terça-feira, 13 de novembro de 2012

CUSTÓDIA DOMINGUES JORNALISMO FEMININO NE DIÁSPORA

O jornalismo feminino da Diáspora
O caso de França: a afirmação de uma autonomia

Custódia Domingues
Maia - Novembro 2011

Resumo

Em primeiro lugar permitam - me dizer o quanto dou valor a esta iniciativa
da associação “Mulher Migrante”. Considero que é um trabalho marcante
o que tem sido e está a ser feito por esta associação, em prol das
mulheres das comunidades portuguesas. O contributo que tem dado para
permitir uma maior visibilidade e um conhecimento real da história destas
mulheres ficará para o futuro.

Introdução

A evolução das comunidades portuguesas, e em particular as mulheres,
conheceu várias idades, desde os anos mais longínquos da emigração –
com carácter legal ou não – e da chegada aos países que as receberam até
aos dias de hoje. Este trabalho vai centrar-se no caso de França como país
de acolhimento, pois não é possível tratar o tema sem o limitar em termos
geográficos.

Caracterização

Para memória: na altura da Segunda Guerra Mundial, o número de
portugueses em França era cerca de 22 mil. (1)

A partir das décadas seguintes, é possível caracterizar melhor a emigração
portuguesa em França:

- Final dos anos 50 até 1974: A idade da emigração como procura da
sobrevivência e de uma vida material mais sólida. Em 1968, contavam-se
cerca de 500 mil portugueses em França. (2)

- Após 1974 até aos anos 90: A idade de uma conquista económica
baseada no trabalho, na procura da estabilidade financeira e na
transmissão de novos valores aos filhos.

(1) Janus 2001 –Estudo sobre a comunidade portuguesa em França
(2) “Le va-et-vient des Portugais en Europe” - revue Projet – 2001

Nos anos 90, as estatísticas francesas falavam de 900 mil a 1 milhão
de portugueses no país, ou até mais.
- Dos anos 90 até hoje: A idade da afirmação de uma autonomia
para a comunidade portuguesa que é igualmente o tempo de uma
segunda e mesmo de uma terceira geração que nasceu, cresceu e se
tornou adulta em território francês.

São os binacionais, ou luso-descendentes, que vivem, em simultâneo, a
riqueza e a complexidade de pertencerem a duas culturas. Em termos
demográficos, é complexo saber o número exato das pessoas nesta
situação, uma vez que o processo de «melting-pot» é pujante e significa
que os padrões de classificação são claramente difusos. De qualquer
modo, embora o ministério português dos Negócios Estrangeiros fale em
cerca de cinco milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados
pelo mundo, este número será possivelmente mais elevado, com algumas
fontes a apontarem para números entre 10 e 15 milhões. Destes,
seguramente, mais de um milhão encontra-se em França.

- Ainda está para chegar, com plena maturidade e sobretudo com
maior visibilidade e reconhecimento a idade do exercício da cidadania.
Uma idade de poder político, poder no mundo dos negócios e poder cívico
com consciência.

É importante, no entanto, referir que algum caminho já foi percorrido e
existem hoje em França cerca de três mil luso-descendentes eleitos para
cargos políticos. Podemos citar os casos de algumas mulheres como Alda
Pereira-Lemaître, presidente da câmara de Noisy-le-Sec entre 2008 e
2010 ou Cristelle de Oliveira, a primeira portuguesa a apresentar-se como
candidata às eleições para o Parlamento Europeu. Existe ainda a CIVICA
- Associação de autarcas portugueses e luso-descendentes em França.
Segundo dados fornecidos por esta instituição, nas eleições municipais
francesas, em 2001, foram eleitos 350 autarcas de origem portuguesa.

As Mulheres da Diáspora em França: da idade da sobrevivência à idade
da autonomia

As mulheres tiveram um papel notório no movimento da emigração, em
particular nos anos 60, quando começaram a juntar-se aos familiares que
já se encontravam no país e a dedicar-se a tarefas pouco qualificadas
como, por exemplo, trabalhos domésticos e funções de «concierges».
Gradualmente, chegaram a um lugar e um espaço próprio: o do respeito

e o da autonomia. As mulheres conquistaram o respeito dos maridos,
dos filhos e da própria sociedade de acolhimento. Foram as grandes
transmissoras de valores no interior da família e fizeram a ponte entre
as duas sociedades. Foram elas que procuraram escolarizar os filhos
e permitiram a comunicação entre as duas culturas através de uma
aproximação e convivência com a sociedade de acolhimento, em
particular por meio das tarefas profissionais que exerciam. Essas mulheres
conquistaram autonomia financeira ao trabalharem tanto como os
maridos e contribuíram para o crescimento das capacidades financeiras
das famílias. Em paralelo, tomaram consciência do seu papel na sociedade
e souberam transmitir à geração seguinte o sentido da cidadania, em
particular através do acesso à educação, caminho para a autonomia.

A chegada das mulheres emigrantes aos media confunde-se com a
história da diáspora.

Porquê, dir-me-ão, a necessidade de descrever, mesmo que em grandes
linhas, a evolução histórica e social da emigração e das mulheres, quando
o que se pretende é caracterizar o papel das mulheres na comunicação
social da diáspora em França?

Porque o caminho é o mesmo.
Porque uma história confunde-se com a outra.

Porque se existem – e existem ainda que em quantidade limitada –, em
2011, mulheres jornalistas binacionais ou luso-descendentes é porque
foi traçado um percurso, o da idade da sobrevivência até à idade da
afirmação da autonomia.
Essa autonomia é, hoje, a de mulheres de segunda ou terceira geração
capazes de viver e trabalhar na sociedade francesa, inclusivamente nos
media, onde continuam a fazer crescer as consciências e o saber.

Os desafios atuais

Mulheres franco-portuguesas nos media franceses

Vamos citar alguns nomes presentes nos media nacionais franceses:

- Helena Morna – TV5
- Dulce Dias – Jornalista freelancer instalada na região de Lyon, que
também trabalha para a redacção portuguesa da Euronews.

A Radio France Internationale é um meio de comunicação francês que
conservou uma redacção de língua portuguesa, após vários meses de
luta por parte dos jornalistas. Salientamos que uma mulher da segunda
geração, Úrsula Soares, dirige a redacção de língua portuguesa para os
países africanos francófonos.

E, porque não referir alguns nomes no masculino?

- Paul Moreira – Trabalhou na RFI e atualmente desenvolve a sua atividade
no conhecido magazine “90 minutes” do Canal Plus
- Jorge Silva – Apresenta uma crónica na TV5 e trabalhou alguns anos no
programa “Encore” com a jornalista de origem espanhola Christine Bravo.

Quando assistimos ao telejornal da TF1 ou da France 2, é já relativamente
frequente, quando citam os repórteres, ouvirem-se nomes com
ressonância portuguesa: Paul Teixeira, Carine Santos, etc.

Mulheres franco-portuguesas nos media da Comunidade Portuguesa

Podem ser igualmente referidas aqui jovens jornalistas, presentes em
meios associativos e que escrevem para media menos conhecidos. São os
casos, por exemplo, de Liliane Saraiva, Stéphanie Ribeiro, Estelle Valente
na revista CapMag ou Carina Branco e Christine Soares da Lusopress TV.

É igualmente relevante citar alguns dos desafios que se colocam hoje às
mulheres da diáspora, apesar do percurso já feito. As mulheres jornalistas
da comunidade portuguesa em França conhecem problemas similares
aos das colegas jornalistas francesas, sendo que como se pode entender
a realidade da imprensa de língua portuguesa em França nada tem a ver
com a realidade do mercado profissional da comunicação e imprensa
francês:

-O nível de responsabilidades nas redacções é inferior ao dos
colegas homens.
- O nível de remuneração é inferior ao dos homens.

Alguns aspetos particulares da imprensa da comunidade portuguesa em
França:

- A precariedade da atividade: Ela é desenvolvida em carácter
de free-lance ou até sem verdadeiro vínculo ou estatuto e em órgãos
de comunicação que por vezes se encontram em situações demasiado
frágeis do ponto de vista económico e que não possuem uma estrutura
suficientemente profissionalizada.
- A escassa credibilidade dos media e da sua robustez financeira.
- A dificuldade em conquistar a geração mais recente de
binacionais/luso-descendentes para trabalharem nos media das
comunidades portuguesas.

Um parêntese curto

Este último aspecto está ligado, globalmente, a uma imagem de
Portugal que perdeu influência nas segundas e terceiras gerações das
comunidades portuguesas, na Europa e fora de Europa.

Se me permitem, no início dos anos 90 vim para Portugal para
dirigir e implementar, em equipa, um projecto que fazia todo o sentido: A
Confederação Mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas -
CMECP, de que fui secretária-geral.

O projeto que surgiu nos anos 90, de forma a implementar uma rede
de influência junto das comunidades portuguesas, estava certo e o timing
era também o certo.

Um projeto empolgante e com muito sentido para quem vive
e conhece a problemática das comunidades portuguesas e a sua
necessidade de se congregar em network, numa rede de influência
empresarial/económica, em particular após a entrada de Portugal na
Comunidade Europeia, em 1986.

Esse projeto, ao qual estive ligada até meados da década de 90, foi
desvirtuado por interesses financeiros e económicos e ficou pelo caminho.
Não serviu os interesses dos empresários da Diáspora, nem, infelizmente,
do país. Mas, o mundo empresarial das Comunidades – para quem o
conhece – continua a existir e com apreciáveis casos de sucessos.

É de lamentar que, perante a crise em que as economias mundiais
e portuguesa se encontram, não ter sido até agora concebido e criado
com seriedade uma verdadeira “Câmara de Comércio das Comunidades
Portuguesas”. Não ouvi até hoje nenhum decisor pensar nesses termos.

Essa sim, bem conduzida e com uma estratégia adequada a realidade
atual, pode dar frutos.

Imprensa online

Os suportes online existem na imprensa de língua portuguesa em França e
permitem a um público mais jovem, e feminino, expressar-se:

Sites:
Três de importância:

-Portugal vivo
- CapMag
-Luso.fr

A blogosfera bilingue
Alguns exemplos

- Fenêtre sur le Portugal
-Portugalmaniac´s
- Oi-campinas
-Aldeia- de-Gralhas.fr
Etc.

Existem luso-franceses e mulheres a trabalharem em jornais, revistas e
rádios das comunidades. Citamos os media mais conhecidos:

- Lusojornal
- Lusopress News
- Encontro
- Portugal Sempre
- Correio Português
- Action Catholique Ouvrière
- Cap Mag
- Vida Lusa
- Rádio Alfa

A este propósito é de referir que existem em França 42 rádios locais com
programas em língua portuguesa, bem como um canal de televisão por
cabo: a Lusopress TV.

Hoje em dia a rádio Alfa é sem dúvida “ la radio des Portugais de France”,

uma rádio com jornalistas profissionais que emite 24 horas por dia na
frequência FM 98.6. É conhecida e ouvida pela comunidade portuguesa e
lusófona em Paris, toda a região parisiense e em França. Existe desde 1987
e é uma referência para a comunidade.

Seria necessário confirmar, via um estudo científico mais aprofundado,
aquilo que nesta fase apurámos através de um levantamento mais
limitado, ou seja a direção dos media acima referidos, por exemplo, ainda
é na sua maioria masculina, com uma excepção, pelo menos segunda
a informação que obtivemos, pois na Lusopress News, é uma mulher a
dirigir a publicação: Lídia Sales.

Breve caracterização histórica dos media da diáspora em França

O jornalismo da comunidade portuguesa em França só começou a dar
mais espaço às mulheres – e elas próprias só começaram a conquistar
mais esse espaço – a partir de finais dos anos 80, princípios dos anos 90
com as chamadas «rádios livres».
Em 1982, o Estado francês emitiu várias licenças de rádio e foi a partir daí
que começou a irromper uma geração de jovens mulheres animadoras
de programas de rádio em toda a França (são os casos dos conhecidos
Radio Club Portugais, Radio Eglantine e Rádio Portugal no Mundo). Este
fenómeno também está ligado à vida associativa, muito intensa em
França: cada organismo criava o seu boletim informativo e o respetivo
espaço de expressão. Hoje, o número de associações que publicam com
regularidade um boletim informativo anda à volta de 30, mas na altura
representavam mais de uma centena.

O jornal «Presença Portuguesa» (1965-1996) foi a publicação que
inicialmente mais marcou a emigração portuguesa em França, pela sua
qualidade e a sua duração no tempo.

A seguir podem- se destacar, pelas suas reportagens e artigos:

- «Publi-Portugal» (anos 80 a 90)

- «Traço-de-União» (1985 – 1992)
- A revista «Peregrinação – des Arts et des Lettres de la diaspora
portugaise» (1983–1990) na qual modestamente publiquei alguns
escritos, também foi um marco na área literária. Existia um espaço para a
escrita feminina e uma expressão mais trabalhada teve oportunidade de

se dar a conhecer nos campos da literatura, teatro e poesia.

- «Luso-jornal» que iniciou a sua atividade em 2004 e que continua
presente no espaço da comunidade portuguesa de França. Trata da
atualidade e também tem um espaço mais dedicado à vida cultural.

Conclusão

O papel das mulheres nos media de expressão portuguesa em França
evoluiu dos anos 70 até ao presente. Passaram do invisível para o visível,
conquistaram um lugar na sociedade e, por consequência, no espaço de
expressão que é a comunicação social.
Tratam temas de atualidade, politica, desporto, economia, literatura
e talvez tenham uma vivência que lhes permite tratar com maior
sensibilidade os temas de cariz social.
As mulheres de segunda e terceira geração estão, na sua grande maioria,
a viver na sociedade de acolhimento que as viu nascer e deram um salto
qualitativo em termos de formação e educação. Da «concierge» passou-
se para mulheres com um currículo universitário e que vivem plenamente
a sua cidadania num mundo global. São cidadãs jornalistas, advogadas,
músicas, empregadas de escritório, administrativas, professoras
universitárias, médicas, etc.
Em 2011, existe ainda um trabalho de informação e comunicação por
fazer em Portugal sobre a evolução das comunidades portuguesas.
Esse trabalho seria, aliás, um motivo de auto-estima para os próprios
portugueses que vivem no território português. Para além de apaziguar
e repor alguma justiça numa imagem das comunidades no exterior que
continua desajustada no tempo, daria trunfos a Portugal.
É que as novas gerações não ficaram paradas no tempo. Souberam evoluir
e de uma primeira geração mais limitada e sacrificada passou-se para uma
terceira geração que está, ainda lentamente mas certamente, a fazer um
caminho de conhecimento da sua identidade e de qualificação do seu
estatuto profissional e cívico.
As mulheres jornalistas da diáspora são umas guerreiras e mensageiras
que continuam a dar voz, visibilidade, expressão e sentido à vivência de
milhões de portugueses espalhados pelo mundo.

.

CV MARIA BENEDICTA VASSALO PEREIRA BASTOS MONTEIRO

Nota Biográfica

Maria Benedicta Vassalo Pereira Bastos Monteiro é natural de Lisboa onde completou os estudos superiores em Filologia Germânica (1964) e em Psicologia (1974). Obteve o grau de Doutor em Psicologia Social na Universidade de Lovaina, na Bélgica (1984), e a Agregação em Psicologia Social no ISCTE (1995), onde é professora catedrática desde 1996.
Desenvolve investigação em diversas áreas da Psicologia Social da Educação e das Relações Interculturais, nomeadamente sobre Efeitos da exposição à TV em comportamentos de agressão, Crenças dos educadores sobre desenvolvimento e educação das crianças, Desenvolvimento e redução do preconceito racial na infância, Discriminação de minorias sociais e acção colectiva e Processos de aculturação de minorias migrantes, sobre os quais apresentou Conferências
e Comunicações em dezenas de Universidades e publicou livros, capítulos de livros e artigos científicos em Editoras e Revistas portuguesas e estrangeiras.
Foi professora convidada nas Universidades de Paris, Cambridge, Roma, Pádua, Liège, Barcelona, Sergipe, Paraíba e Recife e em várias universidades portuguesas. Desempenhou vários cargos de consultoria e de direcção, tais como, Presidente do Departamento de Psicologia Social e das Organizações do ISCTE (1999-2006), Presidente do Centro de Investigação e de Intervenção Social (ISCTE, 1999-2002), Presidente da Associação Portuguesa de Psicologia (2000-2006), Directora da Revista Psicologia (2002-2010), Directora dos Estudos Doutorais em Psicologia no ISCTE (2002- 2006), Consultora da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em Avaliação de Projectos de Investigação Científica (2002-2005), Consultora do Ministério da Educação (GAVE) em Avaliação de Programas de Psicologia (2001-2005), Consultora da Comissão Europeia em avaliação de candidaturas Marie Curie (1998-2001).
Por convite de instituições educativas e de saúde e de Associações privadas e municipais, fez intervenções públicas sobre violência na escola, racismo e políticas públicas, delinquência, educação multicultural e sucesso escolar, negociação de conflitos e situação dos grupos migrantes em Portugal.

Lisboa, Março de 2012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CV NASSALETE MIRANDA


CURRUCULUM VITAE

 
IDENTIFICAÇÃO

 
MARIA NASSALETE GUEDES DIZ (NASSALETE MIRANDA é nome profissional)

NATURAL de S. Miguel de Lobrigos - Concelho de Santa Marta de Penaguião - Vila Real
Morada - Porto


HABILITAÇÕES ACADÉMICAS

 Licenciatura em Filologia Germânica  -  Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Pós Graduação em Direito da Comunicação  -  Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra

Cursos de Línguas dos Institutos Francês, Inglês e Alemão do Porto

Curso de Jornalismo RDP


 

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

Professora convidada (cadeira semestral - Ética e Responsabilidade Social dos Media) na Universidade Lusófona, Porto, desde 2009   

Professora dos Ensinos Secundário e Profissional ( nas áreaS de Língua e de Literatura Portuguesa, Francesa, Inglesa e Alemã)

Formadora em jornalismo nas áreas da cultura, educação e política
 
Chefe do Serviço de Informação da RDP, com a responsabilidade das Antenas 1, 2, 3, RDP/África e RDP/Internacional

Criação e chefia da Redacção do Porto da Rádio Comercial

Editora do jornal "Semanário" com responsabilidades nas áreas da Cultura, Educação e da Política

Formadora no Centro de Formação de Jornalistas do Porto e Instituto Empresarial de Barcelos

Directora do jornal "O PRIMEIRO DE JANEIRO" e de todos os seus suplementos: das Artes das Letras , Justiça & Cidadania, SETE, 

e Concelhos, de 1999 a Julho de 2008

De Junho 2001 a 2005 directora da Revista Rostos 

De 2003 a 2007 conselheira editorial da Folio Edições

Fundadora e Directora do jornal Cultural quinzenal "As Artes entre As Letras", desde Maio de 2009

Desde 2009 coordenadora editoral da Editora SingularPlural



OUTROS

Co-fundadora do Centro de Jornalistas do Porto
Membro de Honra da Confraria Queirosiana
Membro de Honra da Confraria das Tripas
Membro do Conselho Cultural da Academia do Bacalhau do Porto
Membro do Conselho Estratégico da Universidade Lusófona do Porto até 2011
Membro do Conselho Consultivo e Cultural do TEP (Teatro Experimental do Porto)
Membro consultivo da Fundação Mestre Adelino Ângelo
Membro consultivo do Instituto Jurídico da Faculdade de Direito da Universidade do Porto

Prefaciadora e coordenadora de vários livros de poesia, contos, romances e de ensaio
Conferencista e moderadora em inúmeras conferências e debates no País e estrangeiro
Membro Fundador e Coordenador do Prémio Nacional Manuel Pinto de Azevedo Júnior e Prémios Carreira e Inovação
Comissária da Primeira Bienal Mulheres d'Artes e da Exposição de pintura e de escultura "Arte Pintada a Letras" (2011) e de várias outras exposições de 
pintura e de escultura



 

 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

síntese 1910 PORTUGUESE REPUBLICAN WOMEN OUT OF THE SHADOWS

MARIA MANUELA AGUIAR
Former Secretary of State for the Portuguese Communities; Founder and President of the Assembly of the “Mulher Migrante” (Migrant Women -Association for studies and cooperation)
mariamanuelaaguiar@gmail.com

Abstract

In the beginning of the XX century a feminist and republican movement made history in Portugal. In a country where there was no tradition of feminine participation in public life an elite of highly cultured, courageous and strong-minded women came suddenly out of the shadows, with the support of republican leaders, in defense of democratic ideals, like education for all, equal civil laws and universal suffrage.

Key words
Feminism. Gender. Equality. Suffragists. Portuguese Women. Republic of Portugal

MULHERES DA PRIMEIRA REPÚBLICA - conferência da Drª MARIA BARROSO - Espinho, 5 de Março de 2010

Conhecendo a desigualdade de direitos que persistiu ao longo dos séculos entre as mulheres e os homens, não poderíamos deixar de nos surpreender com o oásis que representou o período da I República.
Ainda nos finais do século XIX, Portugal assistiu ao nascimento de algumas mulheres que, antes da República ou mesmo não partilhando o republicanismo, começaram a lutar, com coragem, pela melhoria da situação das mulheres, então, extremamente subalternizadas na sociedade e na família. Não havia educação oficial para as meninas. Saber ler era raro e não tinha importância. Antes pelo contrário, já que, segundo as concepções vigentes, o sexo feminino deveria manter-se reservado e longe das más influências transmitidas pela leitura. É certo que a maioria da população era analfabeta. Mas as mulheres atingiam mais de 80% do total.
O ensino primário começou a existir tarde mas, para as raparigas, nele se conteúdo incluíam os lavores e as prendas domésticas necessárias às formandas, cujo principal destino era o casamento e a família.
O ensino secundário ainda foi mais tardio e o primeiro Liceu feminino – Maria Pia – é de 1906.
Este panorama da educação no nosso País explica as dificuldades das mulheres e é explicado pelo atavismo e preconceitos em relação aquilo que era importante para as suas vidas, na opinião dos homens.
O acesso às Universidades era ainda mais difícil. As mulheres “sábias” e as “doutorices” eram ridicularizadas e, pelo riso e troça, os homens acabavam por mantê-las longe dos cursos superiores.
Os tempos foram mudando. Certamente, algumas notícias chegavam da Europa e da longínqua América despertando as jovens para a injustiça das desigualdades e para as dificuldades que foram criadas às mulheres que não tinham pai ou marido para as sustentar a elas e à família. Trabalhar fora de casa era também um tabu. Ficando sem recursos, as mulheres da burguesia lograram ultrapassar os obstáculos escrevendo ou ensinando, trabalho por que auferiam parcas retribuições para a sua sobrevivência. Naturalmente, que tendo nascido dentro de famílias mais ou menos abastadas, elas eram as únicas a beneficiar de alguma instrução, muitas vezes, com professoras no domicílio e eram também as únicas a poder usar o seu talento para sobreviver.
A oposição social ao trabalho das mulheres não se verificava, porém, relativamente ao povo, às mais pobres, que partilhavam o destino dos trabalhadores rurais e operários, ganhando, contudo, muito menos do que eles.
Neste enquadramento, sumariamente descrito, viveram, trabalharam e sofreram algumas mulheres da transição para o século XX e do início desse século que foram fazendo o caminho para as reivindicações sociais, muitas delas incorporadas na Revolução Republicana. Esperavam as que aderiram à República e às suas instituições – quase todas – que este novo sistema político curasse a sociedade de todos os males. Muitos escritos de mulheres ilustres, como Ana Castro Osório e outras feministas defenderam que “a República não sendo na forma de governo nova nem perfeita… é, no entanto mais lógica, mais compreensível à nossa inteligência e mais tolerável à nossa razão, dando-nos também garantias de progresso”. Ana Maria Gonçalves Dias afirma, igualmente, no Congresso Republicano do Porto, em 1910, que todas as mulheres feministas deveriam ser republicanas, visto que só da República se podem aguardar leis igualitárias e justas. E, com efeito, muitas leis foram publicadas pela I República, em benefício das mulheres e muitas medidas foram tomadas para melhorar a sua situação: novas leis do casamento e filiação baseadas na igualdade, o direito de trabalhar na função pública, a escolaridade obrigatória até aos 18 anos para ambos os sexos e abertura, pela primeira vez, de uma Cátedra a uma mulher, (Carolina Michaëlis de Vasconcelos a quem é concedido o grau de doutor), o início dos cursos de direito para mulheres e exercício da advocacia, até então vedado (Regina Quintanilha).
Como afirma João Estêvão, na obra “Mulheres e o Republicanismo”, “durante 20 intensos anos assistiu-se à adesão ao ideal republicano; ao combate à monarquia; … à criação de organizações partidárias, feministas e femininas; à formação de reivindicações; … à realização de dois Congressos Feministas e de Educação (1924 e 1928). Em momentos únicos, as mulheres estiveram lá. Pensaram, debateram, organizaram-se, actuaram. Escreveram, opinaram, polemizaram. Discursaram, aderiram a causas. Politizaram-se. Alugaram sedes, calendarizaram reuniões. Reivindicaram, peticionaram. Expuseram-se, lutaram, correram riscos, sofreram incompreensões, injúrias e agressões. Marcaram presença em sessões, reuniões, festas, saraus, comícios, congressos, homenagens, celebrações, cortejos, manifestações, funerais, romagens. Foram para a rua. Associaram-se, desassociaram-se, reagruparam-se, conforme desavenças pessoais, divergências de opinião, de estratégia, de liderança e de rumo consoante se assumiram mais como feministas do que republicanas e vice-versa, sendo muitas vezes ambas as coisas, o que originou também fracturas entre as duas causas, com prejuízo para o reforço das respectivas lutas e consequências para a República”.
Mas não se pense que os homens republicanos queriam todos a inteira igualdade entre as mulheres e os homens. António José de Almeida, que apoiou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, esclareceu numa reunião em 1908 o que pretendia daquela organização: “Não se trata de ir ao Parlamento reclamar o voto das mulheres. Não se trata de trazer mulheres para a rua ou para os clubes, envolvendo-as numa febre de agitação a que a mulher portuguesa é tão esquiva e refractária. Pretende-se que cada uma delas exerça na sua esfera de acção, na sua família, nas suas relações, o influxo do seu espírito e o exercício da propaganda”.
A Liga não aceitou este estreito campo de actuação e procurou pugnar pela igualdade entre mulheres e homens, em casa e na rua.
Passado algum tempo e na sequência de posições como a de António José de Almeida advieram desilusões entre republicanos que não viam satisfeitas as aspirações das mulheres.
Ana de Castro Osório recordou às mulheres os acontecimentos anteriores à Revolução Francesa em que aquelas foram utilizadas e de seguida remetidas ao silêncio.
Mas as conquistas da I República foram uma realidade. Entre 1908 e 1928, data do segundo Congresso Feminista e de Educação, verificou-se um enorme incremento da vida cívica e política, tanto a nível associativo como na visibilidade pública enquanto força de pressão sobre os poderes constituídos.
O oásis que as mulheres e os democratas, em geral, construíram teve aquela duração bem curta. Em 1926 inicia-se a Ditadura Militar, sendo dissolvido o Parlamento. Em 1927, teve lugar uma revolta militar e civil no Porto contra a Ditadura Militar, mas foi vencida. O Governo da Ditadura acabou com o regime de coeducação nas localidades em que existisse mais do que um estabelecimento de ensino não superior.
Viveu-se a partir daí um longo período de apagamento da acção das mulheres e dos seus direitos. A Constituição da República de 1933 vem legitimar as discriminações contra elas ao estabelecer a igualdade dos cidadãos perante a lei “salvas”, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem estar da família, o que legitimou, até ao 25 de Abril, todas as discriminações existentes na vida cívica e política, na família e no trabalho.
As republicanas que viveram um período de 20 anos de intensa luta deixaram às gerações que se lhe seguiram um legado que acabou por não ser aproveitado senão muitos anos depois. Foi pena! Porque poderíamos ter sido um país exemplar e progressista se as mentalidades retrógradas do século XIX não tivessem continuado a florescer durante quase todo o século XX.
As mulheres que ajudaram a implementar a I República e a tornar brilhante e grande o seu pequeno percurso, mulheres que foram feministas, pacifistas, maçónicas-livre-pensadoras e republicanas, merecem a nossa admiração e homenagem. Elas foram autênticas guerreiras, tendo conquistado posições que, só cinquenta anos depois, a partir de 1974, conseguimos começar a readquirir e alargar.
Mas que mulheres foram essas? Qual o seu perfil e identidade? A homenagem que desejo propor não pode, infelizmente, por escassez de tempo e benefício da vossa paciência, contar a biografia completa das várias personalidades que constituíram o eixo feminino da I República. Nem esta seria a oportunidade de o fazer. Assim, limitar-me-ei, num resumido apontamento a referir quem são e o que justifica o seu lugar na História. Antes, porém, uma referência deve ser feita, ao facto de feministas ou não, republicanas ou não, todas em geral, terem defendido a instrução e a educação para as mulheres, como factor essencial da sua valorização na família e na sociedade. Ao não terem sido, devida e atempadamente ouvidas, o nosso País perdeu muito do seu alinhamento no progresso e no desenvolvimento, cujo défice ainda hoje sentimos.
Maria Antónia Pusich, mulher culta e instruída, publicou em 1849, a Assembleia Literária que foi o primeiro jornal fundado por uma mulher, tendo tido a coragem de dar a público o seu nome. Fez da escrita o seu modo de vida, para seu sustento e de seus filhos.
Depois da criação do primeiro jornal, muitas outras mulheres passaram a subscrever artigos e mesmo a dirigir publicações. E não se pense que se tratava apenas de imprensa feminina. Investigações feitas relativas ao século XIX, revelam que muitas mulheres colaboraram em jornais literários, noticiosos ou políticos, usando, por vezes, nomes masculinos para fugir à censura social. Teresa Leitão de Barros em “Escritoras de Portugal”, de 1924, descreve as condições difíceis que as mulheres enfrentavam para serem escritoras. Podiam ser estimadas como autoras recreativas, dizia, mas eram postas à margem da sociedade burguesa pela sua situação de mulheres independentes e chefes de família.
Guiomar Torrezão, nascida em 1884, numa família burguesa, desde cedo teve também que prover à sua substância, dando lições de instrução primária e francês, ao mesmo tempo que se iniciava na escrita, com elevado sucesso. Traduziu obras de escritores célebres e trabalhou em vários órgãos de imprensa, designadamente no Diário Ilustrado, Diário de Notícias, Voz Feminina e outros.
Tendo que trabalhar por gosto, mas essencialmente por necessidade pois o pai falecera cedo deixando a família em precária situação económica, Guiomar depressa reconheceu a importância de uma formação superior, a qual, não teve condições de adquirir. Apesar das adversidades, sendo detentora de uma superior inteligência e engenho, cumpriu um brilhante destino como mulher e escritora. Como pioneira lançada numa sociedade conservadora, Guiomar Torrezão, sofreu, como outras mulheres, calúnias, críticas e invejas.
Guiomar contou, porém, com apoios importantes, nomeadamente de Fialho de Almeida, que, por altura da sua morte, depois de elogiar o seu carácter e mérito, diria que “para ser verdadeiramente alguém, ela só teve um obstáculo, o meio onde apareceu e se fez gente. Em Londres ou em Paris, teria sido ilustre. Em Lisboa, quase a quiseram tornar cómica”.
Guiomar deixou vários romances, contos e peças de teatro, representadas nos teatros de Lisboa.
A sua tristeza e conformismo perante uma sociedade tão conservadora está bem patente quando escreveu de si própria, que a sua vida literária era “obscura, improfícua, pobre e triste …” Esperaria mais reconhecimento e também uma vida mais desafogada. E conta que quando no estrangeiro lhe perguntavam quanto ganhava com os seus escritos, via-se obrigada a mentir para defesa da honra do seu país, multiplicando as quantias até atingirem uma soma decente.
Alice Pestana (Caiel), nasceu em 1860, também dentro de uma família burguesa. Aprendeu francês, inglês e piano. Este tipo de educação não a satisfez, porque não queria frequentar salões e precisava de se sustentar e auxiliar a família. Assim, com o auxílio financeiro de uma avó, continuou os estudos, matriculando-se no ensino secundário, ao mesmo tempo que dava lições.
Em 1877, iniciou a sua carreira como jornalista de mérito. Usou um pseudónimo, masculino, CAIEL, como estratégia de legitimação. Além do jornalismo, escreveu livros, contos, novelas e peças de teatro.
Foi grande defensora da educação feminina e encarregada de uma visita de estudo ao estrangeiro para analisar as condições de instrução feminina noutros países.
Fundou, em 1899, a Liga Portuguesa da Paz, de que foi presidente, tendo como outros fundadores, homens ligados ao movimento republicano ou à maçonaria, como Magalhães Lima, Teófilo Braga, Consiglieri Pedroso e Teixeira Bastos.
Tendo casado, em 1901 com um professor espanhol, passou a residir em Madrid. Continuou, porém, a escrever, a estudar e a dar lições, tendo sido professora em prestigiadas instituições espanholas.
Domitila da Carvalho, nasceu em 1871. Frequentou a Universidade de Coimbra em 1891, tendo sido a primeira mulher a fazê-lo. A sua inscrição teve que ser autorizada ministerialmente, a pedido do Reitor, por não haver nenhum precedente. Entrou para o curso de matemática. Mas não ficou por aqui. Em 1899, inscreveu-se também em medicina, juntamente com Sofia Júlia Dias, sendo as duas primeiras mulheres a frequentar este curso. Além de matemática e medicina, obteve ainda a licenciatura em filosofia, tendo alcançado altas classificações em todos os cursos.
Contrariamente a outras mulheres que aderiram às ideias republicanas, esta mulher era monárquica e católica, tendo mantido com a rainha D. Amélia assídua correspondência. O seu percurso político levou-a, mais tarde, a pertencer ao grupo de três primeiras deputadas do Estado Novo.
Abraçou a causa do pacifismo, defendeu a educação das mulheres, mas não defendeu o sufrágio feminino. Foi professora e reitora do Liceu Maria Pia, o primeiro Liceu feminino em Portugal.
Carolina Michaëlis de Vasconcelos nasceu em 1851, de origem alemã. Casada com um português, ficou na história como primeira mulher nomeada, em 1911, para o cargo de professor ordinário de Filologia germânica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde não chegou a leccionar por ter sido, entretanto, transferida para Coimbra. Até à sua morte, em 1925, foi a única mulher a pertencer ao corpo docente de Coimbra. Era especialista em várias línguas. Recebeu várias distinções honoríficas tendo sido considerada a mulher mais erudita do seu tempo. Publicou várias obras, resultado das suas investigações literárias, abrangendo escritores antigos e, também seus contemporâneos.
Por curiosidade, anota-se que segundo Joaquim Ferreira Gomes, até ao fim de 1910, tinham-se matriculado na Universidade de Coimbra 23 mulheres e, até 1926, frequentaram essa Universidade 280 mulheres, mais 257 inscritas.
Regina Quintanilha de Vasconcelos nasceu em 1893 e, em 1910, com 17 anos, foi a primeira mulher a frequentar o curso de direito, até então proibido às mulheres. Como estávamos no auge da revolução republicana, Regina Quintanilha foi recebida em festa pela Academia. Os seus colegas estenderam-lhe as capas para lhe dar as boas vindas.
Foi colega de homens ilustres como Manuel de Arriaga, nomeado presidente da República.
Com o advento da República, muitas alterações se verificaram, a nível académico – os alunos não eram obrigados a comparecer a todas as aulas e podiam escolher o seu plano de estudos com cadeiras de qualquer ano. Foi, assim que Regina Quintanilha frequentou, simultaneamente, o curso de Direito e o curso de Letras recém-criado pela República.
Em 1913, Quintanilha requereu autorização para advogar ao Supremo Tribunal de Justiça, autorização que foi concedida transformando-se esta primeira licenciada em Direito na primeira advogada portuguesa. Este facto causou grande impacto na imprensa e no público que acorreu ao primeiro julgamento que ela fez na Boa-Hora.
Regina Quintanilha foi ainda notária e conservadora do Registo Predial e professora no Liceu Maria Pia. Militou no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e foi presidente da Assembleia Geral deste Conselho, em 1917. Esteve ainda ligada à Cruzada das Mulheres Portuguesas.
As conquistas de Regina Quintanilha foram marcantes para a época, pois não era fácil frequentar o mundo do direito, eminentemente masculino. Também não foi fácil o acesso a outras profissões liberais, apesar da luta renhida das feministas contra o preconceito da inferioridade intelectual das mulheres e da “masculinização” que certas actividades provocavam. Bem clamou Elina Guimarães uma ilustre jurista, escritora e feminista, falecida há não muitos anos, dizendo que conhecia muitas intelectuais que eram todas excelentes mães de família, com vários filhos.
Angelina Vidal nasceu em 1853, numa família da média burguesia. Foi uma voz forte da corrente progressista, empenhada na questão social e do operariado. Viveu com imensas dificuldades, inclusive, a nível familiar. Angelina era uma republicana socializante e o pai um arreigado monárquico o que provocava grandes discórdias familiares. Casou cedo, mas cedo se separou do marido que, pouco depois, viria a morrer. Neste quadro, sofreu muitas privações e foi alvo da reprovação dirigida às mulheres separadas, naquela época.
Com uma aguda consciência das dificuldades da classe operária, ela associou o seu feminismo a formas mais amplas de luta.
No meio das suas dificuldades, valeu-lhe a solidariedade ocorrida no âmbito da “Voz do Operário” com a criação de um subsídio mensal, já que lhe fora negada uma pensão a que tinha direito, por virtude da sua actividade política.
Foi jornalista, tradutora e professora, sendo de recordar a sua actividade de escritora – poesia e prosa – e a publicação de peças de teatro. Recebeu prémios internacionais e fez parte da Associação da Imprensa Portuguesa.
Angelina criticou a monarquia, o clericalismo e o sistema económico e social de então. Ela foi a voz dos desfavorecidos.
Adelaide Cabete nasceu em 1867, numa família ligada ao mundo do trabalho fabril.
Começou a trabalhar jovem, após a morte do pai. Dotada de uma enorme força de vontade, estudou e formou-se em medicina. Foi uma mulher empenhada no movimento feminista e na política e uma republicana convicta. Casou-se ainda jovem com um homem mais velho que, contrariamente à generalidade dos homens de então, não pôs obstáculos à continuação dos estudos da sua mulher. Ele investiu mesmo na formação dela, tendo vendido bens para a custear.
Adelaide fez a instrução primária com 22 anos e concluiu o curso dos liceus cinco anos depois. Em 1896 matriculou-se na Escola Médica de Lisboa e teve professores ilustres, como Alfredo Costa, Miguel Bombarda e Ricardo Jorge. Formou-se em 1900. Defendeu como tese “A protecção das mulheres grávidas pobres, como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações”. É frequente encontrar como preocupação comum a várias destas mulheres a associação entre a condição feminina e as crianças. Escolheu como área de actividade a ginecologia, considerada uma boa escolha, para mulheres, já que a privacidade do corpo feminino tornava mais fácil o recurso a uma médica. Daí, os homens terem defendido, na época, que as mulheres cursassem medicina, apesar de se oporem à educação e ao trabalho independente daquelas.
Mas além de médica, Adelaide Cabete foi também professora, tendo leccionado higiene e puericultura.
Nos princípios do século XX, publicou vários artigos, nomeadamente sobre a condição feminina, versando, muitas vezes, a ligação mãe-criança e o alcoolismo. A luta contra a prostituição foi, igualmente, um tema que lhe mereceu a maior atenção.
A par da actividade profissional, Adelaide Cabete foi um membro muito activo do movimento feminista português. Republicana, era tolerante nas suas ideias mas não sacrificando nunca à ideologia a marcha da conquista da emancipação da mulher.
Em 1907, Adelaide é iniciada na maçonaria, na Loja feminina Humanidade (Loja de Adopção). Depois de terem sido concedidos direitos iguais à Loja Feminina, Adelaide cria a maçonaria mista que durou apenas três anos, chegando a ser a primeira venerável desta Loja. Aliás, viria a fundar Lojas em Lisboa, Alcobaça e Portalegre.
Em 1909 foi uma das fundadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ao lado de Ana de Castro Osório.
A título de curiosidade e pelo seu simbolismo, anota-se que a Adelaide Cabete e a Carolina Beatriz Ângelo, outra feminista ilustre, coube a honra de costurar as bandeiras asteadas no 5 de Outubro, o que revela a confiança que os revolucionários depositavam nestas duas mulheres.
Em 1914, Adelaide Cabete fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas que, desde logo, se associou a organizações internacionais. Este Conselho deveria, segundo os seus estatutos, ser apartidário, sem linha de orientação política ou religiosa, o que não foi fácil, considerando que há sempre uma marca política na luta pelos direitos das mulheres.
O número de mulheres aderentes ao Conselho era muito baixo, à volta de 500, enquanto que, no estrangeiro, em organizações congéneres, as participantes contavam-se por muitos milhares.
O Conselho organizou dois Congressos Feministas, em 1924 e em 1928.
Adelaide Cabete deslocou-se a congressos internacionais e, na qualidade de representante do governo português, foi ao Congresso de Roma, em 1923.
Ana de Castro Osório, nasceu em 1872 e cresceu num ambiente culto e aberto, numa família que não a privou do contacto com novas ideias.
Estreou-se na vida literária em 1894 e casou em 1898 com um escritor, propagandista e activista republicano.
Em 1911, Ana de Castro Osório acompanhou o marido para S. Paulo, no Brasil, continuando, porém, o seu trabalho como republicana e feminista. Voltou a Portugal depois da morte do marido, mas, nos anos vinte, foi convidada pelas autoridades brasileiras para realizar um ciclo de conferências.
Esta mulher foi uma das mais importantes feministas portuguesas, não radical. Foi ainda escritora, editora, pedagoga, publicista, conferencista e republicana. Era vista como mulher de princípios e convicções, mas tendo uma visão gradualista da transformação social, foi alvo de duras críticas.
É considerada uma das fundadoras da literatura infantil em Portugal, tendo feito uma vasta recolha da tradição popular oral do conto infantil. Não se limitando a esta área da escrita, Ana Castro Osório escreveu ficção para outros públicos.
Aderiu à maçonaria em 1907, tal como Adelaide Cabete, e esteve no início da fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
Com o prestígio que possuía, Ana de Castro Osório colaborou com o Ministro da Justiça, Afonso Costa, na modificação de situações de desigualdade na condição feminina. Pretendia-se a alteração do Código Civil de 1867 que estabelecia direitos desiguais para homens e mulheres, subalternizando estas.
Depois de voltar do Brasil, Ana de Castro Osório funda uma loja maçónica com o nome da primeira mulher que votou em Portugal – Carolina Beatriz Ângelo.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Ana Osório defendeu o intervencionismo, tendo sido uma das mais importantes propagandistas da participação de Portugal naquele conflito. Esteve na organização da Comissão Feminina pela Pátria e entre o Grupo Fundador da Cruzada das Mulheres Portuguesas, em 1916 que deveria ser visto como uma instituição patriótica e humanitária e não como uma organização de assistência. Fez ainda parte do grupo restrito das mulheres que tiveram cargos no funcionalismo público, ocupando o lugar de inspectora do trabalho e de vogal do Conselho Central da Federação dos Amigos das Crianças, tutelado pelo Ministro da Justiça e Cultos.
Carolina Beatriz Ângelo nasceu em 1877, frequentou o Liceu na Guarda e veio para Lisboa cursar medicina cujos estudos terminou em 1902. Pioneira na prática das intervenções cirúrgicas, foi a primeira médica que operou no hospital de São José, acabando por se dedicar à ginecologia, como Adelaide Cabete.
Pertenceu a vários grupos femininos e feministas. Foi maçon e chegou a aceder ao grau de venerável. Defendeu o sufrágio feminino e em face das divergências existentes no seio da Liga Portuguesa, afastou-se desta organização e assumiu a direcção da Associação de Propaganda Feminista que não teve, porém, grande sucesso entre as mulheres.
Esta mulher ficou na história, não só como ilustre feminista e republicana, mas por ter sido a primeira mulher a votar nas primeiras eleições da República, em 28 de Maio de 1911. Ela reunia as condições legais: era cidadã portuguesa com mais de 21 anos, sabia ler e escrever e era chefe de família. Mas a República recém-formada não permitia que as mulheres votassem. Precisaram de esperar sessenta anos para verem instituído o sufrágio sem restrições, já depois do 25 de Abril de 1974. A revista “Alma Feminina” explica como Beatriz Ângelo conseguiu votar. Ao tentar inscrever-se no recenseamento, o funcionário administrativo indeferiu-lhe o requerimento. Tendo reclamado, o Ministério tutelado pelo republicano António José de Almeida negou-lhe o pedido. Recorreu para os tribunais e ganhou a causa. O Juiz concedeu-lhe o direito de se recensear e votar. Estava em causa a interpretação da expressão da Lei – “cidadãos portugueses” que, no entender dos homens republicanos, não abrangia as mulheres. Em 1913, o governo, para evitar dúvidas, alterou a Lei Eleitoral e especificou que o eleitor tinha que pertencer ao sexo masculino. As mulheres tinham servido para levantar a República mas já não eram necessárias nos trabalhos de ressurgimento nacional.
Beatriz morreu em Outubro de 1911, com trinta e quatro anos.
Maria Veleda nasceu em 1871, em Faro. Republicana, livre-pensadora e professora, Veleda pertenceu à Associação do Registo Civil e a outras organizações femininas. Antes da implantação da República, ansiava pela revolução, pela liberdade, pelo bem, pela justiça e pela redenção.
Foi considerada uma das mais importantes representantes do feminismo proletário, mas demasiado vermelha, segundo a opinião de alguns republicanos (António José de Almeida). Foi uma brilhante conferencista que, devido às suas ideias sobre a emancipação da mulher e sobre a necessidade de melhorar a situação das operárias e dos mais desprotegidos, era convidada para discursar em vários locais e escutada com muito interesse.
Estas são, algumas, quiçá as mais representativas mulheres que precederam e ajudaram a construir a efémera primeira República.
Algumas outras poderão não ter sido referenciadas. A todas, porém, quero cobrir com a mesma homenagem e gratidão por terem desbravado o deserto de direitos cívicos e políticos em que as mulheres viveram confinadas e construindo um pequeno oásis de liberdade e de valorização dos seus direitos. Oásis de curta duração é certo. Mas ele lá ficou encoberto por poeira para o podermos descobrir, como viemos a fazer


Maria de Jesus Barroso Soares

terça-feira, 5 de junho de 2012

ENCERRAMENTO DO COLÓQUIO SOBRE MARIA ARCHER PELO DOUTOR MÁRIO SOARES



                 Quero cumprimentar a Dra. Manuela Aguiar e dizer-lhe que ouvi, com muito agrado, a sua intervenção. Como sempre, falou muito bem.

                 Quero também cumprimentar o Prof. Doutor Fernando Pádua que é sobrinho de Maria Archer, cuja ligação familiar eu desconhecia. Só dela tive conhecimento quando o Professor Pádua teve a gentileza de me enviar uma carta informando-me da realização desta homenagem e convidando-me a estar presente. Respondi, de imediato, afirmativamente, dada a admiração que sempre senti por Maria Archer, bem como a amizade e o respeito que o Prof. Fernando Pádua me merece.

                 Quero saudar ainda o meu amigo angolano e português, Vítor Ramalho, presidente do INATEL, que nos cedeu esta sala e o meu amigo e ex-Presidente da Câmara Municipal de Espinho, José Mota, bem como todos os presentes.

                 Minhas senhoras e meus senhores

                 Em primeiro lugar, devo dizer-lhes, que conheci, efectivamente, Maria Archer entre 1945/50. Era então bastante jovem, estudante ainda da Faculdade de Letras. Foi um grande intelectual e um homem de esquerda, muito ilustre, Fernando Piteira Santos, que tinha relações próximas com Maria Archer, quem nos apresentou.         Certo dia, Piteira Santos questionou-me sobre se eu a quereria conhecer. E logo, nesse momento, me afirmou que ela era, uma mulher muito bonita, além de ser uma grande escritora. Acedi e foi assim que se estabeleceu o meu primeiro contacto com Maria Archer.
       
                 Nesse primeiro encontro tive conhecimento que Maria Archer já tinha publicado um conjunto de livros. Naturalmente, depois de a ter conhecido fui em busca dos seus livros e comprei os que encontrei e alguns li-os. Não fiquei desiludido. Bem pelo contrário.

                 Maria Archer foi uma grande escritora e uma grande jornalista, muito admirada nos meios intelectuais. Centrou a sua actuação, primordialmente, em duas direcções: a África, que conheceu muito bem desde jovem e a situação da mulher. Realmente, viveu os seus primeiros catorze anos em África, nomeadamente, em Angola, na Guiné e em Moçambique. Desconheço as razões que a levaram até esse continente mas, presumo, que seriam de ordem familiar, para acompanhar o seu Pai.

                 Na verdade, conheceu muito bem esses países, então antigas colónias portuguesas. As suas floras, as suas faunas - e obviamente as pessoas - eram, para Maria Archer, um enigma desvendado. Conheceu a África, de expressão portuguesa como pouca gente.

                 Maria Archer tem uma extensa bibliografia sobre África quer em jornais, quer em livros. E, se atentarmos à época em que ela escreveu, é ainda mais extraordinário. Nessa altura, ninguém ou muito poucos portugueses, nos meios literários, pensava em África. Não existiam ainda movimentos de descolonização, como anos mais tarde se verificou. África era um continente desconhecido para a maioria esmagadora dos portugueses. Maria Archer teve o grande mérito de nos desvendar os países de expressão portuguesa, na altura colónias, os seus hábitos, as suas gentes, as suas vidas.

                 A outra direcção do seu trabalho de escritora centrou-se na situação da mulher. Maria Archer foi sempre uma partidária da igualdade entre a mulher e o homem. Escreveu livros verdadeiramente admiráveis. Por exemplo, este que aqui tenho: “Nada lhe será perdoado”, que é uma edição recente, tem um título deveras sugestivo. Nesta obra, a condição da mulher é descrita de forma veemente e esclarecedora. Nos anos em que a narrativa decorre as mulheres eram submetidas a grandes pressões. Lembremo-nos que, por exemplo, as mulheres casadas não podiam sair de Portugal, sem a autorização do marido, não podiam fazer nada sem a autorização do marido.

                 Os livros desta escritora tão inteligente e bem parecida, representam, e isso é importante para o futuro, uma época em que a mulher era muito diferente e desigual em relação ao homem. As mulheres que ousavam ser diferentes, eram muito mal vistas pela sociedade de então. As mulheres ficavam no lar e, na maior parte dos casos, não tinham profissão.

                  Maria Archer foi uma jornalista conhecida e muito estimada que vivia do seu próprio trabalho e escreveu os “Cadernos Coloniais”, que tão bem retratavam a África daquele tempo.

                 Esta escritora e jornalista, conheceu bem Henrique Galvão, também ele, um grande escritor sobre África. Noutra perspectiva. Foi um interessado e conhecido caçador de feras.

                

                 Mais tarde Henrique Galvão lutou contra a ditadura, depois de ter sido salazarista convicto e o responsável no tempo da Exposição Colonial.  Mas o fim da II Guerra Mundial converteu-o à democracia.

                 Ao contrário de Maria Archer que, como disse, nunca foi salazarista. Como Maria Archer, também Henrique Galvão se refugiou no Brasil, onde faleceu, com alzheimer. Sei isso porque o visitei em São Paulo, no Brasil, em 1969.

                 Devo confessar-vos, que fiquei deslumbrado com Maria Archer, aliás o Piteira Santos tinha-me avisado: ela era efectivamente uma mulher muito atraente, embora com uma grande diferença de idade em relação a mim. Era insinuante, faladora, sempre à vontade. Uma pessoa muito peculiar e interessante sobre todos os aspectos. Nos poucos contactos que com ela tive - e os livros dela que li com muito agrado -  percebi a força das suas convicções e o indiscutível conhecimento de vida e a inteligência que dela emanavam.

                 Aliás, foi com grande espanto que a vi partir para o Brasil. Partiu, ao que me disseram então, porque lhe era impossível continuar a viver em Portugal. Foi para o Brasil numa altura má para ela. Viveu poucos anos em democracia, por vir logo a ditadura militar no Brasil.

                 Voltou, muitos anos depois, logo a seguir ao 25 de Abril. Vivia-se então um período difícil, em que se lutou por implantar uma democracia pluralista e civilista, em Portugal. Dados os problemas e dificuldades que vivi nessa altura, nem sequer soube do regresso de Maia Archer. Aliás nunca mais soube dela. Nem sequer do seu falecimento tive notícia.

                 Lembro-me, por exemplo, de outro grande escritor, que viveu muito tempo na América do Norte, José Rodrigues Miguéis, cujo principal - e admirável - romance se intitula “O Milagre segundo Salomé”, um romance escrito ao longo de 12 anos e que foi publicado em Portugal durante o PREC, justamente no ano de 1975, o período mais agudo e difícil da Revolução Portuguesa.

                 Nessa altura, desloquei-me à América, onde fui a uma Universidade, proferir uma conferência. Encontrei-me então com um professor açoriano que me informou que a Biblioteca da Universidade era detentora de todos os papéis de José Rodrigues Miguéis. Convidou-me a ler algumas cartas e desabafos dele. Assim o fiz. Deparei com um diário onde José Rodrigues Miguéis escreveu, a dada altura: “Hoje, finalmente, terminei o meu livro. Vou enviá-lo para Portugal para os meus amigos. Vamos ver o que eles me dizem”. Quinze dias após esta anotação surge uma outra em que o escritor comenta: “Passaram 15 dias. Os meus amigos nada disseram sobre o meu livro”. Mais à frente encontrei outra nota: “Passaram mais 15 dias e ninguém me diz nada, ninguém faz uma referência ao meu livro”. Vivia-se, então, uma altura muito crítica da Revolução e, na realidade, as pessoas estavam todas muito preocupadas e não davam atenção aos livros que iam aparecendo nos escaparates. José Rodrigues Miguéis ficou muito ferido com esta indiferença perante a sua obra e nunca conseguiu perceber o que se passava.

                 Tal como José Rodrigues Miguéis, naquela altura, Maria Archer foi, também, no seu isolamento, vítima das circunstâncias vividas, em Portugal...

                 Recordo uma sua contemporânea, ilustre escritora, Irene Lisboa, que estava ao seu nível, bem como, mais tarde, Natália Correia e  Sofia de Mello Breyner, também excepcionais escritoras e poetisas.

                 Hoje, felizmente, e ao contrário da época em que Maria Archer se afirmou, há muitas mulheres escritoras e excelentes.

                 Refiro isto porque acho que é muito importante que as mulheres escrevam e, digam o que verdadeiramente pensam. Para que este mundo - e sobretudo a nossa Pátria - venha a ser melhor.

                 Muito obrigado!



Lisboa, 29 de Março de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

IDALINA GONÇALVES

A Mulher Portuguesa


A Presidente da Associação da Mulher Migrante,
A Ilustre amiga Dra. Rita Gomes.
A Presidente da Assembleia Geral, a Ilustre Dra. Maria Manuela Aguiar


Em “ O Primeiro Homem ,“ Albert Camus, faz uma discrição da condição do Emigrante. Sua partida por falta de emprego na sua Terra natal. A frustração, a Dor e a Superação.
Por isso recorremos a este autor, porque a Emigração é um assunto Universal.

A movimentação dos portugueses pelo mundo, tem algo Bíblico. Foi uma verdadeira Epopeia que de certa forma nos orgulha; a determinação e o patriotismo, que lhes fizeram encarar todas as adversidades que são peculiares a quem saiu de sua Terra Natal.

A palavra diáspora define a dispersão de um povo, em consequência de preconceito, perseguição política, ética e religiosa. O problema da maioria dos portugueses foi de natureza econômica.

Com toda a maestria, Eça de Queiroz (1871), escreveu: “Em Portugal não é, como em toda a parte, não é o excesso de uma população que sobra; mas a fuga de um povo que sofre. A emigração não significa a ausência, mas o abandono... “

Maria Archer, foi escritora e jornalista, na época do “Estado Novo “domínio salazarista que desejava a mulher em casa, e de preferência “casadinha “. Mas, mesmo assim, a Guerreira produziu livros e artigos para jornais, em meio a um cenário de vozes masculinas.

Como tudo na vida tem um preço; Portugal indicou-lhe a saída, e, ao que parece esta prática continua em vigência .…...

A um jornal do Rio de Janeiro, Maria Archer declara:
“ Vim para o Brasil, tendo chegado dia,15-07-1955, porque já não podia viver em Portugal. A
ação da censura asfixiou-me e tirou-me os meios de vida. Apreenderam-me dois livros publicados, assaltaram-me com policiais a minha casa e levaram-me um original, que ainda estava escrevendo. Violência inédita em países de civilização europeia.” ( Diário de Notícias,15-01-1956)

Recordando Helen Keller , (USA) da mesma época da nossa Homenageada.
“A vida é uma aventura ousada, ou não é nada.
Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar.”...

Nós os portugueses, desde tempos remotos temos necessidade de ir além de; por sermos uma civilização formada de diferentes etnias. Mas, com a alma Lusitana .

O Emigrante, vai na esperança de um futuro misterioso do Eldorado... Partiu, mas preserva o desejo de voltar, como bem expressam os versos do poeta, Vinícius de Moraes em “Pátria Minha, “ falando de um sentimento que não morre.......



“ ...Tenho-te (Pátria), no entanto, em
mim como um gemido.
De Flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma Fé
Sem dogma, tenho-te em tudo em que não
me sinto a Jeito.
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem Pé- Direito...”


Este Poema, é a minha homenagem a Maria Archer e a Todas as Marias,
que um Dia, também Partiram.....



Com os cumprimentos da sócia, (A.M.M) ,portuguesa açoriana.

Idalina Andrade Gonçalves

Fundadora e Presidente, da A Associação dos amigos Escritores e Poetas na Escola.