segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MARIA VICTÓRIA PEREIRA Mulher Migrante Portuguesa na RAS

Maria Vitória Pereira
A Mulher Migrante Portuguesa radicou-se aqui na África do Sul, vinda sobretudo da Madeira, Portugal Continental e nas décadas 60 e 70 das chamadas “Províncias Ultramarinas” – Angola e Moçambique. Umas vieram forçadas por razoes económicas e outras por razoes políticas, empurradas pelas guerras de libertação de Angola e Moçambique, que apanharam os chamados “colonialistas” absolutamente desprevenidos - alguns eram já a quarta geração de Portugueses nascidos em África e nunca tinham sequer posto o pé em Portugal. As Mulheres que emigraram então, viram-se obrigadas a deixar a sua terra, com família ou só parte dela, acarretando o pouco que podiam levar consigo, e “novas ondas temerosas enfrentaram” com coragem, e determinação. Houve uma minoria que veio mais bem preparada, tendo por vezes até estudado na África do Sul, e para essas a adaptação foi menos penosa, pelo menos na parte económica e da comunicação.As dificuldades que muitas passaram aqui, num pais que desconheciam e cuja língua não falavam foram enormes. Como comunicavam com os médicos, por exemplo? Porque embaraços passavam quando talvez tivessem que levar um filho para as ajudar traduzir o que diziam? Mas com coragem e perseverança e muita fé, elas adaptaram-se, reencontraram a sua identidade, e algumas até começaram a tentar falar a língua em que ficaram fluentes, sem nunca ter tido lições. Um dos factores que por vezes para isso contribuiu foi no campo religioso o converterem-se por vezes ao Protestantismo e através disso fazendo amigos sul-africanos. Isto faz-nos realizar o papel que a religião tem como elemento de consolidação étnica, ou de desintegração étnica. As Migrantes que se mantiveram católicas, frequentando uma igreja Portuguesa, mantiveram muito mais as suas tradições, língua e cultura e envolveram-se menos com Sul-Africanos. No ano 2000 acabei um estudo sobre a influencia da religião na identidade e na adaptação social da Mulher Portuguesa em Durban, e observei então que havia uma tendência, principalmente entre as jovens, de se juntarem a igrejas Protestantes, e isso porque nelas encontravam mais liberdade de expressão e melhores grupos de apoio social, alem de serem mais vibrantes, encorajando musica estilo moderno e “coffee shops” para fomentar o convívio.Podemos na verdade ter orgulho do que nós, Mulheres Migrantes, conseguimos atingir e de termos nas nossas fileiras, mulheres determinadas, as esposas e mães que no lar ou junto ao marido no seu “shop”, trabalharam arduamente para o bem da família, com muito pouco reconhecimento, tendo as vezes ate sofrido o martírio de ver o esposo assassinado na sua frente, nesta onda de crime que invadiu o pais, e que esta a levar muitos a emigrar novamente. Entre as mulheres que profissionalmente honram Portugal, temos a cientista Olga Visser, e a economista Maria Ramos.Como no tempo dos naufrágios em que uma boa percentagem de mulheres sobreviveu aos homens seus companheiros, as migrantes sobrevivem e sem dúvida que encontram um forte esteio na sua fé, e no apoio da família. No entanto, as diferenças culturais entre Portugueses e Sul-africanos, também se fazem sentir, e muitas vezes os filhos e filhas, educados aqui, tornam-se mais Sul-Africanos do que Portugueses, estando bem integrados na comunidade hospedeira, e por vezes nem entendem Português. Assim, a comunicação entre gerações, sempre difícil, torna-se ainda mais problemática. Aprender o Português, não é fácil para os jovens, por razões de localidade, falta de professores, etc. E assim ė triste ver essas Mulheres, jovens pioneiras então, agora envelhecidas, encontrando-se por vezes bastante sós.O aceleramento do passo de vida, influenciado pela competição, pelos celulares, televisão e computadores, e facilidades de transporte estão a afectar o sistema familiar e a fluidez da sociedade. O grau de apoio e respeito dado aos mais idosos, está a diminuir, pois não há tempo para “os velhotes”, e aqui, se eles não falam Inglês o problema é ainda maior. É por isso que são muito importantes, organizações como a Sociedade Portuguesa de Beneficência, com os seus Lares de Terceira Idade, e as organizações culturais como a Liga da Mulher Portuguesa, que procuram manter e fomentar o interesse pela língua, cultura e tradições, e alem destas, as organizações desportivas e os clubes de entretenimento, bem como Projectos que visem a atrair Jovens para essas organizações, ou que contribuam para um melhor entendimento do que sao os Portugueses e Portuguesas Migrantes, e quais são as suas experiencias como por exemplo o Projecto de Colecção de Estórias de Mulheres Portugueses em África, contadas por elas próprias, iniciativa da Liga da Mulher. E além disso, são também importantes as igrejas. Existe uma necessidade de renovamento dos valores morais e religiosos que afectam a coesão social. Não façamos da tecnologia e do divertimento, novos deuses a que tudo se submete. Ao ler os textos sagrados de todas as religiões pode ver-se que a natureza humana não parece ter mudado muito desde o tempo do Adão e Eva. Esses textos são também inspiração para aplicação de princípios necessários para a sobrevivência da sociedade. O “Amar ao próximo como a si mesmo” talvez soe cliché, mas não deixa de ser uma máxima cuja aplicação só pode ser socialmente positiva.Não estou a promover um retorno ao fundamentalismo, mas sim um retorno à reflexão sobre as nossas origens, o significada da vida e o nosso futuro. Uma revisão dos textos ou tradições orais, sagrados, sejam de que cultura forem, pode enriquecer-nos se for uma revisão feita em dialogo entre o texto ou tradição e o leitor ou ouvinte e compartilhada entre as pessoas, incluindo a troca de experiencias individuais. Isto é importante sobretudo para nós Mulheres, pois esse exercício pode libertar-nos de interpretações patriarcais que têm promovido a violência e a opressão da Mulher. Uma reflexão sob uma perspectiva “mulherista”, que convida o homem também para o diálogo, para que, em conjunto, possamos reflectir sobre a nossa maneira de estar no mundo, e sobre o futuro que queremos deixar para os nossos filhos e filhas.Na altura em que a ANC subiu ao poder aqui na África do Sul, observou-se então um certo desinteresse na continuação do ensino religioso ou sobre religião, o que afectou a sua amplitude, quando não foi mesmo eliminado. Foi no ano passado, uns treze anos mais tarde, que ouvi um Professor com um posto de grande responsabilidade, dizer que os departamentos de Educação estavam a começar a admitir que talvez essa despromoção da religião tivesse sido um erro, e que talvez fosse a razão dum pernicioso enfraquecimento moral que se estava a observar na juventude – até com casos de violações de mulheres estudantes dentro das universidades.Se os valores morais não têm uma base sólida onde assentar, atrofiam-se e atrofia-se também o respeito e consideração pelos outros. No ano passado, foi publicado pelo Circulo de Mulheres Teólogas Africanas Conscientes e apresentado nos Camarões, um livro intitulado “Tempo de Mudar, Tempo de Agir”[1][1][1]. É uma colecção de estórias, reflexões e poemas, escritas por Mulheres de Moçambique e de Angola, em que elas reflectem sobre a sua relação com Deus e a problemática da SIDA, analisando as suas experiências dentro das suas Familias, igrejas e comunidades e apontando para a necessidade dum novo estudo “mulherista” da Bíblia, e para o diálogo, aberto e franco, sobre a SIDA, começando com a necessidade de alterar os paradigmas mentais dos próprios lideres religiosos, pois as igrejas também têm de mudar - e nem todos os líderes estão inocentes. É importante reeducar os homens e mulheres sobre relações sexuais e sobre a SIDA. É importante reanalisar os textos sagrados e certas normas culturais como o “lobolo” para libertar a sociedade de práticas patriarcais que fomentam o silêncio e a opressão, sobretudo da Mulher.A Mulher é condicionada de criança a identificar-se com a família e quando adulta com as filhas e filhos, e se sofre ou presencia qualquer abuso emocional ou mesmo físico, tem a tendência de nada dizer, pois falar mal da família é falar mal de si própria e assim a conspiração do silêncio mantém-se. A falta de apoio e o espírito competitivo que por vezes existe entre mulheres também pode ser atribuído ao patriarcalismo.Migrantes ou não, procuremos fortalecer e fomentar a nossa união, como Portuguesas e como Mulheres, e não só dentro das fronteiras em que vivemos - hoje em dia bastante fluidas - mas também, para além delas.Juntemo-nos com as Mulheres de outros países, principalmente dos países Lusófonos, para juntas ajudarmos a criar um mundo Novo, um mundo Melhor. Nós somos as Mulheres e somos as Mães. Temos poder! Usemo-lo... enquanto é tempo!
Joanesburgo, 6 de Fev. 2008
Maria Victória Pereira

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