quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

COMUNICAÇÃO ELISABETH BATTISTA

Maria Archer – O encontro com uma escritora viajante

Elisabeth Battista 1

Com Maria Archer gasto horas de trabalho e de lazer ficando-me sempre a impressão
de haver passado momentos em boa companhia. Conheci Maria Archer na travessia para a
outra margem do Atlântico. Sim, depois que li Ela é Apenas Mulher (1944), no contato com Esmeralda, personagem principal do referido romance, foi encanto à primeira leitura. Naquela oportunidade, debrucei-me à janela e fitei, junto com ela, o majestoso Tejo, no seu desembarque em Cacilhas, frente à Lisboa.
Quando isto se deu? Parece que foi ontem, mas remonta a 2003, o tempo em que a Universidade de Coimbra sediou um evento internacional, no qual, em companhia de uma equipe de investigadores do Brasil, participei com apresentação de trabalhos. O grupo2 de estudiosos da Universidade de São Paulo – USP, dentre os quais a minha orientadora do Doutorado, a Professora. Dra. Benilde Justo Lacorte Caniato (in memorian), e a Professora. Dra. Tania Macêdo, tomou parte ativa no evento que congraçou investigadores de diversas áreas e vários países, visto se tratar de um
Congresso Internacional Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais.
Entretanto, de passagem por Lisboa, a Professora Benilde adquiriu a obra Ela é Apenas
Mulher, de Maria Archer, reeditada em 2001 pela Editora Parceria A. M. Pereira, e recomendou-me a sua leitura. Esta foi motivação suficiente para que despertasse em mim o desejo de conhecer o conjunto da produção criativa da autora e saber mais sobre a sua biografia. E tendo o meu Projeto de Doutoramento a finalidade de contribuir para o estudo de autoresda literatura de Língua Portuguesa a partir do século XX ainda pouco explorados nas relações literárias Brasil, Portugal e África, a obra de Maria Archer logo me pareceu ser um corpus em Foi assim que ao ter elegido como objetivo dar visibilidade à diversidade cultural gerada por essas relações, me lancei na busca de documentos que fornecessem um testemunho da gênese da obra e da vida de Maria Archer, inclusive visitando alfarrabistas e adquirindo todos os
títulos disponíveis. Nessas andanças conheci a escritora Maria Albertina Mitelo. À medida que sobre os materiais me debruçava, deparei-me com um fato curioso que corroborou ainda mais a minha reflexão: O fato de tendo ela nascido no limiar do século XX, e tendo contatado direta ou indiretamente com as correntes de pensamento que influenciaram, ou afetaram de forma intensa o ambiente político-cultural português até meados dos anos cinquenta do século passado, e ser, não obstante, pouco estudada pela historiografia literária da Literatura Portuguesa.
Buscando entre os lusitanos notícias sobre a autora e sua obra, contatei a amiga e poetisa Maria Albertina Mitelo3, a qual se referiu a uma recente entrevista do Professor Fernando de Pádua4 à televisão portuguesa, em que ele, na ocasião teria nomeado a escritora Maria Archer como sua tia, e dava a conhecer a última reedição da obra Ela é Apenas Mulher. De fato, o dado fornecido pela Maria Albertina Mitelo foi fundamental para que eu acessasse um outro estágio da investigação. Isto porque, ao tomar conhecimento dos objetivos que o mesmo perseguia, o Professor Fernando de Pádua, com a generosidade que lhe é peculiar, acolheu-me muito prontamente e concedeu uma entrevista, colocando-me em contato com pessoas simpatizantes à causa. Na oportunidade, citou existência da Dissertação de Mestrado5 da Professora Dina Botelho, trabalho que mais tarde fez chegar às minhas mãos. Gesto que por si só fala da confiança depositada, motivo pelo qual sou grata.
Trata-se de uma investigação que resultou num primoroso ensaio sobre a obra e a vida de Maria Archer que veio a servir-me de relevante base e fonte de consulta. Encontrei apoio também na pessoa da Dra. Olga Archer Moreira, sobrinha-neta de Maria Archer, que amavelmente me forneceu duas fotografias para ilustração daquela que em 2007 viria a ser a minha futura tese de doutoramento.
De regresso ao Brasil, o percurso investigativo mostrou-se pleno de gratas revelações. A maior delas foi constatar que, em seu longo exílio em terras brasileiras (1955 a 1982), a escritora havia lançado quatro obras e dezenas de crônicas jornalísticas. Note-se que talvez ela tenha sido a primeira autora a ter a noção exata da escassa circulação literária entre a África e o Brasil, o fato logo posto em evidência no seu ensaio jornalístico sobre o tema, “A Censura à Imprensa e ao Livro” (1956), publicado no periódico Portugal Democrático. Aí, reivindica o direito à circulação literária entre os países de Língua Portuguesa. Sete anos mais tarde, Maria Archer, no prefácio de sua obra África Sem Luz (1962:5-6) é distinguida pelo reconhecimento dos editores em relação ao fato acima. A propósito colhi da Nota
explicativa do ensaísta e crítico literário Paulo Dantas6, na referida obra, publicada no Brasil, na coleção Círculo do Livro, o seguinte comentário: (…) Sente-se que a escritora ama o seu mundo africano, compreende a sua gente, capta as suas ingenuidades desenhando com segurança a paisagem geográfica e social do Continente Negro, no qual tem vivido e participado, através de viagens, pesquisas, passeios etc. (…) Longe de ser uma “mera turista africana”, Maria Archer, já com uma dezena de livros escritos e publicados sobre a África, é uma das vozes esclarecidas
do continente. (…) Viveu e habitou na África. Cresceu no seu chão. Formou-se no seu clima. Física e psiquicamente integrada numa grande e total intimidade ecológica, a escritora tornou-se autoridade no assunto, daí o domínio com que aborda a África em todas as suas coordenadas geográficas e latitudes morais, oferecendo-nos valores de comando e interpretação.(...) A coletânea de narrativas que integram África Sem Luz apelam à imaginação e evocam a tradição oral – elemento fundamental da cultura desses povos africanos, com quem a autora travou contato. O jogo narrativo sobrepõe-se a dimensão documental. Em suas páginas identificam-se elementos que apontam para o universo plural e diverso que caracteriza as linguagens que a autora buscou exprimir, na sua relação literária e cultural com o continente africano e com o seu tempo. Acresce ter sido uma excelente jornalista, razoável romancista e ensaísta de certo interesse. Foi sobretudo cronista, autora de vários romances e várias dezenas de contos, como “A Sedução do Mistério” (1944) e “A Japoneza” (1956). A sua escrita tem fascinante clareza. Há uma capacidade de fundir o olhar observador e atento à astúcia de exímia prosadora, elegância no verbo e expressão impactante. Seus textos suportam uma leitura antropológica, e aí parece ter sido precursora.
A melhor fase de sua produção criativa começou na idade madura, ao atingir os 40 anos, mas desde o começo já eram pessoais o seu estilo e visão de mundo. O trato da escrita, no processo literário, em grande parte foi dedicado ao forte sentimento de identidade e divulgação da cultura dos países africanos que se comunicam em Língua Portuguesa.
A cultura portuguesa deve-lhe não apenas as contribuições da escrita perspicaz, mas sobretudo a abordagem lúcida e corajosa de questões que abrangiam a vida social e suas contradições que ela teve a ousadia de levantar sendo este um dos seus traços mais marcantes. A linguagem de Maria Archer não tem banalidades, expõe os conflitos morais e sociais do seu tempo por meio da representação artística. O romance Ela é Apenas Mulher (1944), por si só, constitui- se emblema significativo e, não menos importante, ao tempo de sua permanência no Brasil o seu contributo, ao produzir inúmeros artigos nos jornais O Estado de São Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático que deram força à resistência ao regime vigente em Portugal. Todo o trabalho de investigação culminou na tese de doutoramento intitulada Entre a

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Campus da capital, em 2007, e que teve como objetivos ressaltar as experiências e a contribuição literária desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa para a recuperação e a organização da produção criativa da autora, e sobre a sua obra laborada no período de exílio no Brasil (1955 a 1963). As preocupações, naquele momento, recaíram principalmente na caracterização e avaliação de sua prática, no contexto dos anos 50-60, período rico e fértil em transformações, tanto no Brasil quanto em Portugal e de intensas lutas pela independência na África lusófana.
Este depoimento, que muito me apraz produzir é também um dos produtos do Encontro
Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora7, dedicado em homenagem à memória das Marias: Archer e Lamas. O evento e a publicação que integrará este e outros textos traduzem-se na atualização da memória e vem, até certo ponto, colmatar uma falha que pesa sobre o nome da autora, e não merece ser deixada ao abandono dos investigadores, tanto mais que é amplamente reconhecida pelo público-leitor.
A literatura de Maria Archer8 singrou as águas do Índico, do Atlântico e aportou no
Brasil. Pode-se dizer que, assim como a força unificadora da língua de expressão portuguesa, a sua produção criativa provou ter vocação marítima, pois transpôs os hostis entraves das fronteiras geográficas, e passou a ser abertura para o estreitamento dos laços identitários entre os países

7 Realizado pela Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, com apoio da Secretaria de
Estado das Comunidades Portuguesas, na Maia em novembro de 2011.
8 A autora, além da contribuição à imprensa periódica publicou no Brasil: Terras Onde se Fala Português (1957),
Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), África Sem Luz (1962), Brasil, Fronteira da África (1963).

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