maria ainda tem tempo para bordar e deixar aos netos algumas recordações.Maria
vive orgulhosa por ter conseguido inculcar as raízes lusas nos seus filhos. Participou em peças de teatro com a história da Virgem de Fátima, cantou em grupos folclóricos e reviveu a sua infância em três visitas a Portugal.Para Câmara, viver em Acarigua é como estar na sua terra natal: Ainda que tenha bons amigos venezuelanos, por coincidência todos os vizinhos são portugueses. E ainda que as visitas ao seu país de origem não tenham sido frequentes, esta mulher faz o impossível por ser uma
portuguesa em terras crioulas.
Como dado curioso, Maria conta que o apelido Câmara vem da sua avó, nascida em
1882 e abandonada num cesto de vimes à porta de uma mercearia. Um homem que
passou por lá recolheu-a e decidiu levá-la à Câmara Municipal, onde lhe colocaram o
nome de Maria da Câmara. Para além de ter o mesmo nome que ela, também conserva
uma colcha que lhe pertencia e da qual cuida com especial carinho.!

3.-As flores fazem-me feliz

Nascida a 13 de Janeiro de 1949 no sítio dos Picos, nos Prazeres, Calheta, e criada na Ponta do Pargo, no mesmo concelho, Maria Irene Rodrigues é uma mulher trabalhadora
que desperta todos os dias com o propósito de ser feliz fazendo o que mais gosta: Estar rodeada das plantas mais belas, as do seu viveiro.
É a mais velha de seis irmãos e a que durante muito tempo velou por eles e pela sua
mãe, Maria José Abreu, natural da Ribeira Brava, já que o pai, Manuel Rodrigues,
oriundo dos Prazeres, tinha vindo para a Venezuela em busca de uma melhor vida para a
família.
“Muitas vezes não podia ir à escola porque tinha de cuidar da minha mãe quando
ela ficava doente. Era eu que muitas vezes levava as rédeas da casa”, recorda com
nostalgia, clarificando que tanto ela como os seus irmãos, terminaram a primária.
A pouco e pouco, a sua família foi vindo para a Venezuela. A mãe, ajudando um dos
irmãos a fugir da tropa, trouxe-o para a Venezuela, e aqui ficaram todos. “A minha mãe decidiu não voltar à ilha porque na Venezuela conseguiu mais oportunidades para ter trabalho, e passado um tempo mandava dinheiro para as minhas irmãs e para mim”,
conta Rodrigues.
Ficou na Madeira sozinha com duas irmãs aos 16 anos de idade. “Graças a João
Rosário, da Ponta do Pargo, nós tivemos uma casinha onde viver durante um ano,
depois de a minha mãe ter vindo embora e nós termos ficado as três sós. Ele emprestou-nos um quarto com cozinha onde vivemos até que nos mandaram buscar”, recorda Maria Irene, acrescentando que a carta de chamada era para ela e para outra das suas irmãs, já que a mais nova devia ficar sozinha na ilha, ao que Rodrigues respondeu: “Ou vamos as três ou não vai nenhuma”. Foi assim que chegaram as três à Venezuela, no navio Henrique C.

Nova terra, novos sonhos

Ao chegar à Venezuela, em 1968, começou a trabalhar a terra junto com os seus pais
num terreno situado em El Hatillo. “Ajudava-os a colher as verduras”, recorda. Uma
emigrante portuguesa chamada Virgínia e oriunda da Calheta ajudou-a a conseguir
trabalho, e colocou-a imediatamente num casa de família, e nessa mesma noite, com
apenas 19 anos, foi viver para o local onde trabalhou durante um ano. Passado esse
tempo, regressou à família e trabalhou em El Hatillo durante mais seis meses na terra, cuidando das hortaliças.
Depois, apareceu na sua vida Alberto Rodrigues, natural dos Canhas, com quem
está casada há 42 anos e de quem tem dois filhos: Carlos Alberto e Maria Isavette
Rodrigues. Tiveram uma padaria durante sete anos, mas a sua verdadeira paixão eram as
flores, pelo que abriram o viveiro Los Nietos, na Cortada El Guayabo.
O filho também trabalha no viveiro e ajuda os pais no negócio. A filha, que estudou
Informática, também passa ali os fins-de-semana. “Adoro quando os meus netos vêm e
desfrutam dia e noite em contacto com a terra, com as plantas”, confessou Rodrigues.
“Adoro ‘inventar’ no viveiro, o melhor que faço é conseguir obter várias cores nas
jarras e nos lírios, isso faz-me imensamente feliz”, e confessa que as suas favoritas são as jarras Rabinho de Porco.
Rodrigues diz que ter um viveiro é trabalhoso, “há que regar, alimentar, plantar, atender, mas adoro tudo o que faço.”
O que mais sente falta da Madeira são os noivos, e entre risos, Rodrigues confessa
que “foi o mais bonito, os melhores momentos.”
Após 37 anos, voltou à Madeira, “a ilha está muito mudada, muito bela, mas sinto que
já não me dou lá.” O seu local favorito continua a ser a Ponta do Pargo, “as pessoas têm mais calor, são mais próximas que no resto da ilha. Fiz ali toda a minha vida, os meus sacramentos, a escola, tudo.”
Apesar de ter passado maus momentos, os bons foram mais, e fizeram de Maria Irene
Rodrigues a mulher forte e trabalhadora de 62 anos que é hoje em dia.!

4.-Ana Pereira de Almeida-Chegou sem nada nos bolsos, mas os seusconhecimentos
na costura permitiram-lhe progredir
Quem a conhece identifica-a pela sua cabeleira totalmente branca e o seu bom
humor, perante qualquer situação.Essa cabeleira é o reflexo de anos de esforço e essa
simpatia foi-se forjando perante as adversidades. Ana Pereira de Almeida nasceu em
Oliveira de Azeméis (distrito de Aveiro) a 29 de Agosto de 1927. Os seus pais, José da Costa Almeida, era ferreiro. A sua mãe, Maria Pereira da Silva, vendia tecidos nos
mercados (feiras). Ambos trabalharam intensamente para fazer face às necessidades
básicas de Ana e das suas irmãs, Maria da Conceição e Amélia, num Portugal onde a
situação económica piorava a cada dia que passava. Aos 16 anos, conheceu António
Soares de Oliveira Maurício, que a pouco e pouco a foi conquistando com as suas
atitudes de cavalheiro e as suas picardias. Depois de vários encontros na Câmara
Municipal de Oliveira de Azeméis, lugar onde António trabalhava, decidiram casar-se.
Perante a ditadura de Salazar e a difícil situação do país, decidiram começar de zero e emigrar, indo em busca de novos horizontes. Foi então que apanharam o navio
Francisco Morocini em Lisboa, com destino à Venezuela. Depois de um mês de
navegação, chegaram ao mar venezuelano a 12 de Abril de 1952. No entanto,por ser
Semana Santa, permaneceram em alto mar durante três dias.Uma vez em terra
firme,dirigiram-se a Propatria, lugar onde um velho amigo lhes arrendou uma casa. Essa casa converteu-se logo numa oficina de sapatos: Ana e António dedicaram-se à costura de sapatos. Com o passar dos meses e a aparição de novas oportunidades, António começaria a trabalhar para a Cervejaria Caracas como vendedor e Ana para duas
prestigiosas marcas de sapatos. Por essa altura, Ana teve de enfrentar a morte do pai à distância. Em 1955, decidem arrendar uma nova casa em Puente Hierro. Ali, a vida lhes daria uma bonita surpresa e receberama sua primeira filha no dia 7 de Outubro: Ana Maria. Oito anos depois, trariam ao mundo a sua segunda flor, a 24 de Fevereiro de
1963: Marisol. O tempo continuou a conspirar a favor do casal e deu-lhes a
oportunidade de comprar um apartamento no município Chacao em 1965. Ana
continuaria com o seu ofício de costura de sapatos e António passaria por diferentes
ofícios: Venda de licores,venda de câmaras fotográficas num local próprio e até
vendedor de seguros. Ana recorda com tristeza o ano de 1978 quando teve de viajar até
Portugal pois o estado de saúde da sua mãe era cada vez mais delicado. Nesses meses,
esteve longe da filha,que fazia 15 anos, e esta teve de celebrar sozinha com o pai. Em breve regressaria à Venezuela, com o pressentimento de que meses mais tarde seria
confrontada com a morte da mãe.A sua perda mais valiosa foi em Fevereiro de 2006,
quando António, o seu eterno companheiro de vida, fechou os olhos de forma
inesperada. No entanto, Ana Pereira enfrentou a situação agarrando-se intensamente aos seus filhos e aos seus três netos. Atualmente Ana tem 82 anos mas assegura sentir-se com 28. Sente-se bastante orgulhosa de ter suado bastante para dar um futuro às suas filhas.Sem lugar para dúvidas, Ana Pereira considera-se uma“venezuelana de coração”.
E neste país fazem falta pessoas como ela para preencher de alegria e trabalho honesto.

5.- Aqui tenho tudo e não saio

Maria do Carmo Pimentel é de São Miguel, Açores, e emigrou para a Venezuela há mais
de 50 anos, para estar com o marido e dar aos filhos uma melhor qualidade de vida.
Esta açoriana conta que se casou em Portugal, mas por insistência do marido em querer
tentar um futuro melhor fora do seu país de origem, viajou para a Venezuela, onde já
tinha família, e iniciou uma nova etapa da sua vida. “Casei-me com 22 anos e passado
pouco tempo, o meu marido veio para este país. Fiquei grávida e passado quase um ano,
enviou-me uma carta de chamada para que viesse”, recorda.
Durante o tempo em que esteve sozinha, Maria do Carmo dedicou-se aos trabalhos da
casa e a cuidar da sua filha primogénita, Carmélia. Passados nove meses, esta açoriana embarcou no ‘Santa Maria’, em 1959, e rumou a terras de Bolívar.
“Quando cheguei para encontrar-me com o meu marido, fiquei surpreendida pela
beleza de La Guaira. E estava ansiosa por estar com ele e mostrar-lhe a nossa primeira filha”, recorda Maria.
Uma vez em solo crioulo, Maria do Carmo começou a trabalhar na costura, em casa, ao
mesmo tempo que cuidava dos filhos. “Sabia costurar e procurei clientes para fazer todo o tipo de arranjos de roupa e confecção de vestidos”.
O casal teve mais três filhas para além de Carmélia. “Tivemos um casamento unido e
trabalhámos para dar tudo o que os nossos descendentes precisavam”, acrescenta.
Esta emigrante açoriana conta ainda que já foi à sua terra em duas oportunidades, para visitar uma das filhas, que vive em Portugal. “Cada vez que chego lá, tenho sentimentos recorrentes, mas é agradável, é uma sensação indescritível”, assinalou, manifestando que
Portugal é a sua terra mas que a Venezuela é o país onde se desenvolveu como pessoa.
Talvez por isso, Maria do Carmo diz que não troca a Venezuela, porque “aqui tenho
tudo, e não saio”. Esta lusa espera poder continuar a visitar a sua ilha e apreciar a
evolução do seu país ao longo dos anos. “O meu coração é português e venezuelano
porque tenho em ambos os países coisas valiosas e que amo”, concluiu Maria do Carmo.!

III.- IDENTIDADE DA MULHER LUSO-VENEZUELANA

Inserir numa sociedade cujos valores políticos, culturais, sociais e económicos diferem daqueles do país de origem , juntamente com o problema linguístico, é a principal problemática de qualquer comunidade emigrante. Os filhos de portugueses eram dos grupos menos representados no ensino secundário e nas universidades até meados do século XX. Portugal, ainda estava sob um regime ditatorial fascista e apresentava traços duma sociedade agrária, atrasada e subdesenvolvida. Para se entender a situação da mulher portuguesa devemos assinalar que “esta era encarada como célula social básica de reprodução da ordem e das tradições culturais.”A maior parte do trabalho assalariado era reservado aos homens, principalmente as atividades liberais e as realizadas em órgãos públicos, cabendo às mulheres o trabalho de baixa qualificação e remuneração.
A mão-de-obra feminina era composta basicamente por mulheres provenientes das
classes mais baixas e estas dedicavam-se principalmente às atividades rurais e, nas
zonas urbanas, ao trabalho como empregadas domésticas ou em pequenas lojas.
A perda da identidade portuguesa pode, e em efeito acontece em muitos casos, na
segunda geração entre os filhos que conseguem atingir o ensino superior. As mulheres
que atingem o ensino superior têm mais probabilidades de inserirem na sociedade do
país de acolhimento.
Estudos realizados assinalam duas vertentes nas razões que levaram a mulher a trabalhar fora de casa:
1.- A precária condição financeira da família de origem assim como a precária condição
económica da família constituída depois do casamento. Nestes casos a mulher não
continuou os seus estudos secundários.
2.- As mulheres de famílias com boas condições económicas ou de famílias com
bom nível educacional atingiram o ensino superior e exercem funções na docencia,
administração pública, meios de imprensa, etc.
Através de testemunhos podemos constatar que a educação familiar teve um peso
significativo na formação e na vida das mulheres de origem portuguesa, tendo muitas
delas relatado que os pais eram severos e austeros, ensinando principalmente os
costumes da sociedade portuguesa. Relatam que tiveram uma educação diferenciada
em comparação aos irmãos, pois, não gozando de nenhuma liberdade, deveriam ser
acompanhadas sempre que saíam de casa, seja pela mãe ou por um irmão. Os pais
controlavam bem de perto a sua vida até ao casamento, para entregar a filha "intacta" ao futuro marido.
No entanto, as mulheres da segunda geração, que atingiram um nível educativo
superior, são pessoas na maioria das vezes com uma identidade ambígua. Conhecem
bem os padrões da pátria dos seus pais, não partilham a sua rigidez, mas gostam
dos seus hábitos alimentares e das reuniões familiares aos domingos e nos dias de
festa. No entanto, já não conseguem ter grande fluência na língua dos pais, limitando
o seu vocabulário ao indispensável para a comunicação doméstica. Isto traz como
consequência que seja mais fácil expressarem-se na língua do país onde vivem e muitas
vezes já nem se identificam como portuguesas.

IV.- A ATUAL MULHER LUSO-VENEZUELANA

Em Março de 2011, com motivo do Dia Internacional da Mulher, um jornal local, O
Correio de Venezuela, falou de várias mulheres na diáspora luso-venezuelana e que me
parece muito ilustrativo para demonstrar a reafirmação da mulher luso-venezuelana.

1.- Sociedade de Beneficência de Da-mas Portuguesas:

Actualmente, a responsável pela liderança das damas lu-sitanas é Mary Monteiro,
que, com o seu temperamento e a sua paixão pelo trabalho social, tem feito importantes contributos em benefício dos mais necessitados. No entanto, não está só: É acompanhada por Teresa de Fernandes, María Fa-tima Pita, Mari Cova, Luz Da Silva
Branco, Maria Eugenia de Freitas, Maria José Vieira.
A Sociedade de Beneficência de Damas Portuguesas ajuda tam-bém instituições
venezuelanas como a Avepane, Hospital de Crianças J.M. de Los Ríos, Asocirpla,
Fundana, Fundação Padre Pio, entre outras. Para além disso, faz donativos per-manentes a algumas famílias e ajuda algumas pessoas em pro-cessos cirúrgicos e doenças.
Outro importante trabalho le-vado a cabo pelas Damas Por-tuguesas é a administração
do Lar Padre Joaquim Ferreira. Neste caso, as pessoas encarre-gues de dirigir a
instituição são Maria Inocência da Silva, Vera Natália Bastos, Maria Rosa Martins,
Crisanta Campos, Manuela Rodrigues, Maria José Abreu, Maria Augusta da Silva,
Natália Rodrigues, Ma-ria Fernanda Moreira, Alda de Sousa e Jeanethe Sousa.

2.- Academias da Espetada

Foi no ano 2003 que Noemi Coelho, acompanhada por um gru-po de mulheres
habitantes de Maracay, estado Aragua, organizou a primeira Acade-mia da Espetada
na região. A ideia era simples: Fazer um jantar mensal onde um grupo de mulheres
comessem espe-tada e angariassem dinheiro que se destinaria a obras de beneficência.
Actualmente, a academia estende-se a Caracas e Barquisimeto. É ainda espe-rada a
criação de uma terceira filial no estado Carabobo.
A Academia da Espetada de Maracay organiza tertúlias de beneficência há oito anos.
A actual presidente, Ana Maria Abreu, conta com o apoio de Fátima Fernandes
de Pestana, Adriangela Goncalves, Fátima Soares, Ana María de Vera-cruz, María
Helena de Vera-cruz, Salomé de da Silva, Ma-ría Graca de Canha, Micaela Varguem,
Coicencao Figueira, Elisabety de Abreu, María José Goncalves, Jovita Da Silva y
Manuela Fernandes.
A Academia da Espetada de Ca-racas foi criada a 18 de Maio de 2009. Conta com
a orientação de Sílvia Henriques, acompan-hada por Maria Couto, Móni-ca da Silva,
Elsa Abreu, Maria Odília Rodrigues, Maria Luísa Nunes, Maria José Farias e Ana de
Castro, e mais de 100 mul-heres reúnem-se mensalmente em diferentes restaurantes e
salões de banquetes da capital.
Meses mais tarde, a 19 de Outubro de 2009, Trinidad Macedo teria a ideia de orga-
nizar a Academia da Espetada em Barquisimeto, estado Lara, onde, junto com Maria
Matias, Fátima Macedo, Maria Mestre, Irene Ferrão, Conceição de Sousa, Teresa da
Silva, Janeth Farias e Eleonara Soares, já realizaram 15 encontros.

3.- Alcaldesa Municipio El Hatillo

Myriam do Nascimento. Licenciada em Publicidade e Marketing, e com cursos em
áreas como Gestão e Legislação Municipal, Administração Tri-butária, Participação
Cidadã e Controlo de Gestão, trabal-hou durante 25 anos no sector público.

4.- Assambleia da República

Deputada do partido do poder Desireé Santos Amaral: Licenciada em Jornalismo
e defensora acérri-ma dos direitos individuais, passou das páginas dos jornais aos
meandros da Assembleia Nacional venezuelana

5.- Conselheiras Das Comunidades Portuguesas

a.- Lic. Maria de Lurdes De Almeida- professora de línguas, magister em planificação
educativa, condecorada em várias oportunidades pelo seu desempenho laboral dentro e
fora da comunidade.
b.- Estela Lúcio- presidente da Associação dos Filhos de São Vicente, empresária.

6.- Executiva na área farmacéutica

Noreles Mendonça Mendes- luso-descendente iniciou o curso de Farmácia na
Universidade Central de Venezuela. Em 2002, saiu já licenciada, com especialização em
Análise de Medicamentos. Posteriormente, fez uma pós-graduação também na UCV,
juntando ao seu currículo uma especialização em marketing de empresas. Começou a
trabalhar de imediato numa farmácia, para depois integrar a equipa de profissionais de um laboratório nacional. Mas também se manteve durante pouco tempo, pois, passado
menos de um ano, assinou um contrato para trabalhar na Sanofi–Synthélabo. Isto foi
em 2004, e até à data, trabalha nesta empresa farmacêutica, que hoje em dia se chama
Sanofi-Aventis.

6.- ARTES E ESPECTÁCULOS

a.- Marlene de Andrade: Esta modelo e ac-triz luso-venezuelana, depois de passar
pelo Miss Venezuela 1997, iniciou uma carreira como modelo em diferentes países. No
regresso à Venezuela, foi escolhida para encarnar ‘Pipina’ na no-vela ‘Carita pintada’.
Daí seria sempre a subir, participando noutras produções como ‘Mis tres hermanas’, ‘La soberana’, ‘Trapos íntimos’, ‘Mujer con pantalo-nes’, ‘Arroz con leche’, ‘La vida
entera’ e ‘La Mujer Perfecta’. Isto sem contar com o papel no filme ‘La señora de
Cárde-nas’ e ainda as fotografias como ‘Chica Polar’.
b.-Marjorie de Sousa: Esta actriz começou a sua carreira artística aos 12 anos em
alguns comerciais para televisão. É em 1999, depois da passagem pelo Miss Venezuela,
que inicia a sua carreira como actriz de televisão, nas teleno-velas ‘Amantes de Luna
Llena’, ‘Guerra de Mujeres’, ‘Gata salvaje’, ‘Mariana de la noche’, ‘Rebeca’, ‘Ser
bonita no basta’, ‘Y los declaro marido y mujer’, ‘Amor Comprado’, ‘¿Vieja
yo?’, ‘Pecadora’ e ‘Sacrificio de Mujer’. Destaca-se tam-bém o seu desempenho como
modelo para marcas conhecidas como a Polar e a Pepsi Cola.
c.-Myriam Abreu: A jovem actriz luso-des-cendente saltou para a fama depois de
participar no certame de beleza mais importante do país, onde representou o estado de
Miranda. Desde então, a sua carreira começaria a desenvolver-se com participações
no talk show ‘Cásate y Verás’ e na série juvenil ‘Túkiti’. Mais à frente, interpretaria personagens nas telenovelas ‘La Trepadora’, ‘Necesito una amiga’ e ‘Libres como el Viento’.
d.-Aileen Celeste: Esta luso-descendente começou a sua carreira no ‘El club de
los tigritos’ e como animadora de ‘Toda acción’. Posteriormente, iniciaria a sua
carreira de actriz com as telenovelas ‘Jugando a ganar’ e ‘Calipso’. Depois de seis
meses a trabalhar como modelo no México, regressaria à Venezuela para participar
nas telenovelas ‘La niña de mis ojos’, ‘Mi gorda bella’, ‘La Cuaima’, ‘Natalia de 8
a 9’, ‘Mujer con pantalo-nes’, ‘Por todo lo alto’ e ‘Nadie me dirá como quererte’.
Isto sem contar com a sua aparição nos comerciais da Chi-notto, Coca-cola, Wella e
Biotherm.
e.-Laura Vieira: É comunicadora social, tendo estudado na Universidade Ca-tólica
Andrés Bello (UCAB) na área de Jornalismo Audiovisual. Também se licenciou em
Administração. De su-blinhar que depois de ter sido avaliada pela sua tese universitária,obteve o segundo lugar do prémio Eduardo Frías e uma bolsa para estudar no exterior, assim viu a publicação de grande par-te do seu trabalho. O profissionalismo desta luso-descendente foi observado por milhares de espectadores em ‘El Informador’, ‘Sálvese Quien Pueda’ e na apresentação de programas como o Miss Mundo e Miss Universo.
f.-Catherine Correia: Com apenas 9 anos de idade, esta actriz iniciou a formação
ar-tística ao estrear-se nos palcos com ‘El Libro de la Selva’. Aos 19 anos, começou
os estudos de Filosofia na Universidade Católica Andrés Bello, ainda que não
tenha podido continuar devido a diver-sos compromissos artísticos. Quatro anos
depois, participou em três obras consecutivas: ‘Buster Reatón’, ‘Subma-rino
Amarillo’, ‘Cuentos de Sábado’ e ‘Yerma’. Em 1993, começaria a sua fama ao animar
o ‘Club Disney’ na RCTV e com a participação nas telenovelas ‘El Desafío’, ‘Entrega
Total’, ‘Llovizna’, ‘Cambio de Piel’, ‘Aunque me cueste la Vida’, ‘Carita
Pintada’, ‘Viva la pepa’ e ‘La Cuaima’.
g.-Flor Helena Gonzalez: Iniciou a sua carrei-ra aos 10 anos de idade no
espectáculo ‘Domingos con Popy’. Tempos depois, iniciou a formação em
representação e participou nas telenovelas ‘María Sole-dad’, ‘Por estas calles’, ‘La
Dueña’, ‘Doña Perfecta’, ‘El Hombre de hierro’, ‘Amo-res de fin de siglo’, ‘Cambio de
piel’, ‘Mis tres hermanas’, ‘La Soberana’, ‘Juana, la Virgen’ e ‘La Cuaima’.
h.-Vanessa Gonçalves: Nasceu a 10 de Feve-reiro de 1986 e fez vibrar a comunidade
lusitana a 28 de Outubro do ano pas-sado, ao ser coroada como a primeira Miss
Venezuela de origem portuguesa. Estudou na faculdade de Odontologia da
Universidade Santa Maria, e no seu primeiro ano de reinado, Vanessa tem participado
em diversos programas televisivos nacionais e internacionais, convertendo-se numa das
figuras do ano no mundo.

V.- CONCLUSÃO

Se bem é certo que nos principios da emigração portuguesa, no que refere à Venezuela,
observamos a típica emigração da mala de cartão, a saudade do país que deixaram
atrás e da família que não voltariam a ver senão depois de muitos anos, não é menos
certo que esta emigração logrou inserir na comunidade venezuelana e traspassar as
barreiras culturais e linguísticas que num principio llhes parecia quase impossível.
Os portugueses estão hoje perfeitamente integrados na cultura, na sociedade e na vida económica venezuelana. No entanto também observamos que as novas gerações estão a afastar-se das raízes portuguesas. É por isto que Portugal deve reforçar a relação ibero-americana, a qual deve passar pelo fortalecimento nas áreas política e económica, mas também pelas áreas educativa e cultural. Não podemos perder de vista que o multiculturismo e a globalização são fenómenos crescentes e irreversíveis.

VI.- BIBLIOGRAFIA

.- Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales- Universidad de
Barcelona. Nº 94 (30) 1 de agosto de 2001. Prof. Dr. Jorge Carvalho Arroteia-
Universidade de Aveiro
.- RTP- Ei-los que partem- A História da Emigração Portuguesa-Serie

Documental
.- Memórias da Emigração Portuguesa- Porque emigram os Portugueses-
Carlos Fontes
.- Jornal Correio de Venezuela
.- Os Portugueses na Venezuela- -Nancy Gomez- 2010
.- Cadernos Ceru- História da Mulher Migrante
.- Imaginário.- Junho 2007- ISSN 1413-666X